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Saúde

Enfermeiros fazem 107 horas extras por mês

Média informada pela prefeitura, referente a serviço no HM de Americana, é acima do limite de 40 horas previsto na legislação trabalhista

Por Marina Zanaki

26 jan 2020 às 08:30 • Última atualização 26 jan 2020 às 14:53

A média de horas extras feitas por profissionais da enfermagem no Hospital Municipal Dr. Waldemar Tebaldi, em Americana, é de 107 por mês. A quantidade é mais do que o dobro dos limites legais.

O levantamento foi feito pela Prefeitura de Americana a pedido do LIBERAL e considerou a carga horária de 28 funcionários que fizeram horas extras na unidade no segundo semestre de 2019. O número inclui horas dobradas feitas em períodos de folga, mas a prefeitura não soube detalhar as quantidades.

A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) permite a realização de duas horas extras por dia, totalizando 40 por mês.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Conselho de Enfermagem tenta reduzir jornada da categoria

O Sindicato dos Servidores de Americana afirma que, mesmo se tratando de funcionários contratados por regime estatutário, a CLT se sobrepõe a legislações municipais.

LEIA TAMBÉM: 60% dos profissionais de enfermagem têm adoecimento mental

Ao mesmo tempo, o Coren (Conselho Regional de Enfermagem) de São Paulo tenta aprovar a redução da jornada para 30 horas semanais.

A entidade diz que a profissão carrega uma alta carga de estresse, que pode provocar o adoecimento mensal dos trabalhadores.

As horas extras de enfermeiros no HM são feitas de acordo com a necessidade, como cobertura de férias, faltas e a exigência do Coren de número mínimo de profissionais para o atendimento, segundo a Secretaria de Saúde de Americana. Todas são aprovadas pela coordenação do setor.

Presidente do Coren-SP, Renata Pietro alerta que a sobrecarga traz riscos à segurança dos profissionais, comprometendo o atendimento.

“A sobrecarga acarreta problemas imediatos, como demora no atendimento, e efeitos a médio e longo prazo, como violência física e verbal decorrente da insatisfação do público, ainda que a enfermagem também seja vítima da situação”, aponta a presidente.

Uma técnica em enfermagem que trabalha no hospital contou ao LIBERAL que foi diagnosticada com síndrome de burnout, também conhecida como síndrome do esgotamento profissional. Segundo o Ministério da Saúde, uma das categorias mais afetadas é a enfermagem.

“A gente está num ponto de esgotamento, físico e mental”, diz ela, citando problemas como déficit de funcionários e aumento na demanda de trabalho. A técnica falou com o LIBERAL com a condição de não ser identificada.

“Às vezes, a gente perde um paciente porque demorou um exame, uma consulta, médico que não deu bola”, desabafou a profissional, que toma antidepressivos e busca uma recolocação em outra cidade.
Uma enfermeira que atua no HM e também na rede de atenção básica contou que, mesmo com a contratação de uma terceirizada para a unidade, o problema persiste.

“Essa carga horária exacerbada existe pelo número insuficiente de profissionais de enfermagem. Não podemos abandonar o paciente”, declarou a enfermeira, que preferiu não ter o nome divulgado.
Ela se recusa a fazer horas extras.

“Teve um dia que fiz 24 horas. Quando cheguei em casa, vi meu netinho e fiquei pensando ‘eu conheço esse menino, mas não estou lembrando quem é’. Me deu uma crise de choro tão grande. Como posso esquecer meu neto? Você fica sem noção”, contou a profissional.

REFORÇO

A Prefeitura de Americana contratou em dezembro de 2018 a empresa Ingesp/Innovare para reforçar equipes de plantão com o fornecimento de 34 profissionais de enfermagem e quatro auxiliares de farmácia ao HM. A empresa recebe R$ 201 mil por mês.

Uma empresa foi contratada para gestão do Pronto Atendimento do Antonio Zanaga, e todos os servidores que atuam no posto vão reforçar a equipe do Hospital Municipal a partir do dia 1° de fevereiro, incluindo os profissionais de enfermagem.

OMS escolhe 2020 como o ano da enfermagem

O ano de 2020 foi escolhido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como o ano dos profissionais da enfermagem. O objetivo é que seja um período para valorização dos trabalhadores.

A escolha se deve ao aniversário de 200 anos de nascimento de Florence Nightingale, considerada a fundadora da enfermagem enquanto profissão. Ela se destacou por sua atuação pioneira no tratamento a feridos durante a Guerra da Crimeia, na década de 1850.

“Historicamente, a profissão não é valorizada por vários motivos. Era considerada caridade no início, e não uma ciência. Depois passou a ser feita pelas mulheres apenas. Hoje diversificou, mas 80% ainda é do gênero feminino, e tudo que é visto como algo feminino ganha menos”, comentou a coordenadora do curso de Enfermagem da FAM (Faculdade de Americana), Cristiane Pereira de Castro.

O Brasil aderiu à campanha mundial “Nursing Now” (“Enfermagem Agora”, em tradução livre). Diversos eventos estão previstos no país voltados à enfermagem ao longo do ano, e Cristiane disse que a FAM planeja ações para o mês de maio.