Macris: quarenta anos de mandato

Deputado tucano chega à marca histórica na política nacional depois de começar como vereador em Americana, em 72


“Por aqui excelência”. A frase dita por um guarda da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) constrangeu e foi motivo de gozação para o jovem deputado estadual que, eleito pela primeira vez, foi à sede do Legislativo Estadual para ser diplomado em 9 de dezembro de 1974.

O tempo passou e, depois de 40 anos como mandatário em cargo público – sendo chamado de excelência em pelo menos 38 deles – Vanderlei Macris (PSDB), advogado, 66 anos, já pode se dizer acostumado com a formalidade e com tantos as outras características, amarguras e vantagens de estar há tanto tempo no cenário político.

Em 2016, o político de carreira mais longeva na região ocupou cargos eletivos em 11 mandatos – um na Câmara de Americana, sete na Assembleia Legislativa e três na Câmara dos Deputados – interrompidos apenas por uma derrota nas urnas em 1990.

Foto: Dener Chimeli - O Liberal
Apesar da atuação nos governos estadual e federal, Macris tem sido influente nas decisões eleitorais e políticas de Americana há vários anos

Habituado com a posição de liderança política, Macris guarda na memória a extensa lista de líderes contemporâneos com quem dividiu espaço e liderou no poder legislativo. De Eduardo Suplicy a Geraldo Alckmin, os sete mandatos na Alesp fizeram do tucano líder de governo por duas ocasiões, da oposição em uma e presidente da Casa por dois anos.

“Eu não fui governador do estado por 8 mil votos”, brinca Macris. O deputado presidiu a Alesp entre 2000 e 2001, mesmo período em que o correligionário Geraldo Alckmin concorreu à Prefeitura de São Paulo. Nas contas do deputado, o atual governador poderia ter vencido caso fosse para o segundo turno daquele pleito, tornando-o sucessor de Mário Covas para o governo. Em 2001 Covas faleceu e, por 8 mil votos, o vice que assumiu foi Geraldo Alckmin.

“São décadas ao lado deste correligionário que para mim foi um mestre e é um defensor intransigente dos interesses de São Paulo esteja onde estiver”, afirmou Alckmin, por nota.

Repassando a própria trajetória, Macris lembra-se de ter sido eleito aos 22 anos para vereador pelo antigo MDB, que elegeu Ralph Biasi para o Executivo em 1972; e recorda que a coragem foi o principal fator para a definição da candidatura a deputado estadual.

“A chapa do MDB era difícil de ser construída, tinha muita vaga, não era uma luta para conquistar legenda, tinha legenda sobrando para quem quisesse. Eu resolvi me habilitar para o descrédito de todos. O Ralph me ajudou indo nos bairros, eu fui em cada casa de Americana”, recorda-se.

Eleito com 24.296 votos, Macris passou de vereador mais novo da Câmara de Americana para deputado estadual mais novo de São Paulo. A edição do LIBERAL de 26 de novembro de 1974 ainda está pendurada no seu escritório em Americana, onde costuma vir sempre às sextas-feiras.

De lá para cá, a luta pela redemocratização do país deu lugar à estabilização e reestruturação do Estado e as bandeiras políticas mudaram até os tempos atuais, quando foi favorável ao impeachment de Dilma Rousseff. Macris é defensor da Operação Lava Jato e um dos articuladores no Congresso Nacional a favor da proposta “10 Medidas Contra a Corrupção”.

RECICLAR. O deputado enxerga na sua “capacidade de se reciclar” como a principal razão para a longevidade. Um político fora do círculo de aliados que conviveu com Macris comenta que o deputado sempre soube perceber o momento certo de tomar suas decisões.

“O risco é sempre calculado”, disse. “Ele sabe atacar na hora certa, mudar de rumo na hora certa e ainda evita que lideranças cresçam muito do lado dele. Isso garante longevidade”, afirmou outro político.

Um dos momentos de leitura correta da situação política pode ser, por exemplo, a ruptura de Macris com o então prefeito de Americana, Diego De Nadai (ex-PSDB e hoje no PTB). “O Diego para mim é uma página virada. Eu acreditei nele, joguei todo o meu capital para ajudar a elegê-lo. Ele teve os méritos dele, mas ele me decepcionou”. O LIBERAL não conseguiu contato com Diego.

Carreira atraiu filhos para a política

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Em outubro, o mais jovem Macris na política passou a ser Rafael, eleito vereador com a maior votação da cidade aos 24 anos

Se um adversário aponta que Macris não costuma “alimentar sucessores” e aponta Diego como um “erro de cálculo” que lhe custou um rompimento anos depois, o deputado pode se orgulhar da “fábrica de políticos” que tem na própria casa.

O filho mais velho, Cauê, está no segundo mandato como deputado estadual depois de ter estado em dois na Câmara de Americana. Em outubro, o mais jovem Macris na política passou a ser Rafael, eleito vereador com a maior votação da cidade aos 24 anos.

Cauê já lidera o governo na Câmara e fala-se de sua intenção em se tornar presidente da Alesp já no próximo mandato. Aliados e adversários veem o filho com potencial de ir ainda mais longe que o pai dentro do PSDB. Se nas primeiras eleições o pai deputado foi fundamental para o filho candidato, hoje ambos são fortes no âmbito estadual e pode-se dizer que o primogênito já “decolou” na carreira. A nova missão de ambos é impulsionar Rafael Macris.

“O meu pai nunca me estimulou a seguir carreira política. Partiu de mim mesmo”, disse Rafael. “No dia da formatura, ele disse ‘está aqui o diploma, agora eu quero ir para a política’. E eu que pensei que fosse descansar de política dentro de casa”, brincou o patriarca da família.

Aos 67 anos, o futuro de Macris ainda é indefinido. Ele mesmo diz que a ideia de se tornar conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Estado), ventilada no passado, já não é mais cogitada. Também diz estar prestes a desistir da tentativa de concorrer ao Senado e evita, com menos ênfase, falar da possibilidade de se candidatar à prefeitura.

“Fui um bom ‘prefeito’ como deputado. Fui um grande colaborador da cidade independente do prefeito que estivesse. Qualquer político com 11 mandatos estaria desgastado e eu não”, concluiu Macris. t.f.

Foto: Arquivo O Liberal
Eleito com 24.296 votos, Macris passou de vereador mais novo da Câmara de Americana para deputado estadual mais novo de São Paulo

Americana,
SP e Brasília

Macris ficou apenas dois anos fora do poder nas últimas décadas

1972
Eleito vereador em Americana

1974
Eleito deputado estadual

1978
Reeleito deputado estadual

1982
Terceiro mandato estadual

1986
Quarto mandato estadual

1994
Quinto mandato estadual

1998
Sexto mandato estadual

2002
Sétimo mandato estadual

2006
Eleito deputado federal

2010
Reeleito deputado federal

2014
Terceiro mandato federal

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