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Entrevista

‘A vida é o agora’, diz Ademir Zanarelli após deixar sacerdócio

Após 25 anos como padre e boa parte deste tempo em Americana, Ademir Zanarelli anuncia saída do sacerdócio e aborda motivações em entrevista ao LIBERAL

Por Isabella Holouka

02 Agosto 2020, às 08h12 • Última atualização 02 Agosto 2020, às 10h41

Nesta semana o agora ex-padre Ademir Zanarelli veio a público, em sua página no Facebook, para falar sobre a decisão de deixar o sacerdócio, após um ano de período sabático.

Em 25 anos de ministério, o ex-pároco, natural de Cordeirópolis, atuou por três anos e quatro meses em Descalvado, no interior do Estado, e depois veio para Americana. Aqui esteve na Paróquia do Senhor Bom Jesus, no Jardim Girassol, na Paróquia São Benedito, no Jardim Colina, e na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Vila Cordenonsi.

Ex-padre Ademir Zanarelli falou sobre os motivos de deixar a batina em entrevista ao Liberal – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal – 30.06.2018

Somam-se ainda graduação em Teologia pela PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica), pós-graduação em Espaço Litúrgico e Arte Sacra, na PUC-RS, e a dedicação cotidiana à arte sacra e às reflexões.

Em entrevista concedida ao LIBERAL, ele trata da motivação por trás da decisão de deixar o sacerdócio, o envolvimento com a arte e a necessidade de mudança.

Quais foram as suas motivações e como foi o processo pessoal de tomar essa decisão?

ADEMIR ZANARELLI
As motivações não foram exteriores, não houve acontecimentos externos, envolvimento com alguém ou algum delito. Mas sim um situar-se. Foi uma motivação muito interna, muito da alma.

Por conta de você se ver na situação, o que você está fazendo e desenvolvendo, toda a carga e responsabilidade assumida por conta do ministério. Você tem que dar conta de gerenciar, estar com muitas pessoas, com inúmeras solicitações quando você é único e pensa “eu não consigo salvar o mundo, o planeta”.

E também por conta daquilo que está como dom, como talento, que na verdade eu trago desde que nasci, que é a arte, a sensibilidade. Diante de um emaranhado de solicitações, de responsabilidades, e de repente você vê lá no íntimo um anseio de simplificar um pouco o modo de viver, desacelerar o seu modo de vida, e poder continuar com a essência, que é a fé, a espiritualidade, o mistério de Jesus, do Evangelho e proclamar de outras formas e de outras maneiras.

E como a notícia foi aceita pela comunidade? Ela leva as pessoas a refletirem sobre as estruturas da igreja católica, apesar de as duas questões não estarem intimamente ligadas? Houve uma movimentação posterior à sua decisão?

ADEMIR
Realmente, eu tinha uma preocupação sobre como seria quando isso saísse a público, pensei “poxa, como as pessoas vão reagir?”. Mas depois pensei que eu não poderia direcionar a minha vida de acordo com o que os outros vão pensar ou dizer, porque o autor da vida é Deus e a corresponsabilidade dessa vida é unicamente minha, como de qualquer outro ser ou pessoa.

Nesta semana eu vi o retorno, a reação das pessoas, e foi extremamente gratificante. Porque eu não vi ninguém me recriminando, muito pelo contrário, a força, o apoio, a compreensão e o carinho são muito grandes.

E com certeza, diante da conjuntura, pois sabemos que todas as instituições estão passando por um momento de transição planetária e de tensões, querendo ou não, eu acho que as pessoas acabam pensando “poxa, realmente não é fácil estar ligado a uma instituição que tem as suas normas, as suas regras, sua estrutura”, “ou você assume e se enquadra nela, ou você vê de outra forma”.

E foi um pouco do que aconteceu comigo. Eu acho que essa compreensão parte de ver se a realização está acontecendo ou não. Se não está, você vai se realizar de outra forma, mas isso não significa o desligamento, afastamento ou abandono.

É só um novo modo de se colocar ali para continuar essa expressão que deve ser de todos. Passamos na vida e temos que plantar sementes, da bondade, de amor, de respeito, de solidariedade, de amizade.

E tem muitas formas de você lançar sementinhas. No meu caso a arte é uma forma de lançar a semente pela beleza, pela arte que encanta e faz uma ligação com o mistério. Por isso, o foco é mesmo a arte sacra, arte em geral, mas sobretudo a arte sacra.

Então o plano de agora em diante é focar na arte mesmo?

ADEMIR
Sim, porque eu sempre gostei, mas o percurso ao longo desses anos foi mesmo para o ministério. E eu me despertei em 2004, me vi exercendo essa habilidade e aquilo realmente bateu, está dentro de mim, está me fazendo bem.

É claro que há muita coisa por conhecer, muitos cursos que eu ainda pretendo e desejo fazer, mas eu fui buscando algumas coisas. Fiz a minha pós-graduação na área do Espaço Litúrgico e Arte Sacra e tenho uma necessidade e uma urgência de ir em muitos lugares, igrejas, comunidades, paróquias.

Então eu me coloquei mesmo para esse campo da arte e das reflexões, que também gosto de fazer, os textos que tenho postado agora em áudio e quero ver se faço depois em vídeo.

E há portas que haverão de se abrir, para ajudar as pessoas a também encontrarem o seu lugar, a sua realização.

Sim. Acredito que tenham sido muitos anos de muito contato com as pessoas…

ADEMIR
Com o ministério, e sem contar os anos de formação e estudo, foram 25 anos. No ano passado, eu ainda estava ligado ao clero, mas estava em ano sabático, ou seja, não tinha as atividades diretamente mas tinha a ligação, o vínculo com a diocese.

Mas [o ano sabático] me ajudou bastante a pensar sobre isso, refletir sobre isso, e chegar neste momento de pensar que eu precisava me decidir e não podia mais ficar em cima do muro. E assim foi.

Todos nós, de uma certa maneira, passamos por momentos na vida em que é preciso refletir um pouco e talvez seguir para outros rumos. E com base na sua experiência, que mensagem você deixaria para as pessoas, independentemente do tipo de decisão que elas precisem tomar?

ADEMIR
A mensagem não é outra senão: o medo nos segura em muitas situações da vida, de certa forma ele é um escudo, uma proteção, mas às vezes a gente não toma uma iniciativa de mudança por medo do que vem pela frente, do novo, do incerto, e o futuro nos traz isso.

O que é o futuro? É nada, ninguém sabe o que vem pela frente. Neste tempo que estamos vivendo, de pandemia, a insegurança é muito grande.

O que virá? O que será? Não sabemos, ninguém sabe. Então nós ficamos com medo e o medo nos paralisa. E acabamos ficando em uma zona de conforto em que “está ruim, mas está bom”, sendo que isso não é bom. Se está ruim, não está bom.

Então qualquer situação em que você fica aprisionado, se você está bem ali, em todos os sentidos, emocionalmente, espiritualmente, nas ações, então está bom, prossiga.

Mas se algo está te questionando, cutucando, e você não tem aquele brilho e vibração, então alguma coisa está te dizendo para ir em frente, mudar o rumo. E tudo é da graça de Deus.

Eu acho que muitas pessoas acabam não tomando uma atitude por conta do medo e, no campo da espiritualidade, é o medo de Deus, medo de castigo. Mas Deus é uma energia de vida e a vida flui. O que foi não volta mais e o que vem ninguém sabe, então a vida é o agora. Precisamos aproveitar os momentos, contando com a graça de Deus, para fluir.

Então [a mensagem] é vencer o medo, não se acomodar na zona de conforto que às vezes pode parecer que está tudo legal, mas não está. E aí entra o discernimento. A pessoa tem que estar sempre discernindo, se está bem e realizada, se está fazendo bem aos outros, se está sendo uma presença que colabora com o semelhante. E se não estiver, mudanças.

Essa é uma mensagem de desacomodação, pois temos facilidade de acomodação e de apegos. Mas o grande aprendizado para a gente neste planeta é desapegar, a morte é o grande desapego. E a morte, não como fim, mas como passagem para uma vida com vibração de luz.

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