‘É preciso erradicar mitos e preconceitos’

Doutora e mestre em Saúde Pública e especialista em Gerontologia chama atenção para a importância da sociedade conhecer as peculiaridades das pessoas


Das fases da vida, a velhice é a com maior heterogeneidade. A forma como vivemos a vida faz com que cheguemos à última etapa bem diferente uns dos outros. Isso significa que há idosos de todos os tipos e com todas as características, mas com uma coisa em comum. Todos convivem com a sombra do preconceito e de estigmas.

A infantilização é um deles. A visão de que todos os idosos voltam a ser criança é equivocada e contribui para tirar o colorido do envelhecer, na opinião de Marisa Accioly Domingues, doutora e mestre em Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em Gerontologia pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria).

“É preciso erradicar mitos e preconceitos”, defende a especialista, chamando atenção para a importância da sociedade conhecer mais as peculiaridades das pessoas idosas. Marisa atua na área de envelhecimento, suporte social e políticas públicas. Atualmente, é docente do curso de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da EACH-USP.

Na sua avaliação, é imprescindível que o poder público assuma seu papel e garanta os equipamentos necessários para se viver bem a velhice. “O funcionamento de uma sociedade envelhecida se dá melhor quando sistema público atua em parceria com a família e a comunidade, todos trabalhando em rede”.

A especialista esteve em Americana no final de março, participando da Conferência Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, e conversou com a reportagem do LIBERAL.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal.JPG
preciso erradicar mitos e preconceitos”, defende a especialista

Qual o principal desafio quando o assunto é envelhecer bem?
É a promoção à saúde. Não só o que diz respeito a nós – como alimentação adequada e cuidados pessoais – mas também em relação aos serviços que precisam ser oferecidos pelo poder público.

De que maneira o poder público pode e deve colaborar?
Respeitando as políticas nacionais voltadas aos idosos. Na área da saúde, oferecendo unidades básicas de atendimento, centros especializados em idosos e hospitais; deve pensar também em equipamentos sociais, como núcleos de convivência para idosos onde eles fazem atividades, participam, conhecem outras pessoas e desenvolvem sua rede de suporte social; para aqueles sem capacidade funcional tão boa e mais dependentes de cuidado, falo em centros-dia onde vão de manhã e voltam para casa à tarde, e para aqueles que não têm mais como residir em suas casas, é necessário oferecer instituições de longa permanência, mais conhecidas como casas de repouso.

Na prática, a gente vê que não é assim que funciona e essa estrutura toda muitas vezes não existe. Na sua opinião, porque isso acontece?
Você tem razão. Isso tudo está previsto na política nacional voltada aos idosos, mas não temos em funcionamento. Os centros-dia, por exemplo, são fundamentais para garantir que as pessoas da família trabalhem com mais tranquilidade sabendo que o seu familiar tem onde ficar. Falta um olhar para o envelhecimento que eu chamo atenção e destaco. O poder público precisa ter em mente que isso não é um gasto, isso é necessário fazer, isso é de previsão de política pública, é um investimento para que as pessoas vivam mais. E cabe a nós, da sociedade civil organizada, pressionar o poder público para que ele cumpra o que está previsto no nosso Estatuto do Idoso.

Então, a gente pode dizer que o idoso é negligenciado?
Em alguns casos sim e a negligência também é um tipo de violência. Por vezes, o idoso é deixado de lado, é visto como aquele que pode esperar e nem sempre ele pode esperar. É preciso acolher o idoso naquilo que é necessário e posso dizer que muitas vezes as famílias negligenciam porque são famílias negligenciadas pelo poder público. As pessoas precisam da ajuda do poder público para cuidar do seu idoso. Se a pessoa precisa sair para trabalhar e não tem onde deixar seu familiar e se eu tenho isso previsto na política pública e não destino meu dinheiro para que ocorra, como vou querer que a família cuide bem? O funcionamento de uma sociedade envelhecida se dá melhor quando o sistema público atua em parceria com a família e a comunidade, todos trabalhando em rede.

A sociedade precisa respeitar mais o idoso?
Precisamos conhecer mais as peculiaridades da pessoa idosa. Precisamos erradicar os mitos e preconceitos. De uma maneira geral é preciso campanhas que preguem as diferenças entre jovens, crianças e idosos. Isso é fundamental para que tenhamos respeito e um atendimento digno para as pessoas.

Qual o principal estigma que os idosos carregam?
Um deles é a infantilização. Aquela visão equivocada de que todo idoso volta a ser criança. Existem até termos equivocados em equipamentos públicos. Os centros-dia, por exemplo, muitas vezes são classificados como creches para idosos. Creche é para criança. Se atende idosos não é creche. Então, essa infantilização é um estigma. Identificar a pessoa idosa como alguém que não tem mais capacidade de aprendizagem é outro mito, é uma forma preconceituosa de entender o idosos. Outra coisa que a gente ouve muito é que todo idoso vira um rabujento. Então são ideias assim, carregadas de preconceito, que vão tirar esse colorido do envelhecer. Das fases da vida, a velhice é a com maior heterogeneidade. As pessoas são mais diferentes porque viveram de formas diferentes.

Como se preparar para a velhice?
Começamos a envelhecer no nascimento. A preparação se dá identificando que quanto melhor forem os hábitos – alimentação, atitudes positivas diante da vida, apoio social e solidário, melhor e mais saudável será a velhice.

Relatos de suicídio entre idosos estão se tornando mais comuns. Como você vê isso?
É uma questão que preocupa muito e o problema começa quando eles começam a se questionar que sentido tem a vida e isso se dá por questões de saúde, de abandono, da falta de pertencimento ao local onde estão e por se sentirem irrelevantes. Os familiares podem ajudar entendendo as necessidades do idoso.

Uma vez na velhice, então o que fazer para não ser dominado pela sensação de que não há mais nada para fazer?
É preciso trabalhar muito com a motivação, buscar formas de convívio e socialização. É preciso pensar, o que eu gostava de fazer e parei? O que nunca pensei em fazer e tinha interesse?

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