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Baixa renda

Em Americana, quase 5 mil famílias vivem em situação de extrema pobreza

Dados oficiais do Ministério da Cidadania apontam cerca de R$ 4,8 mil cadastrados com renda mensal de até R$ 89 por pessoa na cidade

Por Ana Carolina Leal e Maria Eduarda Gazzetta

28 de novembro de 2021, às 08h39 • Última atualização em 28 de novembro de 2021, às 08h47

Americana tem 4.872 famílias em situação de extrema pobreza, ou seja, com renda por pessoa de no máximo R$ 89. Outras 1.056 ganham entre R$ 89 e R$ 178 e vivem na pobreza. Os dados foram extraídos do Cadastro Único, mantido pelo Ministério da Cidadania.

Ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome entre os anos de 2011 e 2016, Tereza Campello disse em entrevista ao LIBERAL que a situação é dramática e o impacto sobre a alimentação é direto.

Na família de Késia, moradora do Zincão, a renda mensal é em torno de R$ 1 mil, incluindo o Bolsa Família – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

De acordo com ela, uma pessoa que vive com R$ 89 em qualquer lugar do mundo sequer seria considerada de extrema pobreza porque para países como o Brasil, segundo a ONU (Organizações das Nações Unidas), o valor daria em torno de R$ 170.

“Isso seria extrema pobreza em um país pobre. No caso do Brasil, os valores estão muito defasados. O que o governo está fazendo nos dias de hoje é uma atualização para R$ 100, o que também não chega nem perto do mínimo que é considerado razoável para uma pessoa sobreviver por dia em um país pobre, quanto mais no Brasil”, declarou Tereza, atualmente titular da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, sediada na FSP/USP (Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo).

Nessa situação, afirmou, a pessoa não consegue ter recurso para pagar aluguel, gás, energia, água e acaba optando por pular algumas refeições frente a inexistência de outra alternativa e quando faz é de baixíssima qualidade.

No Zincão, projeto de associação evangélica tenta ajudar moradores com cestas básicas – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

“É muito triste essa situação e é por isso que o Brasil, hoje, vive com índices de fome muito perto de 30 milhões de pessoas”, disse.

Késia Cristina, de 40 anos, mora em uma casa no Zincão, área periférica de Americana, com o marido, três filhos e dois enteados. A renda mensal da família gira em torno de R$ 1 mil, incluindo a verba federal do antigo Bolsa Família, atualmente Auxílio Brasil.

“Meu marido é pedreiro, então é um trabalho temporário, mas fome a gente não passa, graças a Deus. A gente recebe ajuda com cesta básica, dá para se virar”, relatou. Segundo Késia, a renda da família é voltada para pagar conta de água e despesas com comida.

No Brasil, 56% da população vivem com algum tipo de insegurança alimentar e nutricional, que é quando a família ou pessoa não tem alimentos na quantidade, na qualidade e na diversidade adequada.

“Se Americana tem mais de 4 mil famílias nessa situação não me surpreende”, afirmou Walter Belik, professor do Instituto de Economia da Unicamp.

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De acordo com o docente, o volume de pobreza que já é grande no Brasil, aumentou. “Se a gente pegar um salário mínimo [R$ 1,1 mil] e dividir por quatro pessoas, vai cair para baixo da linha da pobreza porque as cestas básicas calculadas pelo Dieese [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos] estão em torno de R$ 600”.

O aposentado Ismael Ferreira, de 77 anos, precisou sair do aluguel para conseguir arcar com as despesas e sobreviver. Há seis meses, ele se mudou para um barraco também no Zincão. “Eu recebo um salário mínimo e não dava para pagar o aluguel, então vim para cá”, disse.

Para driblar os custos da alimentação, o aposentado criou uma pequena horta em frente ao barraco, onde cultiva manjericão, alface e cebolinha. Ele também construiu um fogão a lenha para reduzir o consumo do gás. “Carne não como mais, só quando minha filha traz”.

Dados do Ministério da Cidadania, compilados pelo LIBERAL, apontam que de 3.826 famílias cadastradas no antigo Bolsa Família, em outubro de 2019, o número passou para 4.188 em outubro de 2021. Um aumento de 9,4%. Em novembro, 4.129 famílias receberam o Auxílio Brasil, que substituiu o Bolsa Família. O valor médio do benefício pago na cidade é de R$ 230,56.

“Existiam em Americana, em torno de 29 mil famílias recebendo o auxílio emergencial até o mês de outubro. Em novembro, esse número caiu para 4 mil. Foram 25 mil famílias excluídas do auxílio emergencial e isso certamente terá um impacto muito grande na cidade”, enfatizou Tereza Campello.

AJUDA
Há três anos, quatro voluntárias se juntaram e criaram o Aeza (Associação Evangélica Zincão de Americana). O objetivo é levar às famílias do bairro cestas básicas e promover, semanalmente, eventos para as cerca de 600 crianças e adolescentes que moram na região.

“Toda sexta tem o projeto cinema e às terças temos jantares, tudo isso para as crianças. Também temos cursos para mulheres e promovemos palestras. Nosso objetivo é ajudar o próximo”, afirmou a coordenadora da instituição, Maria Marins. O projeto é mantido com doações de empresas e realização de bazares.

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