Mulheres agredidas aprendem a se defender no curso ‘Reage, Maria’

Neste sábado, 15 mulheres agredidas por ex-companheiros e que conseguiram medidas protetivas começaram em Americana o curso, que é oferecido pela Gama


Na noite de um domingo de agosto de 2018, a terapeuta ocupacional Angela Roberta Trevisan, de 47 anos, achou que fosse morrer. Estava no começo de um relacionamento e pela primeira o quase namorado iria dormir em sua casa. Angela sentiu que o sujeito estava estranho, parecia drogado. Mas não houve qualquer discussão entre eles.

Então, um vizinho pediu para que o amigo de Angela tirasse o carro de frente de sua garagem. A terapeuta entrou no carro e se ofereceu para fazer isso por ele. Foi o estopim para uma sessão de agressões. “Me pegou pelos cabelos, me chutou, me cortou a boca, me cortou de fora a fora. Eu desmaiei na rua”, contou ao LIBERAL.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Curso ‘Reage, Maria’, oferecido pela Gama, ensina mulheres a se defender de agressores

Um casal que estava na calçada tentava segurá-lo, mas não conseguiu. O homem era forte demais, diz Angela. Ele chegou a ir embora, mas só para dar a volta no quarteirão e retornar para iniciar a parte mais pesada das agressões. O homem a jogou contra um espelho que havia no quintal. “Ele me quebrou nesse espelho, fiquei inteirinha marcada. Ele me deu chute, tudo”.

Ele a prendeu com o pé com tanta força que a sola do tênis ficou marcada no braço de Angela. A terapeuta ficou uma semana sem conseguir se alimentar direito, por causa dos cortes na boca. Espancada por uma pessoa muito maior, o máximo que conseguiu fazer foi arranhar o rosto do agressor.

É justamente para aprender a fazer mais do que isso que Angela e outras 14 mulheres começaram neste sábado o curso “Reage, Maria”, oferecido pela Gama (Guarda Municipal de Americana). Todas foram agredidas por ex-companheiros e conseguiram medidas protetivas na justiça.

“Não precisa ter habilidade, não precisa ter preparo físico, não precisa ter nada”, explica o inspetor Fernando Faria, que deu a primeira aula às mulheres e sentiu que a principal dúvida de todas era se teriam capacidade de se defender diante de um homem fisicamente muito mais forte. E a ideia do curso é dizer que sim, é possível, e mostrar como e onde bater.

O ponto-chave, explica Faria, é acertar os pontos sensíveis do agressor: olhos, nariz, garganta, testículos e articulações.

“O curso é desenvolvido pra quem não tem conhecimento nenhum, não tem força física, não tem resistência, não tem preparo, pra mostrar que elas conseguem se defender”.

As mulheres formaram duplas no tatame enquanto simulavam os golpes aprendidos. O curso terá duração de três meses. São duas turmas com 34 inscritas.

As aulas de defesa pessoal são uma das ferramentas de um programa da Gama para acompanhar mulheres que obtiveram medidas protetivas contra ex-companheiros agressores. Além das aulas, as que quiserem podem instalar no celular um aplicativo de botão do pânico, para um contato direto com a Gama caso o agressor apareça de novo.

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