‘Moradores de rua devem ser tratados com respeito’, diz secretário

Secretário de Ação Social de Americana, Ailton Gonçalves fala sobre como diminuir o número de moradores de rua sem perder o olhar humanizado


Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
Ailton características da cidade contribuem para agravar o problema

Basta uma volta pela região central de Americana para confirmar o que todo mundo já percebeu. O número de pessoas morando nas ruas cresceu e se impõe como o desafio do momento para a Secretaria Municipal de Ação Social e Desenvolvimento Humano.

O pastor Ailton Gonçalves Dias Filho, responsável pela pasta, confirma o crescimento, defende olhar humanizado sobre o problema e prevê que ele será minimizado.

Segundo ele, a luz no fim do túnel virá com a contratação da OSC (Organização da Sociedade Civil) para implantação do Seas (Serviço Especializado de Abordagem Social). O secretário garante que o serviço começará a funcionar em agosto e reduzirá o problema. A abordagem aos moradores de rua acontece atualmente, mas de forma tímida, feita por apenas uma assistente social.

O último cadastro com moradores de rua feito em Americana é de 2017. Na época, o levantamento apontou 115 pessoas. Para o secretário, o problema está longe de ser local. É nacional. Algumas particularidades de Americana, no entanto, ajudam a impulsioná-lo.

O pastor cita a localização da cidade numa região conurbada, sua fama de ser um município rico e até a generosidade de seus moradores. Ele diz que são várias as entidades, igrejas e voluntários que vão para as ruas à noite distribuir alimentos e colchões aos moradores. A iniciativa, na visão do secretário, tem de ser valorizada, mas acaba contribuindo para incentivar a permanência das pessoas nas ruas.

Na prática, o que vai mudar com a contratação da organização?
Hoje nós realizamos o serviço timidamente. Se alguém ligar aqui falando sobre a existência de um morador de rua num determinado lugar, tenho uma assistente social para mandar lá. Mas isso está muito aquém do que deveria ser feito. A contratação da organização vai nos permitir ter uma equipe maior, focada nesse trabalho sete dias por semana.

Isso resolverá o problema?
Temos consciência de que não iremos zerá-lo, mesmo com a implantação do Seas. Não é um problema local, mas sim de abrangência nacional. Americana é uma cidade rica, numa região conurbada formada por 21 municípios. Isso atrai moradores para cá. Além disso, Americana é uma cidade muito generosa. Temos hoje igrejas, associações e voluntários que fazem sopa, levam comida aos moradores de rua. Essas ações, movidas muitas vezes por crenças religiosas, tem de ser valorizada, mas acaba incentivando os moradores a se manter nas ruas. Então nem sempre dar a sopa, o alimento e o colchão significa está ajudando. É uma ajuda mentirosa. Não resolve o problema.

O senhor concorda que o número vem crescendo nos últimos meses?
Tem crescido sim. Em especial nas últimas semanas. No mês de junho temos elementos como as festas juninas e eventos tradicionais, como as quermesses e festa do peão, que atraem muita gente. E aí não vem só o turista, mas também os moradores de rua. Alguns estão em busca de uma melhora de vida e outros, apenas de passagem. Independente disso, são seres humanos e precisam ser tratados com respeito.

Como o senhor está lidando com as críticas sobre isso?
Um trabalho como nosso nunca está isento de críticas. Não tenho medo de críticas, muitas vezes elas nos ajudam a melhorar, mas vou rebater as injustas e caluniosas. Como eu falei com os comerciantes, eu sou pastor, mas não faço milagre, e não tenho como fazer eles desaparecerem num passe de mágica. Não tenho varinha de condão para isso. É um ser humano que está ali e merece ser tratado como tal. Até um animal merece respeito, imagina um ser um humano. Então, essa é a minha visão também.

O senhor acha que as pessoas deveriam mudar o olhar e enxergar os moradores de rua de uma outra maneira?
Sim. Eu sei que às vezes o morador perturba num restaurante, numa loja, mas quem tem que mostrar maturidade? O comerciante, o pastor ou o morador de rua? Eu tenho que mostrar maturidade e o comerciante tem que entender que é uma situação de vulnerabilidade social. É lógico que não vamos deixar o morador de rua fazer o que ele quer, mas devemos tratá-lo com respeito, não podemos perder a visão do ser humano. É um homem que está ali, uma mulher, às vezes tem uma criança por trás. E nós trabalhamos como ser humano. Eu sou pastor antes de ser secretário e eu creio na recuperação das pessoas. Se não acreditasse não teria aceitado o convite que me foi feito.

Como o trabalho de abordagem social que a secretária irá implantar ajudará essas pessoas?
Ser humano precisa de atenção. Ao fazer a abordagem da forma correta, você incentiva a criação de vínculos. Tenta ganhar a confiança dessa pessoa e ganhando essa confiança ela vai acreditar em você e aí você terá condições de ajudá-la, mostrando como tirá-la dessa situação.

E como tirá-las da situação de rua?
Às vezes, a situação é simples. É encaminhá-la para uma casa de recuperação ou então ela só quer voltar para sua cidade de origem. Mas há também aqueles que não querem sair da rua. São dependentes químicos, não possuem mais vínculos familiares e querem estar nas ruas por opção.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora