Elisa Cosimo: ‘As pessoas estão mais conscientes’

Dermatologista de Americana vê mudança gradativa em relação à atenção dada pelas pessoas ao câncer de pele


De todos os tumores malignos no Brasil, 30% correspondem ao câncer de pele. Segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer), é o câncer mais comum no País. Para reduzir a incidência da doença e da mortalidade, a SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia) realiza pelo quinto ano consecutivo a campanha Dezembro Laranja.

O objetivo é alertar as pessoas sobre os cuidados com a doença, como prevenção, diagnóstico e tratamento. O tema deste ano é “Se exponha, mas não se queime”, um trocadilho entre a exposição ao sol e nas redes sociais.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
“Acho que está existindo uma mudança cultural em relação ao câncer de pele

Segundo a dermatologista Elisa Cosimo, que tem clínica em Americana, graças às campanhas as pessoas estão mais conscientes e prestam mais atenção aos sinais na pele, mas ainda é pouco. A médica chama a atenção para a importância dos cuidados contra a radiação solar e de procurar ajuda ao notar alterações em manchas e pintas no corpo.

Elisa ressalta que o câncer de pele, assim como outros tipos da doença, também tem mais chances de cura se diagnosticado no início. Caso contrário, o tratamento é mais difícil, pode gerar metástase e matar.

As pessoas dão a devida atenção ao câncer de pele ou ele ainda é menosprezado?

Elisa Cosimo 
Ainda existe isso, mas aos poucos tem mudado. Graças às campanhas e com a ajuda da mídia as pessoas estão mais conscientes e hoje em dia têm o costume de se olhar mais. Mas ainda tem muita gente que vê aquela pintinha, que nunca desaparece ou nunca cicatriza, e vai levando. Não procura ajuda médica. Acho que está existindo uma mudança cultural em relação ao câncer de pele, mas as pessoas precisam se conscientizar da importância de procurarem uma avaliação médica ao verem algo diferente na pele.

Câncer de pele mata?

Elisa 
Sim. A pele é um órgão como qualquer outro do corpo. Existem três tipos básicos de câncer de pele. Melanoma é, de todos, o tumor mais agressivo, o que mais faz vítimas e o que mais dá metástase. O carcinoma espinocelular também é agressivo e também pode dar metástase. Já o carcinoma basocelular é o mais comum dos três e com menos mortalidade.Por que você cuida do coração se tem pressão alta, mas não usa protetor na pele? Você é diabético e toma seus medicamentos, por que você não cuida da pele também? A pele também é um órgão, o maior órgão do corpo humano e um órgão de proteção.

E o sol é fator realmente determinante para o câncer de pele?

Elisa 
Sim. O sol é o fator mais importante porque a radiação ultravioleta emitida por ele vai mudando acumulativamente, ao longo da vida, o DNA das células da nossa pele, e quando você tem alguma alteração no reparo desse DNA, ele perde a capacidade de reparação, as células começam a crescer de uma forma anormal e por isso a gente tem o surgimento do câncer. A gente já sabe que 30% da carga de radiação solar que a pessoa toma ao longo da vida acontece principalmente durante a infância. Por isso, as campanhas contra o câncer de pele estão sendo colocadas dentro da escola para conscientizar as crianças e os pais desde cedo a usarem o protetor solar.

Mas há também aquelas situações em que a pessoa já nasce com uma pinta ou mancha que ao longo da vida vai evoluir para um câncer?

Elisa 
Sim. Há também a questão genética. Por isso é preciso acompanhamento. Tem que olhar se a pinta não tem assimetria, se não está crescendo com as bordas irregulares, múltiplas cores, se está sangrando, doendo, coçando. São características que devem ser observadas e no caso de qualquer alteração procurar ajuda médica.

E por que o diagnóstico precoce é importante?

Elisa
Porque quanto antes você tirar a pinta, menor é o dano que fica na pele e menor é a mortalidade porque a chance de metástase diminui. É como qualquer outro câncer, tem que diagnosticar o mais cedo possível.

O tratamento também segue a mesma linha de outros tipos de câncer?

Elisa

Sim, e aí depende do tipo de tumor, de quanto ele é invasivo. A grande maioria, quando diagnosticado precocemente, você tira a lesão e, se cirurgicamente as margens estiverem limpas, está curada. Mas é importante destacar que se você tiver um câncer, a chance de você ter outros ao longo da sua vida é de 40% a 50%. Então é preciso entender que se você teve um, tem de ter ainda mais atenção com a prevenção porque você pode desenvolver outro ao longo da vida.

Por que isso acontece?

Elisa

Câncer é algo bem complexo. Então, depende de vários fatores, como a carga de radiação que a pessoa tomou ao longo da vida e a genética, principalmente em relação ao melanoma.

Tem uma idade em que o câncer de pele é mais comum?

Elisa
Na idade adulta, entre 30 e 60 anos. Infelizmente, ultimamente a gente tem visto acontecer mais cedo, já aos 30 anos, em função da carga de radiação acumulada na infância, juventude e adolescência.

O mercado de protetor solar tem hoje inúmeras possibilidades de FPS. Quanto mais alto o índice melhor ou não necessariamente?

Elisa
O mínimo que se indica é pelo menos 30, mas em pessoas que vão ter uma exposição maior à radiação a gente normalmente orienta um FPS maior, porque os estudos mostram que brasileiro não usa a quantidade recomendada do produto e com uma película do produto menor sobre a pele, sua eficácia também acaba sendo menor. Então por isso a gente orienta um FPS maior já considerando que a quantidade utilizada vai ser menor. Para ter uma proteção equivalente ao FPS 30, por exemplo, você teria de usar um 40, 45.

Como saber se a quantidade é ideal?

Elisa
Existe a regra das nove colheres (quantidades específicas de colheres de chá para cada parte do corpo), indicando a quantidade certa de protetor solar para cada região do corpo. Mas para não errar basta ser generoso na hora de aplicar e reaplicar o produto.

E para se proteger basta usar o filtro solar ou tem alguma outra orientação?

Elisa

Tem também outras recomendações. A gente orienta as pessoas para evitarem a radiação solar das 9 às 16 horas. Nesse período a carga de UVB, que é a radiação mais ligada ao câncer de pele, é mais alta. Se for se expor ao sol na praia, o ideal é fazer isso até as 9 horas da manhã e depois das quatro da tarde. É importante também usar sempre óculos de sol porque eles protegem os olhos da catarata (uma das causas é a carga de radiação ultravioleta, por isso a importância dos óculos de sol com proteção ultravioleta).

O filtro solar deve ser passado 30 minutos antes da exposição, aplicando em toda a pele. Por isso é importante estar nu na hora de passar o protetor e reaplicar a cada três horas, principalmente se você tiver entrado na água ou suado muito.

As roupas com proteção solar também ajudam. Então é um conjunto de estratégias que a gente tem para enfrentar a radiação solar. No dia a dia, o protetor deve ser aplicado nas áreas que estarão expostas, usar sombrinha e evitar a prática de atividades esportivas ao ar livre entre 9 e 16 horas.

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