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COVID-19

‘A principal vacina é a informação’, diz secretário de Comunicação do Estado

Em entrevista ao LIBERAL, Cleber Mata, que vive em Americana há mais de 20 anos, fala sobre o trabalho de comunicação do governo na pandemia

Por João Colosalle

05 abr 2020 às 08:07 • Última atualização 05 abr 2020 às 15:41

O secretário de Comunicação do Estado, Cleber Mata, está “acampado” no Palácio dos Bandeirantes. É o que ele responde ao ser perguntado como está a rotina de trabalho em tempos de combate ao novo coronavírus (Covid-19).

Cleber nasceu em Registro, no Vale do Ribeira, região mais pobre do Estado, na divisa com o Paraná. No final dos anos 90, se estabeleceu em Americana e se formou em Jornalismo na PUC-Campinas.

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A relação com os governos tucanos do Estado remonta há quatro governadores. Em 2006, foi contratado como uma espécie de estagiário no auge da crise com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

De lá pra cá, sempre atuando em cargos da comunicação, enfrentou crises históricas como o cartel do metrô, o surto de H1N1 e a crise hídrica. Na mais recente, porém, o trabalho é como secretário de Estado.

Foto: Governo do Estado de São Paulo
O secretário de Comunicação do Estado, Cleber Mata, durante reunião com o governador João Doria

Diante do coronavírus, ele afirma que o maior desafio é promover a informação, única vacina disponível até então. E que os resultados dessa missão têm sido positivos. Na tarde da última sexta-feira, ele conversou com o LIBERAL. Leia os principais trechos.

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Como tem sido o trabalho da Secretaria de Comunicação diante das ações de combate à pandemia do novo coronavírus?

Como é um vírus novo, que o mundo não descobriu sequer a vacina, tenho dito que a principal vacina para o coronavírus é a informação. Há uma demanda excessiva por informação, de credibilidade. Criamos um portal para que as pessoas tenham todo o acesso sobre a doença, uma ala de informações jurídicas, para que os prefeitos possam ver o que o Estado está sugerindo do ponto de vista jurídico, até para regulamentar decretos municipais. Tem informações para pessoas que queiram doar recursos para o fundo social de solidariedade. Nosso desafio de comunicação aumentou nos últimos 20, 25 dias. Criamos aqui no governo uma espécie de central anti fake news. Chamamos, por exemplo, toda a diretoria de comunicação das companhias aéreas, para que usassem nossos materiais, ainda lá no início, quando tinha avião voando. Fomos segmentando, adequando a mensagem a cada público. O governador tem dito muito que numa doença nova, não é governador que decide, ele tem que ouvir uma banca de profissionais, de especialistas, para que eles norteiem as ações do Estado. Então, São Paulo saiu na frente não só do ponto de vista da comunicação, ao criar um portal pedagógico, mas também ao ter suas ações pautadas neste grupo de contingência.

O trabalho focado de comunicação contra o coronavírus começou quando?

No final de janeiro, fizemos uma coletiva para anunciar recursos e uma campanha publicitária. Até então, ninguém sabia como evitar o coronavírus, como lidar. E nós chegamos a uma fase nesta semana pedindo para que as pessoas fiquem em casa. Porque, à medida em que as pessoas ficarem em casa, a ideia é represar o atendimento na rede pública de saúde e evitar um colapso, para que as coisas funcionem de forma escalonada.

Houve uma necessidade dessa mudança de postura, para uma campanha mais incisiva?

Sim. O que fez mudar a rota foi quando a gente percebeu que 86% dos paulistas sabiam o que era o coronavírus e como você transmitia. Isso nos norteou. Além disso, uma coisa que nos surpreendeu muito foram as empresas privadas nos procurarem. A Vivo, por exemplo, disparou 15 milhões de mensagens SMS para todos os clientes – ela tem 60% dos clientes em SP –, mensagens pedagógicas, remetendo ao portal do governo. Isso explodiu nossas visualizações no portal. Depois da Vivo, teve a Uber, que disparou para 6 milhões de clientes do Estado comunicados específicos para que as pessoas se informem. No TikTok, que é um app usado basicamente por jovens, começamos a jogar nossas peças na plataforma, e eles nos procuraram e colocaram o governo de São Paulo ao lado da OMS e da Cruz Vermelha como referências de comunicação sobre coronavírus. Isso aumentou nossa responsabilidade.

As redes sociais têm sido bastante utilizadas pelo governo. Como tem sido o retorno?

Muito positivo. Só nas redes do governo nos últimos 15 dias, nós tivemos 10,6 milhões de visualizações. Isso demonstra que as pessoas que estão em casa estão atrás de informação. Brinco que o mercado de comunicação pode passar por uma possível crise neste momento, mas o mercado de informação não. Nós montamos aqui uma central anti fake news. A gente tem uma espécie de radar para pegar aquilo que é fake news e imediatamente deixar bem claro que aquilo não é uma verdade.

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Lidar com as fake news tem sido a grande dificuldade neste trabalho de comunicação?

Certamente. Tenho relação com outros colegas, de secretarias de comunicação, e há uma certa unanimidade no nosso setor, que isso dificulta muito. Tão importante quanto vencer o coronavírus é vencer a desinformação. Sobretudo porque o ser humano tem uma mente muito criativa para o mal. É um desafio grande ainda. Tem dado certo, mas é incessante o trabalho.

E vocês sentem um movimento político nessas fake news?

Começou a ter. Tem um movimento político dada a dicotomia entre aquilo que os líderes mundiais defendem, aquilo que os governadores defendem e aquilo que o presidente da República defende. Nós firmamos uma parceria com a Vivo e ela nos informa em tempo real como está o deslocamento das pessoas. Se você pegar um dia após o pronunciamento do presidente, aumentou o deslocamento de pessoas.

Esta campanha que o Estado divulgado mais recentemente foi uma reação ao que pregava o presidente ou ao comportamento dele?

Não foi uma reação ao presidente. Foi uma reação à falta de bom senso de algumas autoridades. Não quero aqui fazer críticas públicas ao presidente. Mas é claro que uma pessoa eleita com mais 50 milhões de votos, vai em rede nacional e ridiculariza uma doença que está matando 500 pessoas por dia em países da Europa, mil em outro, é claro que um discurso desse aumenta o nosso desafio de mostrar o que o mundo está fazendo. É só isso. O nosso grande desafio aqui também é apresentar para a sociedade paulista aquilo o que a Itália está fazendo, o que a Espanha e Estados Unidos estão fazendo. Morei por quatro anos nos Estados Unidos e tenho amigos e parentes lá. Estão desolados. Aqui no Brasil não chegou ainda. Os técnicos dizem que as próximas duas semanas serão decisivas. Se você pegar os números, São Paulo aumenta o número de mortes, em média, de 33 a 34% de um dia para o outro. Numa primeira fase, há uns sete, oito dias, começaram a desacreditar em nossos números. À medida que vai se espalhando, e as pessoas começam a conhecer pessoas próximas que ficaram doentes ou estão com suspeita, certamente vão acreditar que este negócio não é uma gripezinha.

Como você avalia o trabalho da imprensa na cobertura da pandemia?

Sem corporativismo algum, a imprensa tem ajudado muito a ilustrar esse cenário. Dado o momento em que as pessoas vivem atacando-a, é neste momento de crise que a gente vê o tamanho e a importância da imprensa brasileira. Só o governo em si não aguentaria. Eu poderia gastar R$ 500 milhões por semana em publicidade, se não fossem as entrevistas dos especialistas ou os comentários e programas que têm sido criados em torno do coronavírus, não tenho dúvida que estaríamos numa situação pior.

Você estava no governo estadual em outra crise semelhante, a do surto de H1N1, em 2009. Qual é a diferença para a atual?

A capilaridade. A H1N1, o governo também chegou a suspender aulas na época, mas foi um período que você tinha mais informação de combater a doença. No caso específico do coronavírus, você vê o mundo inteiro debruçado sobre laboratórios e você não vê perspectiva, não vê sinalização. É incomparável. Das [crises] mais difíceis que enfrentei, foi a da crise hídrica, que as pessoas falavam que ia faltar água, mas sobretudo na capital. Agora o coronavírus vai desde Rosana, na região de Presidente Prudente, até Barra do Turvo, no Vale do Ribeira. É um inimigo que você não sabe com quem está lutando.

Apesar de já ter integrado o governo em outras ocasiões, esta é a primeira vez como secretário de Estado. Como está a rotina?

É o dia todo. Graças a Deus o governador confia muito no nosso trabalho. Ele é o único governador do País que é jornalista e publicitário. Então, entende quão importante é você ter informação verídica, precisa. Isso facilita nosso trabalho. A rotina em si, eu chego aqui umas 7h15 e vou embora umas 22h, 22h30. Estou acampando no Palácio dos Bandeirantes, eu diria.

Após o caso positivo do infectologista David Uip, que liderava o comitê do governo de combate ao coronavírus, você chegou a testar?

Testei. Fiz dois exames. Tive muita relação com o David Uip por conta da campanha que ele produziu com a gente. Ele gravou aqui no estúdio da Secom [Secretaria de Comunicação], tive reuniões com ele. Então, eu e mais 11 pessoas que tiveram ligação direta, incluindo o próprio governador, nós fizemos. E, graças a Deus, demos negativo.