Denúncia contra padre Leandro é ‘absurda’, critica advogado

Defensor diz confirmar que Judiciário não se deixará levar por comoção pública das redes sociais; padre responde por quatro casos de abuso em Araras


O advogado Paulo Sarmento, que defende o padre Pedro Leandro Ricardo, criticou a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Araras contra o reitor afastado da Basílica de Americana, acusado de crimes sexuais.

“A denúncia é absurda, não encontra respaldo no fatos e viola o princípio da legalidade”, disse ao LIBERAL Sarmento. No entendimento do advogado, os depoimentos que embasam a acusação da Promotoria contra Leandro “não subsistem ao contraditório e às provas que serão produzidas pela defesa no decorrer do processo”.

“Confiamos que o Poder Judiciário não se deixará levar por comoção pública produzida artificiosamente por mídias sociais, e fará Justica absolvendo nosso cliente de tais acusações falaciosas”, afirmou o defensor.

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Padre Leandro é acusado de quatro crimes de atentado violento ao pudor em Araras, cidade onde ele atuou antes de vir para Americana.

A Promotoria aponta que os abusos sexuais aconteceram entre 2002 e 2006. As vítimas foram três adolescentes (dois meninos e uma menina) e um garoto de 11 anos que eram auxiliares de Leandro na paróquia São Francisco de Assis.

Foto: Arquivo / O Liberal
Padre Leandro atuava em paróquia de Araras antes de assumir posto em Americana

O padre, que está afastado do comando da Basílica de Americana desde que a investigação teve início, em janeiro, nega as acusações.

Na denúncia, apresentada na última sexta-feira (13), o promotor Luiz Alberto Segalla Bevilacqua pede que o padre seja condenado por atentado violento ao pudor com dois agravantes: ele exercia autoridade sobre as pessoas e, em um dos casos, a vítima tinha menos de 14 anos.

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O crime de atentado ao pudor consiste em constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal. As penas variam de 2 a 6 anos de prisão.

Se Leandro for condenado à punição máxima em cada um dos casos, a pena acrescida dos agravantes somaria 46 anos e 6 meses de cadeia – no Brasil, ninguém pode ficar mais de 30 preso.

Agora, a Justiça vai decidir se aceita a denúncia proposta pela Promotoria. Caso seja aceita, padre Leandro virará réu na primeira instância e deverá ser julgado após o juiz ouvir testemunhas de acusação e defesa.

Detalhes

Em um dos casos, o MP diz que Leandro chamou um rapaz para dormir na casa paroquial para ajudá-lo na missa da manhã seguinte. O padre, diz a denúncia, ofereceu vinho ao jovem e depois apareceu de bermuda, com o pênis ereto. Segundo o MP, Leandro fez sexo oral no adolescente, que se livrou do religioso e correu para um dos quartos.

No caso do menino de 11 anos, Leandro alisou o corpo da criança a pretexto de vesti-lo com a batina, aponta o MP.
Em dois casos, o promotor afirma, com base no inquérito policial, que o padre aproveitava viagens de carro com os adolescentes para passar a mão em suas coxas e nos órgãos genitais. Segundo o MP, Leandro ofereceu dinheiro e presentes para comprar o silêncio de ao menos duas vítimas.

Para o promotor, o padre aproveitava sua influência na comunidade religiosa. “Nessa qualidade, atraía criança e adolescentes para a função de ‘coroinha’,  bem assim para as tarefas cotidianas da igreja, com o propósito último de satisfazer sua lascívia.”

A Promotoria não pediu a prisão preventiva o padre porque ele respondeu à investigação em liberdade e não atrapalhou o andamento do inquérito, além de não possuir mais contato com as vítimas.

Histórico

O padre Leandro Ricardo está fora do comando da Basílica de Americana desde janeiro, quando a investigação teve início. Inicialmente, ele pediu afastamento. Depois, foi suspenso após as denúncias contra ele virem a público.

Leandro atuou em Araras antes de ser transferido para Americana. O inquérito contra ele teve origem em um dossiê anônimo enviado à deputada estadual Leci Brandão (PCdoB), que encaminhou o material ao Ministério Público.

Além de casos de abuso sexual supostamente cometidos pelo padre, inclusive em sua passagem por Americana, a denúncia também relatava acobertamentos por parte do bispo da Diocese de Limeira, dom Vilson Dias de Oliveira, além de extorsão a outros padres e acúmulo de patrimônio incompatíveis com o cargo que ocupa na igreja.

O escândalo, que chegou a repercutir em um encontro mundial da igreja, com o Papa Francisco, culminou com a queda de Dom Vilson do posto, em maio. No lugar de Vilson, assumiu o bispo dom José Roberto Fortes Palau, de 54 anos.

Comissão

Após os escândalos de abuso sexual que atingiram líderes católicos locais, a Diocese de Limeira criou uma Comissão de Denúncias para receber queixas de abusos sexuais cometidos por clérigos e religiosos.

O órgão, que começou a operar no primeiro semestre, já analisa casos, que correm sob sigilo. Para entrar em contato com a comissão, é preciso ligar na Cúria Diocesana, no telefone (19) 3441-5329.

A criação da comissão seguiu decreto do papa Francisco, que determinou que até junho de 2020 todas as dioceses do mundo tenham sistemas acessíveis para receber as queixas.

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