Com 259 nas ruas, ação contra esmola tem início na segunda

Prefeitura de Americana e psicólogo dizem que dinheiro serve muitas vezes para comprar droga; campanha começa com cartazes e distribuição de panfletos


A Organização Vinde à Luz, contratada pela prefeitura, encontrou 259 moradores de rua em Americana durante os três primeiros meses de trabalho. Cento e noventa e um (73,7%) são usuários de drogas ou álcool. A Secretaria de Ação Social pretende iniciar já na segunda-feira uma campanha com cartazes e panfletos para convencer a população a não dar esmolas.

É que a maior parte (120) dos moradores de rua contou que a mendicância é sua forma de sobrevivência. E, na maioria das vezes, a esmola sustenta o vício, de acordo com quem trabalha diariamente nas abordagens. “Muitos acham que contribuindo com dinheiro ela [pessoa que vive na rua] vai usar para comer. Muitas vezes eles vão usar droga”, afirma Edson Rodrigo Somaio, psicólogo e coordenador do Seas (Serviço Especializado em Abordagem Social) da Vinde à Luz.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Edson Somaio, do Seas, aponta abandono de estudos como complicador

Secretário de Ação Social e Desenvolvimento Humano de Americana, Ailton Gonçalves Dias Filho diz que os cartazes já estão prontos e que quer colocá-los nas ruas segunda-feira. “Aquela esmola não tem poder de mudar aquela pessoa desse status”, afirmou o secretário.

Foto: Divulgação
Cartazes fazem parte de campanha

Para Somaio, a maioria das pessoas está nas ruas por causa do uso de drogas, aliado, em muitos casos, ao rompimento dos vínculos familiares. Dos 164 moradores de rua que responderam à pergunta sobre suas relações em família, 59 (35,9%) disseram não ter mais ligação com os parentes.

Outro fator que agrava a situação, afirma Somaio, é a baixa escolaridade. Dos 159 que informaram seu nível de estudos, apenas 31 (ou 19,5%) completaram o ensino médio. Destes, seis concluíram o ensino superior – é o caso, por exemplo, de quem passou por uma separação recente e tinha problema com álcool, conta o psicólogo. Sessenta e nove (43,4%) sequer terminaram o ensino fundamental.

Na visão de Somaio, a escola é um lugar de desenvolvimento e criação de vínculos, e o abandono precoce dos estudos ajuda a estreitar a visão de quem já está em situação extrema. “Quem está na rua não consegue enxergar outras alternativas. Eles acham que é aquilo para a vida deles e acabou.”

A história de Diogo, de 25 anos, é marcada justamente por drogas, rompimento de vínculos e pouco estudo. Abandonou a escola na quinta série, usa crack e é brigado com o pai. Dorme perto da igreja Dom Bosco à noite e, durante o dia, perambula e pede dinheiro ou faz algum bico.

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Pai de um menino de 7 anos, quer ser internado de novo e tentar ajeitar a vida. “Queria ser engenheiro civil”, diz. Assim como ele, 147 dos abordados afirmam querer sair das ruas, e 56 disseram que não – os números nem sempre chegam nos 259 porque nem todos respondem todas as perguntas.

As pessoas que querem tratamento são encaminhadas ao Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas) e para os Centros de Referência em Assistência Social.

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Se alguém vir um morador de rua, pode ligar para o serviço de abordagem nos telefones 3406-3655 e 99632-5032. Se o morador de rua quiser ajuda, pode ser orientado a procurar o Creas (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), que fica na Rua Gonçalves Dias, 597, – o telefone é 3475-3400.

‘Resgatado’ tenta recomeçar vida

O cabeleireiro P.P, 55 anos, foi “resgatado” das ruas há cerca de um mês e passou a viver num abrigo da prefeitura para homens no bairro Colina. Sua situação impressionou os já calejados funcionários do Seas. P. vivia numa praça da Praia Azul e sequer levantava para pedir ou fazer as necessidades. Vivia das doações de vizinhos e praticamente não esboçava qualquer vontade de viver.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Diogo, de 25 anos, tem a vida marcada por abandono escolar e rompimento de vínculos familiares

Com esquizofrenia, era um caso atípico de morador de rua. Já foi usuário de “todas” as drogas, como ele mesmo diz, mas passou a viver nas ruas justamente depois de fazer um tratamento e abandonar o vício. Somaio conta que a morte de uma pessoa próxima o abalou.

P. contou ao LIBERAL que teve de vender a casa em que morava para pagar dívidas com uma lanchonete e, em janeiro deste ano, após fechar seu salão, foi morar na rua. Em pouco mais de um mês, a mudança na aparência e no comportamento salta aos olhos dos funcionários do serviço de abordagem.

Recentemente, diz Somaio, P. pediu um cortador de unhas. Parece pouco, mas o psicólogo conta, que, neste caso, é um grande passo. “É o autocuidado, coisa que ele não tinha quando estava na rua.”

O abrigo, com dez vagas, é a casa de outros quatro homens além de P. Todos têm algum problema mental e, exceto o cabeleireiro, vivem no local há vários anos. No local não são aceitas pessoas para passar a noite. Para viver lá, o morador de rua tem de passar pelo crivo dos serviços de referência da prefeitura e estar disposto a mudar de vida. Ou retomá-la, como P., cujos planos são simples. “Abrir o salão outra vez, viver a vida, alugar uma casa”.

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