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Revista L Educação

Colégio Kennedy: na memória e nos corações dos americanenses

Histórico Instituto de Educação se fixou na lembrança afetiva de gerações de americanenses; conheça a história do colégio

Por Isabella Holouka

22 Novembro 2021, às 07h48 • Última atualização 22 Novembro 2021, às 12h31

Como o histórico Instituto de Educação se fixou na lembrança afetiva de gerações de americanenses – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Há quem diga ser impossível falar sobre educação em Americana e não citar a relevância do Instituto de Educação Presidente Kennedy. Nascido da necessidade do município, que crescia e mostrava suas potencialidades industriais e comerciais, o colégio é um constante alvo de saudosismo. 

Isso porque foi a primeira escola na cidade, e por muito tempo a única, a oferecer tantos cursos e com tamanha qualidade, sempre creditada à diretora rígida, aos professores empenhados e à forte disciplina da época, resultando em cidadãos bem-sucedidos e reconhecidos profissionalmente. 

Além disso, a convivência da comunidade escolar era tão amorosa e intensa que até hoje alunos e professores promovem encontros e se reúnem em grupos nas redes sociais, onde compartilham lembranças e postam fotografias da época. 

Projetos para resgatar a história do colégio, como o Soul Kennedy – liderado por Fernando Zavarelli, Marcel Barbosa, Carlos Sant’Anna, Orestes Camargo Neves e Josué Mastrodi – que prevê a produção de uma revista e um documentário audiovisual, também demonstram o amor da comunidade escolar pelo colégio.

O Instituto de Educação Presidente Kennedy é tema da dissertação de mestrado de Marilde Terezinha Zuardi Arcaro, apresentada ao Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo), em Americana, em 2008. O trabalho levou Marilde, professora na escola durante 27 anos, a partir de 1960, ao arquivo morto do antigo colégio e à realização de diversas entrevistas.

A escola foi criada como Ginásio Estadual de Americana, em 1950. Quatro anos depois, foi transformada em Colégio Estadual e Escola Normal de Americana. Depois, em 1960, foi constituído o Instituto de Educação de Americana, que recebeu em 1963 a denominação Instituto de Educação Presidente Kennedy.

Em 1975, a escola passa a se chamar Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus Presidente Kennedy. 

Assim como Marilde faz em sua dissertação, passaremos a chamar o colégio que é tema desta reportagem como Kennedy, denominação afetiva pela qual é conhecido até hoje.

A última fase da escola durou até 1979 quando, através de um processo de redistribuição da rede física de escolas estaduais, passou a denominar-se Escola de Primeiro e Segundo Graus Dr. Heitor Penteado, com a união entre Kennedy e o Grupo Escolar Dr. Heitor Penteado. 

Localizado na Praça Comendador Muller, onde hoje funciona a Biblioteca Municipal de Americana, e voltado ao primário, o Grupo Escolar era mais antigo que o Kennedy, motivo pelo qual o seu nome prevaleceu após a redistribuição do governo estadual.

Criação

Nos anos que antecederam a criação do Kennedy, Americana passava por um intenso processo de desenvolvimento e urbanização, atrelado à expansão industrial, que a transformavam em um importante polo têxtil. A cidade recebia migrantes de outras regiões do Estado, a maioria agricultores, que buscavam melhores condições de vida.

Para se ter uma ideia, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população recenseada em 1940 em Americana era de 18.190, número que saltou a 66.379 habitantes em 1970. Destes, 94% já estavam concentrados na zona urbana.

A pesquisa de Marilde destaca os acontecimentos mundiais e nacionais que desencadearam este contexto social e econômico. A economia nacional passava por oscilações desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com restrições de importações e aumento da produção e consumo de bens, levando a um desenvolvimento da produção industrial interna. 

O processo foi repetido com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os conflitos planetários respingaram em Americana como “surtos de progresso”, que levaram à reivindicação de possibilidades para a instrução e qualificação da população.

Na década de 1940, dirigentes e autoridades locais eram pressionados para a instalação de um ginásio estadual. Nesta época, a cidade possuía pequenos grupos escolares municipais e iniciativas particulares. Em 1950, quando foi instalado, o Kennedy contava com todas as séries do curso ginasial (que correspondia aos quatro anos finais do ensino fundamental) e com 181 alunos. 

Em seus primeiros 10 anos de funcionamento, a escola já oferecia os cursos ginasial, colegial – com cursos científico e clássico, correspondentes ao ensino médio – e normal, que depois passou a ser chamado de magistério. O curso científico costumava ser a opção de quem pretendia seguir carreira nas ciências exatas, enquanto o clássico era mais voltado para o estudo de línguas e humanidades. Já o normal, ou magistério, formava professoras de primeiro grau.

Todos os cursos se acomodavam no prédio alugado da “Escola de Comércio Dom Pedro II”, na Rua Heitor Penteado, e o noturno era no prédio do Grupo Escolar, na Praça Comendador Muller.

A mudança do colégio e unificação das turmas no prédio na Rua dos Professores, número 40 – imponente construção onde o Kennedy funcionou até a reorganização de 1979 – se deu no ano de 1962, após um trabalho intenso da célebre diretora, a professora Aparecida Paioli, de Campinas e já falecida, que dirigiu a escola entre 1950 e 1979. 

Em 1975, ano em que comemorava jubileu de prata, a escola contava com 3.532 alunos, com 97 classes, sendo 62 do primeiro grau, e 35 do segundo grau. O Kennedy chegou a ter 102 professores.

A escola sempre foi mantida pelo governo estadual, embora contasse com os esforços da diretora para a arrecadação de renda extra, através de festas e doações.

Modelo

Uma das mais icônicas professoras do Kennedy, Fanny Olivieri, de 85 anos, formou-se na própria escola, no ano anterior ao seu ingresso como docente.

“Tenho uma saudade doída dentro de mim”, diz Fanny Olivieri, professora aposentada – Foto: Ernesto Rodrigues / O Liberal

“Eu fui aluna do curso normal no Kennedy, e comecei a dar aulas com 18 anos, em 1957, como professora substituta. Fiquei na escola até 2001, inclusive fui diretora no Heitor Penteado por dois anos”, conta ela emocionada, ressaltando “uma saudade doída” dentro de si.

Algo semelhante aconteceu com o professor Josué Mastrodi, de 78 anos, que depois de frequentar o colegial voltou ao Kennedy para lecionar contabilidade e práticas comerciais.

Os professores recordam a formação completa oferecida pela escola. “Como formava professores primários, uma escola-modelo era anexa ao Kennedy, onde as alunas do curso normal iam fazer as suas aulas práticas. E o estudante podia entrar no primeiro ano do primário, estudar até o quarto ano, passar ao ginásio e depois ao colegial, optando por científico, clássico ou normalista. Terminado o curso, havia diversas opções para aperfeiçoamento”, afirma Josué.

Josué Mastrodi, hoje com 78 anos, relembra histórias do colégio – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

O Kennedy era uma grande referência no Estado de São Paulo, segundo os docentes. “Tínhamos reuniões com a coordenadoria de estudos e normas pedagógicas e periodicamente professores do Estado todo se reuniam na capital. Eu ia muito para essas reuniões, e todo mundo queria fazer parte do nosso grupo, da nossa equipe, porque tínhamos muito mais elementos, muito mais ‘know-how’. A nossa escola foi realmente um modelo”, conta Fanny.

Três características do Kennedy são citadas por Marilde Arcaro como decisivas na história do colégio, e relevantes para que ele seja celebrado até a atualidade por seus ex-alunos: uma direção forte e centrada em uma única pessoa durante um longo período, um corpo docente unido, estável e sempre empenhado, e uma comunidade escolar unida e estimulada através de projetos extracurriculares.

“Era uma direção única, com uma postura forte, e um corpo docente estável e animado”, relembra a professora Marilde Arcaro – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

“Essa escola foi grande porque teve uma direção que ficou muitos anos, uma direção única, com uma postura forte, e que proporcionou aos professores possibilidades de se reciclarem, crescerem enquanto profissionais. Era um corpo docente estável e animado, com vontade de produzir, e isso resultava em uma boa qualidade de ensino. Além disso, os alunos participavam de atividades estimulantes, que os ajudavam a se sentirem bem na escola”, aponta.

Josué compara o Kennedy como uma empresa muito bonita e muito bem dirigida. “Aparecida Paioli era uma pessoa de pulso firme, que conseguiu uma gama de ótimos professores, e era muito bem assessorada pelos secretários, funcionários, bibliotecários”, resume.

Funcionária na secretaria do Kennedy por cerca de 30 anos, a partir de 1959, Shirley Benotto Mastrodi, de 86 anos, conta que toda a comunidade escolar se dava muito bem, inclusive com a diretora. Ela lembra que, naquele tempo, os professores decidiam as notas e o secretariado passava as informações à caneta para o prontuário de cada aluno.

“Foi a primeira escola em Americana com o curso completo, acrescido de outros que haviam lá dentro. Para quem queria seguir determinadas carreiras, tinha cursos interessantes. Era uma escola fabulosa, muito completa, com uma diretora muito dinâmica”, comenta.

Vivências

O americanense Geraldo Aparecido Rossi, de 63 anos, da turma que se formou em 1975, mora em Campinas desde os anos 1980, mas faz questão de visitar o Kennedy quando vem a Americana. 

“Lembro das salas, inspetores, professores, do pátio, da cantina, do time do grêmio, do teatro. Passo em frente à escola e falo para os meus filhos até sobre o pipoqueiro, que ficava ali em frente. Era sagrado guardarmos um dinheirinho para a pipoca”, conta.

Seminarista em São Paulo, Geraldo ouviu de seu diretor que o Kennedy era a única escola no interior paulista que merecia recomendação, antes de ingressar no colégio. Ele conta que a disciplina no Kennedy era reconhecida pela rigidez.

“Você não entrava atrasado, com o uniforme sujo, e a saia das meninas era quatro dedos acima do joelho. A camisa não podia ter marca de suor no colarinho, sempre abotoada até o último botão. A pasta não podia ser relaxada. Não podia colocar o pé na cadeira. Você entrava na escola no primeiro minuto e só saia no último, tinha apenas três faltas toleráveis por mês, e mais do que isso era suspensão”, lembra Geraldo, que hoje trabalha no ramo automotivo.

A neuropsicopedagoga e professora Sueli Aparecida Parolin, de 63 anos, estudou no colégio entre 1970 e 1979, tendo concluído o curso normal e uma especialização. Ela afirma que o ensino no Kennedy era estimulante e que os docentes incentivavam o aprofundamento nos temas, o que teria despertado – nela e em diversas amigas – a vontade de estar sempre se atualizando. Também destaca o patriotismo incitado na escola.

“Trago comigo até hoje o amor à pátria. Tínhamos valores, disciplina moral e cívica, e isso mexia muito comigo. O hino nacional era estudado, depois cantado, e cantávamos com tanto amor que hoje nos emocionamos ao ouvi-lo. Também tinha a banda, a fanfarra, os desfiles de 7 de setembro”, recorda Sueli.

Empresário Orestes Camargo Neves acredita que o colégio oferecia melhores oportunidades aos alunos – Foto: Ernesto Rodrigues / O Liberal

O empresário Orestes Camargo Neves, de 68 anos, aluno do Kennedy entre 1968 e 1970, destaca a forte cobrança pelo estudo e disciplina, através de professores bastante influentes, além da direção rígida. Ele lembra que para ingressar no ginásio havia um exame de admissão, uma espécie de vestibular. “Se você não tivesse uma boa base, não conseguia entrar”, diz.

“Eu acho que quem passou pelo Kennedy teve muito mais oportunidades profissionais. Uma característica impressionante era que o pessoal terminava o ensino médio, prestava vestibular e passava sem cursinho preparatório nas universidades públicas, o que já demonstra a qualidade do conteúdo da escola”, afirma ele.

“Temos amizades até hoje”, afirma Maria Teresa Feldman – Foto: Ernesto Rodrigues / O Liberal

“Fez a diferença na minha formação ter estudado no Kennedy”, concorda a advogada previdenciária Maria Teresa Feldman, de 72 anos. Estudante no Kennedy entre 1962 e 1966, ela se formou professora pelo curso normal, além de ter estudado artes e direito.

Maria Teresa destaca a prazerosa convivência da comunidade escolar, em uma época em que todo mundo se conhecia. “A cidade era pequena, então você conhecia o pai e a mãe de todas as amigas. Tinha o Rio Branco, e frequentávamos o clube… Era muito convívio, andávamos todos juntos. Temos amizades até hoje. Temos grupos e nos reunimos todos os anos, uma maravilha”, conta. 

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