Empresário Cristiano Aro financiaria combustível adulterado

Acusação é do Ministério Público do Espírito Santo contra o contador de Americana, que está preso desde dezembro


O empresário e contador de Americana, Cristiano Aro, 38, é acusado pelo Ministério Público do Espírito Santo de financiar a produção de combustível adulterado. Ele está preso desde dezembro no contexto da Operação Lídima.

Segundo a investigação, Cristiano fazia a contabilidade de empresas que eram usadas por empresários do Espírito Santo para dissimular a origem dos lucros do comércio de combustível irregular. Os advogados que o representam dizem que a acusação não é verdadeira e distorce fatos.

O LIBERAL teve acesso ao processo da Operação Lídima, que prendeu 17 pessoas e denunciou 23 em dezembro após apuração da Promotoria e da polícia capixaba.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Empresa que teria sido usada para lavagem de dinheiro está registrada em terreno vazio no Jardim Brasil, em Americana

O grupo criminoso denunciado pelos investigadores à Justiça foi dividido em quatro núcleos: adulteração de combustível; revenda varejista; verticalização, sonegação, aquisição e distribuição ilegal de combustível; e comércio ilegal e sonegação.

Cristiano Aro, proprietário do escritório Aro Contabilidade (que não é investigado), em Americana, é apontado como integrante do primeiro núcleo.

De acordo com as investigações, ele atuava junto com os empresários Carlos Alberto Barbosa de Souza e Sérgio Massoud Mitri, apontados como os principais provedores de combustível adulterado no Espírito Santo.

O envolvimento de Cristiano foi identificado pela Promotoria na relação entre Carlos e Sérgio. Em interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça de Serra (ES), os dois conversam sobre pagamentos ao empresário de Americana e sobre os planos junto a Cristiano.

Em duas ligações monitoradas em maio de 2018, Carlos diz a Sérgio que comentou com Cristiano que não adiantaria mais o contador “por dinheiro” no negócio porque os empresários não tinham capacidade física de produção e distribuição de combustível adulterado.

Segundo as investigações, Carlos e Cristiano se encontraram no dia 16 de maio, no aeroporto de Vitória. Foi nesta ocasião que a investigação identificou o empresário como um investidor do grupo, conforme relatório de vigilância da assessoria militar do MP.

Na data, o contador teria sido levado ao local onde os empresários faziam o carregamento de combustível adulterado e teria “gostado do que viu” porque, em três meses, recuperaria o investimento.

O empresário estaria disposto, segundo as interceptações, a investir R$ 300 mil depois de já ter depositado R$ 500 mil na conta de Carlos. Nas ligações, os empresários também discutem comissões pagas a Cristiano, que não chegou a ser “grampeado”.

“O resultado das visitas feitas por Cristiano ao Espírito Santo, sua satisfação com os lucros obtidos e seu alto poder de investimento, que chega a superar a possibilidade de produção pela estrutura física que possuem, têm estimulado Carlos e Sérgio a expandir seus negócios”, descreve o Ministério Público na denúncia, protocolada na Justiça de Serra em 19 de dezembro.

Foto: Ministério Público do ES
Operação prendeu 17 pessoas e denunciou 23 em dezembro

A interceptação de e-mails aponta que Cristiano Aro também era o responsável pela contabilidade das atividades ilícitas do grupo criminoso, segundo a Promotoria. Ao contador, cabia cuidar de “dissimular a ilicitude de todo o fluxo de caixa dos negócios ilícitos”.

Como forma de dissimular a origem do dinheiro, depósitos eram feitos em empresas de fachada, conforme apuração do Coaf (Controle de Atividades Financeiras).

Uma das empresas utilizadas foi a Gimo Comércio e Serviços. Ela recebeu pelo menos R$ 235 mil. Parte dos depósitos foi identificada como de venda de bebidas, apesar de a empresa não ter entre suas atividades a comercialização de bebidas.

Em seus registros, a Gimo tem como telefone e endereço de e-mail o escritório de Cristiano Aro. O endereço da empresa consta como um terreno vazio na Avenida Henrique Brechmacher, no Jardim Brasil, em Americana.

Vizinhos do local disseram ao LIBERAL que há pelo menos três anos uma empresa que havia ali foi fechada e seu prédio, destruído. No cadastro de imóveis da Prefeitura de Americana, a área pertence hoje a uma consultoria empresarial ligada a Cristiano Aro.

Foto: Ministério Público do ES
Cristiano Aro foi preso na Operação Lídima

Outra empresa que recebeu dinheiro dos empresários envolvidos no esquema foi a Kawano e Pertile Serviços Contábeis, segundo o MP. Seis depósitos feitos por Carlos somaram R$ 541 mil. Com exceção de um depósito, todos foram identificados como venda de bebidas.

A Kawano é a antiga denominação de outra empresa – a Technick Soluções em Comércio no Atacado e Varejo, cujo registro traz informações ligadas ao escritório de contabilidade de Aro, dentre elas, o endereço.

Tanto a Kawano quanto a Technick não têm entre suas atividades o comércio de bebidas, mas têm em comum dois sócios com o mesmo endereço residencial – um terreno vazio na Avenida Industrial Oscar Berggren, em Nova Odessa. O LIBERAL não conseguiu encontrar os sócios.

O Coaf identificou ainda um pagamento de R$ 104 mil a Aro Assessoria Empresarial e Administradora de Ativos, pertencente a Cristiano. Para a Promotoria, as interceptações e os depósitos suspeitos apontam Cristiano como “investidor dos negócios escusos da organização criminosa”.

Acusação do Ministério Público distorce fatos

A defesa do empresário Cristiano Aro diz que as acusações do Ministério Público do Espírito Santo são falsas e distorcem os fatos, contexto e tempo, e que “provará a injustiça contra o cliente no curso da ação penal”. O contador responde pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e crime contra a ordem econômica.

Foto: Ministério Público do ES
Operação Lídima

Os advogados informaram ao LIBERAL em nota que, por conter vários volumes, o processo ainda está sendo analisado. “Estamos impossibilitados de tecer maiores comentários ou esclarecimentos neste momento”, dizem.

A nota, assinada pelos advogados Jorge Bouchabki, Marcelo Bouchabki, Adriano Rinalti e Silvio Crepaldi Junior, também criticou a reportagem do LIBERAL.

“Será com base em ilações, conjecturas e informações unilaterais do processo, sem atestar a veracidade dos fatos, e trará consequências diretas à honra do cliente e de sua família, pessoas corretas e conhecidas na cidade de Americana”, afirmam.

Em um recurso apresentado à 5ª Vara Criminal de Serra (ES), onde tramita a Operação Lídima, em dezembro, os advogados de Cristiano defenderam que não havia nos autos quaisquer referências ao “efetivo recebimento de quantias” por parte do empresário.

No depoimento prestado à Polícia Civil de Americana, após ser preso, no dia 4 de dezembro, o contador confirmou que conhece Sérgio Mitri, que seria um cliente para quem teria prestado serviço de consultoria técnica no ramo da construção civil em 2017. Na época, Cristiano disse à polícia estar “surpreso” com a prisão.

Nesta semana, o STF (Supremo Tribunal Federal) publicou decisão negando habeas corpus a Cristiano. Antes, decisões da justiça capixaba e do STJ (Superior Tribunal de Justiça) já haviam negado a liberdade ao empresário, que teve autorizada pela Justiça sua remoção de uma unidade prisional de São Paulo para o Espírito Santo, a pedido do governo paulista.

O LIBERAL não conseguiu contato com os advogados de Carlos Alberto Barbosa de Souza, que está foragido.

Na sexta-feira, a reportagem entrou em contato com advogados de Sérgio Mitri, no Espírito Santo, mas foi informada de que eles haviam deixado o processo. O LIBERAL não localizou os novos advogados do empresário.

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