Americana era entreposto para tráfico internacional de cocaína

Investigação identificou aviões utilizados para transportar drogas com destino à Europa, em esquema que usava ‘laranjas’ e pilotos sem emprego


Foto: Dise Americana / Divulgação
Aeronave apreendida em Birigui (SP) na última terça-feira

Entre meados de 2017 e abril de 2018, Americana serviu como entreposto para o tráfico internacional de cocaína, de acordo a Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes). Um hangar alugado no aeroporto municipal Augusto de Oliveira Salvação era usado como ponto de encontro de pilotos que transportavam droga e dinheiro entre países da América do Sul.

O balanço foi divulgado nesta quinta-feira pelo delegado titular da Dise de Americana, Luis Carlos Gazarini. O traficante Wesley Evangelista Lopes, procurado pela Interpol desde 2018 e preso em 31 de agosto deste ano em Prado (BA), foi apontado como operador logístico do esquema em Americana e responsável por cooptar pilotos.

Foto: Divulgação
Wesley era o operador logístico do esquema

A investigação culminou na prisão de 11 pessoas e na apreensão de sete aviões e um helicóptero, que juntos somam R$ 18 milhões. Três aeronaves foram apreendidas na última terça-feira em Birigui (SP). Antes, em 23 de setembro, outro avião foi apreendido em Sorocaba.

No total foi apreendida 1,3 tonelada de cocaína, que seria vendida na Europa por R$ 160 mil o quilo, ou seja, mais de R$ 200 milhões de reais.

As investigações começaram no final de 2017 a partir de uma denúncia anônima sobre movimentação suspeita de dinheiro no aeroporto de Americana. As aeronaves faziam viagens para países como Equador, Colômbia e Venezuela.

O primeiro grande marco da investigação aconteceu em 23 de abril de 2018, quando um avião com 458 kg de cocaína foi apreendido em Carauari (AM). O veículo era registrado no nome da empresa Meu Cockpit Ecommerce, de Americana, que pertencia a Wesley.

A aeronave era pilotada por Rodrigo da Silva Campos, que na época morava em Hortolândia. “Ele veio do Paraná para Hortolândia. Estava recebendo R$ 25 mil para fazer o transporte e acabou preso em Carauari”, disse o delegado.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Gazarini disse que avião era monitorado

De acordo com Gazarini, o avião saiu de Americana e estava sendo monitorado pela Dise, que pretendia abordá-lo no retorno. Entretanto, como as autoridades de Carauari identificaram o esquema, o procedimento natural foi realizar buscas no aeroporto americanense em 27 de abril, que resultou na apreensão de um avião e um helicóptero.

“Wesley chegou na cidade em 2017, mas a compra [do hangar] foi em março de 2018. De certa forma ele se incorporou da empresa que chamava Meu Cockpit, que já pertencia a uma pessoa oriunda lá do Espírito Santo que era nosso investigado, e passou a ser dono. Começou a administrar e foi aí que chegaram esses aviões [em Americana]”, explicou Gazarini.

Os trabalhos seguem e ainda existem cinco aviões já identificados para serem apreendidos. A polícia também analisará informações recentemente obtidas por meio de quebra de sigilo bancário.

“Nós fechamos um ciclo. Tínhamos que agir rápido para não perdermos aeronaves. Existem ainda cinco aeronaves nos nomes de pessoas investigadas que não sabemos onde estão porque a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) não tem um controle dos aeroportos que não são monitorados”, comentou Gazarini.

‘Laranjas’ e pilotos sem emprego eram usados

A estrutura identificada pela polícia mostrou que Wesley contratava pilotos que estavam sem trabalho. Eles tinham que colocar o avião no próprio nome e operar os veículos. Ao menos dez profissionais foram envolvidos.

Um desses pilotos foi identificado como Arie Soloaga Cruz, paraguaio que se casou com uma americanense, residiu na cidade e que estava morando no Paraguai desde 2018. Cruz foi preso em 16 de abril deste ano em uma pista de pouso de Atibaia com 377 quilos de cocaína.

“Veio para Americana, se casou com uma americanense, morava do lado do aeroporto, tinha helicóptero, tinha aeronaves e, de certa forma, acabou se envolvendo nesse grupo que é um braço logístico do tráfico de entorpecente”, disse Gazarini.

Ainda segundo a Dise, parte das aeronaves estavam em nome de “laranjas”. Entretanto, em aos menos quatro casos os “donos” não sabiam da propriedade, ou seja, tiveram o nome ligados a aeronave de forma irregular.

Uma delas é uma antiga moradora de Santa Bárbara, que agora reside em São José do Rio Preto e ganha a vida como catadora de reciclagem. Em três casos os proprietários eram “fantasmas”, com nomes adulterados para conseguir CPF e despistar autoridades.

Gazarini estima que o grupo realizava de duas a três viagens por mês.

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