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Covid-19

Jornalista de Americana que vive na Itália relata nova fase do país contra o coronavírus

Ricardo Bento Gonçalves, de 29 anos, que mora na cidade de Milão há quase três anos, falou sobre a realidade relacionada à Covid-19, após o pico da pandemia no país

Por Da redação

10 Maio 2020 às 08:23 • Última atualização 10 Maio 2020 às 10:19

Em novo depoimento ao LIBERAL, o jornalista Ricardo Bento Gonçalves, de 29 anos, que mora em Milão, na Itália, há quase três anos, relatou a nova fase pela qual o país europeu atravessa: a convivência com o novo coronavírus (Covid-19).

A Itália tem uma das estatísticas mais graves desta crise. Até este sábado, eram 217 mil infecções confirmadas e mais de 30 mil mortos. A flexibilização de parte das medidas restritivas divide o país entre os que continuam temendo o vírus e os que já se aparentam mais despreocupados. Leia o relato do jornalista.

Movimento de pessoas na via Condotti, em Milão, na última terça-feira, segundo dia da flexibilização das medidas restritivas – Foto: Claudio Furlan / Dia Esportivo / Estadão Conteúdo

Aqui na Itália começamos esta semana a fase 2 da quarentena, a chamada “fase de convivência com o vírus”. Ainda não acabou, ainda estamos em isolamento, mas o governo já afrouxou algumas medidas de segurança.

A fase 3 está prevista somente para o ano que vem, mas ainda não temos muitas informações, pois o governo italiano pretende analisar os resultados dessa nova etapa antes de anunciar novas medidas sobre um possível retorno à “normalidade”.

O coronavírus mudou as regras de comportamento de toda a nação. No total, foram 57 dias oficiais de quarentena, mas muitas pessoas já haviam iniciado o isolamento muito antes, quando começaram a surgir os primeiros casos de mortes no país. Foi um período duro, de muita tristeza, que o primeiro ministro Giuseppe Conte considerou “uma emergência sem precedentes na história republicana”.

Ricardo Gonçalves é jornalista e mora na Itália há três anos – Foto: Arquivo Pessoal

Apesar dos italianos respeitarem as regras estabelecidas pelo governo, mesmo assim, os números não pararam de subir. O país registrou, no pico, uma média de 800 mortes por dia. A Itália ocupa o terceiro lugar no mundo em número de pessoas contagiadas.

Do lado de fora da janela, ouvíamos ambulância quase que o tempo todo. Havia filas para entrar nos supermercados, pessoas com medo e sem esperanças de que fosse passar logo. Era o sentimento de que uma guerra acontecia lá fora, com estradas e cidades completamente vazias. A Europa viveu, de novo, dias cinzas neste inverno.

A Itália impôs medidas rígidas com um decreto de proibição. Colocou a polícia nas ruas, fechou tudo. Ninguém podia sair de casa se não houvesse uma exigência comprovada, seja por saúde ou trabalho, mas com a chegada da primavera e o aumento da temperatura, o número de novos contágios diminuiu.

Desde segunda-feira, as pessoas foram liberadas para saírem de suas casas para encontros familiares, apenas. Ainda não é permitido sair do Estado ou fazer grandes deslocamentos. As polícias continuam controlando os limites entre os municípios. Quem for pego sem uma justificativa válida e sem os itens de proteção, está sujeito a multa e até prisão preventiva.

Eventos religiosos ainda não foram liberados e, nos funerais, foi permitida a participação de no máximo 15 pessoas. Bares e restaurantes ainda continuam fechados até o dia 1º de junho, mas já tiveram a autorização para o início do serviço de entrega e take-away. Quando reabertos deverão garantir o distanciamento entre os clientes.

Os parques foram reabertos e atividades individuais ao ar livre, como corridas e ciclismo, também foram autorizadas, desde que os praticantes estejam usando máscaras, que continua sendo item obrigatório.

No transporte público, a mesma coisa. Nas estações de trem, por exemplo, vemos mensagens sinalizando o pedido para manter a distância mínima entre os passageiros e não ocupar determinados lugares.

O governo lançou a campanha “Um novo início. Um passo de cada vez”, e, desde o dia 4 de maio, tivemos a reabertura parcial das atividades. Não são todos os estabelecimentos que voltaram a funcionar, como é o caso dos salões de cabeleireiros, por exemplo, que também deverão retornar somente a partir do dia 1º de junho. Mas, antes disso, na segunda quinzena de maio, serão reabertos os museus, mostras e bibliotecas.

Apesar da preocupação do governo em estabelecer medidas de segurança e os alarmantes números apresentados pelo órgão de Proteção Civil durante todo o período crítico da crise sanitária de coronavírus, nas ruas, essa semana, o fluxo de pessoas e o trânsito de veículos já aumentaram consideravelmente.

De um lado, parte da população continua com medo, mas com a esperança do retorno à normalidade. Do outro, grande número de pessoas que já aparentam não se preocupar tanto com os perigos da doença e caminham muito próximas umas das outras e, inclusive expõem ao risco crianças a praticarem atividades físicas sem máscaras de proteção.

Nesta sexta-feira, 8 de maio, inclusive, o prefeito de Milão, Beppe Sala, lamentou a situação vivida na primeira semana de reabertura parcial e ameaçou tomar providências como uma possível não reabertura de bares e restaurantes.

“Quando devemos agradecer os milaneses pelo comportamento, eu sou o primeiro a fazer, mas a imagem de ontem é vergonhosa e é, para mim, deprimente ter que explicar de novo a situação”, disse.

*Em depoimento a Marina Zanaki.

Podcast: Além da Capa
A quarentena decretada no Estado de São Paulo para combater a proliferação da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) completa 50 dias nesta semana. Com as restrições impostas, muitas pessoas tiveram a rotina, hábitos e até o convívio familiar alterado. Nesse episódio do Além da Capa, o editor Bruno Moreira conversa com o repórter André Rossi, que ouviu moradores de Americana, Santa Bárbara d’Oeste e Nova Odessa para entender como a pandemia mudou a dinâmica de suas vidas.