Falta informação, diz especialista da Unicamp

Luiz Antônio da Costa Sardinha, médico da Organização de Procura de Órgãos da Unicamp, afirma que faltam políticas de incentivo à doação de órgão


O médico coordenador da OPO (Organização de Procura de Órgãos) do HC (Hospital das Clínicas) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Luiz Antônio da Costa Sardinha, considera que faltam políticas de incentivo à doação de órgãos no País. Ele cita que o assunto praticamente não é abordado na sociedade e faltam informações para a população, que poderiam contribuir para que mais doadores garantissem a vida para quem espera na fila do transplante.

Foto: Carlos Souza Ramos / AAN
“O nosso modelo hospitalar é arcaico e baseado no esconder o doente e a doença (…) Os hospitais precisam entender os direitos da família”, afirma Luiz Sardinha

O LIBERAL – A principal causa da não concretização da doação de órgãos é a recusa da família. Na sua opinião, por que isso ainda acontece?

Luiz Antônio da Costa Sardinha 
A doação de órgãos e tecidos se insere em um momento de intensa dor. Dessa maneira, decisões que muitas vezes poderiam ser simples passam a ter um peso importante para o resto das pessoas da família. Ao imaginarmos o momento de comunicação da morte e compartilharmos a dor da perda devemos sempre respeitar a família e sua situação. A sociedade brasileira é de característica doadora, mas se ressente do serviço prestado, da demora, da ausência de informações e todas essas dores serão colocadas à mesa no momento do falecimento do ente querido. Temos ainda que respeitar os valores dos familiares e da pessoa, suas crenças e esperanças neste momento que estão vivendo.

Se uma pessoa manifesta em vida o desejo de ser doadora, como garantir que esse desejo seja respeitado após sua morte?

Luiz Antônio da Costa Sardinha 
O respeito ao falecido sempre se concretiza e os familiares não irão contra o desejo do morto. Para evitar conflitos, devemos sempre comunicar aos familiares sobre nossa vontade em ser doador ou não de órgãos.

Além da recusa da família, quais outras dificuldades são encontradas na captação de órgãos na região de Campinas?

Luiz Antônio da Costa Sardinha 
As dificuldades existentes são pontuais e não têm fator único. Temos sempre que pensar no momento, no atendimento, na segurança para o paciente e seus familiares. Não conheço impeditivos graves para o processo de doação.

Os hospitais estão capacitados para a abordagem das famílias?

Luiz Antônio da Costa Sardinha 
Os hospitais em sua maioria não possuem uma sala para o acolhimento dos familiares. O nosso modelo hospitalar é arcaico e baseado no esconder o doente e a doença. O acesso da família é prejudicado devido às informações truncadas, com horários determinados e restritos. Escondemos o doente, a doença e o morto. Os hospitais precisam entender os direitos da família, a autonomia do paciente e a doação como ato de vontade. Educação muda isso.

Na sua avaliação faltam políticas de incentivo à doação de órgãos?

Luiz Antônio da Costa Sardinha 
Sim. Praticamente temos uma semana ao ano que se fala de doação na TV aberta. Na TV fechada não existe essa pauta.

Como o senhor avalia o número de doações na região? Ainda é considerado baixo?

Luiz Antônio da Costa Sardinha 
A melhora é lenta, mas segura, e é isso que buscamos. Queremos não um doador, mas uma família doadora na sociedade.

Tire suas dúvidas

Como posso ser doador?
Hoje, no Brasil, para ser doador não é necessário deixar nada por escrito, em nenhum documento. Basta comunicar sua família do desejo da doação. A doação de órgãos e tecidos só acontece após a autorização familiar.

Que tipos de doador existem?
Doador vivo: qualquer pessoa saudável que concorde com a doação. O doador vivo pode doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea e parte do pulmão. Pela lei, parentes até quarto grau e cônjuges podem ser doadores; não parentes somente com autorização judicial.

Doador falecido: são pacientes com morte encefálica internados em UTI (Unidade de Terapia Intensiva), geralmente vítimas de traumatismo craniano ou AVC (derrame cerebral). A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico como qualquer outra cirurgia.

Quais órgãos e tecidos podem ser obtidos de um doador falecido?
Coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córneas, veias, ossos e tendões.

Para quem vão os órgãos doados?
Os órgãos doados vão para os pacientes que necessitam de um transplante e estão aguardando em lista única, definida pela Central de Transplantes da Secretaria de Saúde de cada Estado e controlada pelo Ministério Público.

Como posso ter certeza sobre o diagnóstico de morte encefálica?
Não existe dúvida quanto ao diagnóstico. O diagnóstico de morte encefálica é regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina. Dois médicos de diferentes áreas examinam o paciente, sempre com a comprovação de um exame complementar.

Após a doação o corpo fica deformado?
Não. A retirada dos órgãos e tecidos é uma cirurgia como qualquer outra e o doador poderá ser velado normalmente.

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