23 de Maio de 2020 Atualizado 23:13

8 de Agosto de 2019 Atualizado 13:56
MENU

Compartilhe

Covid-19

Mesmo após reforço, Americana busca novos respiradores

Hospital adquiriu em janeiro 10 ventiladores pulmonares, equipamento essencial para pacientes graves do coronavírus, mas demanda preocupa

Por Marina Zanaki

29 mar 2020 às 07:56 • Última atualização 30 mar 2020 às 09:58

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) fez com que os ventiladores mecânicos, aparelhos que ajudam pacientes com doenças respiratórias graves, se tornassem disputados em todo o mundo.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal.JPG
A médica Vanessa Del Rosso manuseia um dos respiradores comprados pelo hospital municipal em janeiro; aquisição custou quase R$ 1 milhão

Em janeiro, pouco antes da explosão de casos no mundo, Americana comprou 10 novos ventiladores de última geração.

Contudo, mesmo essa “feliz coincidência” ainda deve ser insuficiente para a demanda que pode ocorrer na cidade em função da pandemia, e o município já tenta ampliar a disponibilidade de respiradores.

Ao LIBERAL, o diretor superintendente do Hospital Municipal Dr. Waldemar Tebaldi, José Carlos Marzochi, revelou que formalizou um contrato de locação para fornecimento de equipamentos suplementares. Por conta da alta da demanda provocada pela pandemia, o hospital ainda aguarda a liberação.

Custeados com verba federal, os ventiladores comprados em janeiro pelo município testam a respiração espontânea para identificar a situação do paciente, ajustando a ventilação de forma automática. Cada um deles adquirido por Americana custou R$ 97 mil, e estão entre os modelos mais caros e modernos.

Os aparelhos antigos do hospital, que têm mais de 15 anos de uso e que na ocasião da compra dos novos respiradores foram definidos como “obsoletos” pela própria Secretaria de Saúde, ainda estão em uso. O HM, entretanto, não informou o número de ventiladores que têm à disposição no momento.

“Numa situação de normalidade, os aparelhos existentes se traduzem suficientes, porém, a equipe do HM e até mesmo a OMS [Organização Mundial da Saúde] admitem que haverá um significativo aumento na busca por tais equipamentos, considerando a extrema velocidade com que o vírus está se propagando. No entanto, não estamos medindo esforços para melhor atender a população americanense no combate à pandemia”, disse Marzochi.

Até o fechamento desta reportagem, Americana tinha um caso confirmado e 34 à espera de resultados de exames. O município também investiga a morte de um idoso por coronavírus.

DEMANDA. Os respiradores têm sido alvo de disputas entre o próprio governo federal e os Estados. Recentemente, a União enviou à Prefeitura de Recife uma requisição de bens para confiscar 200 ventiladores que a cidade comprou por conta do coronavírus.

Na última semana, o governador João Doria (PSDB) disse ao presidente Jair Bolsonaro, durante reunião, que não vai permitir que o governo federal confisque respiradores de São Paulo. O Estado concentra os casos graves e as mortes provocadas pela doença no país.

No Brasil, há cerca de 65 mil respiradores, dos quais 46 mil estão no SUS (Sistema Único de Saúde). Especialistas em saúde alertam que boa parte desses aparelhos está ocupada por pacientes acometidos de outras doenças e não estão disponíveis para os casos graves de coronavírus.

Questionado sobre a disponibilidade de respiradores, o Ministério da Saúde disse que “acompanha a dinâmica do vírus no território nacional e conforme a necessidade do enfrentamento poderão ser adotadas mais medidas para, inclusive, aquisição de novos equipamentos”.

Característica principal é dano grave no pulmão

A principal característica da doença Covid-19, provocada pelo novo coronavírus, é o dano grave que provoca no pulmão. A afirmação é do pneumologista da Unicamp e membro da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia, Ricardo Siufi. Por esse motivo, os respiradores têm sido a grande preocupação em relação ao combate à doença.

“O vírus dá acometimento em outros órgãos, mas a pior das disfunções é no pulmão, que sofre insuficiência respiratória aguda. O paciente momentaneamente não consegue exercer as funções do pulmão de trocas gasosas e precisa de ajuda”, explicou o médico.

É nesse contexto que os respiradores são essenciais. Dependendo da gravidade, o paciente pode precisar apenas do ventilador não invasivo, que oxigena por meio de máscaras. Contudo, quadros de maior comprometimento pulmonar demandam o ventilador invasivo, ligado à traqueia do paciente.

São esses últimos que representam a grande demanda atual. Na Itália, há relatos de médicos que precisaram escolher qual paciente usa o respirador pois não há equipamentos para todos. O pneumologista explicou que, no contexto de uma síndrome respiratória aguda grave, o acesso ao aparelho pode significar a diferença entre a vida e a morte.

As lesões provocadas pelo coronavírus no pulmão são descritas pelos médicos como “vidro fosco”. O termo designa inflamações que começam nas regiões periféricas e na base dos pulmões.

“Quanto mais extenso o acometimento, mais o pulmão fica insuficiente. Onde o vírus causa inflamação, a região basicamente perde suas características de trocar gás carbônico pelo oxigênio”, explicou o médico.