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REVOLUÇÃO DE 1932

9 de julho: Americana antecipou homenagem e ainda guarda memórias de voluntários

Governo municipal chegou a oferecer benefícios para ex-combatentes; cerca de 100 voluntários foram para guerra

Por Gabriel Pitor

09 de julho de 2024, às 08h17

Por mais de três décadas, as oligarquias paulista e mineira sustentaram a conhecida “política do café com leite”. O acordo era de fácil entendimento: o PRP (Partido Republicano Paulista) e o PRM (Partido Republicano Mineiro), com o apoio de coronéis, revezavam a indicação para presidente da República.

Porém, em 1929, a indecisão dos mineiros para escolher o sucessor de Washington Luís fez com que os paulistas indicassem, nas eleições de 1930, o também paulista Júlio Prestes. Já o grupo de Minas Gerais pediu posteriormente apoio ao gaúcho Getúlio Vargas, o que não aconteceu.

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O pleito deu a vitória para Prestes, mas ele não assumiu. Isso porque mineiros, gaúchos e paraibanos, liderados por Vargas, organizaram uma revolução que levou a um golpe de Estado. Era um governo provisório, que convocaria novas eleições e faria uma nova Constituição, já que a de 1891 teve os seus efeitos suspensos.

Porém, o então governo provisório se alongou e protestos foram realizados com o apoio da oligarquia paulista. O assassinato de cinco jovens por membros do Partido Popular Paulista, ligado a Vargas, em maio de 1932, foi o estopim para um movimento armado que exigia o restabelecimento da Constituição e novas eleições.

A Revolução Constitucionalista de 1932, deflagrada em 9 de julho daquele ano, contou com a participação, majoritariamente, de voluntários civis e militares entre os combatentes paulistas. Do outro lado, estavam as Forças Armadas do Brasil que possuíam maior poder bélico.

Cartazes foram produzidos pela frente estadual para mexer com o brio das pessoas. Aqui na região, um desses materiais ganhou força com os dizeres “Às armas, Villamericanenses!”. Cerca de 100 voluntários da cidade foram para a guerra.

Uma das fotos guardadas por Jocelyna Medon Bianco, presidente do Grupo Liberal, mostra a participação de civis no conflito. Na imagem, abaixo, estão, da esquerda para a direita: o médico João de Castro Gonçalves; os industriários Jota Camargo Neves, Paulo Camargo Neves, João Bernardes e Sampaio Osório; o dentista Jucelino Franco; o comerciante Belmiro Ortolano; e o farmacêutico Eduardo Medon.

Combatentes da Revolução de 1932, de Americana: da esquerda para a direita, o médico João de Castro Gonçalves; os industriários Jota Camargo Neves, Paulo Camargo Neves, João Bernardes e Sampaio Osório; o dentista Jucelino Franco; o comerciante Belmiro Ortolano; e o farmacêutico Eduardo Medon – Foto: Acervo pessoal

Paulo Camargo Neves comandou um dos batalhões e um de seus soldados foi Salvador Orlando, falecido em 1981 e avô do palestrante, advogado e engenheiro Ernesto Pavan Júnior, de 62 anos, que pesquisou sobre o conflito.

“Era um ato de civismo. O alistamento não era compulsório, eram apenas voluntários. Mas tinha muita participação popular: mulheres, negros, não era algo elitista. As mulheres faziam os uniformes, capacetes, levavam alimento. Aqui na nossa região foi muito forte”, afirmou.

Pessoas doaram objetos de valor para que o Estado pudesse comprar munições. Ernesto conta, por exemplo, que os avós doaram um anel de ouro de noivado.

Embora o resultado do conflito tenha sido negativo para os paulistas, com derrota nas batalhas, a visão do movimento é que a revolução forçou a realização das eleições de 1933 e uma assembleia de constituinte. Já o governo provisório alega que o conflito foi desnecessário e que a oligarquia paulista queria apenas retomar o poder.

Em Americana, os voluntários são lembrados como heróis pelo Poder Público. Por exemplo, em 3 de julho de 1959, o município instituiu no seu calendário o “Dia do Constitucionalista” — a comemoração antecedeu o decreto estadual, que só tornou o 9 de julho feriado em 1997.

Túmulos dos combatentes Aristeu Valente, Fernando Camargo e Jorge Jones, no Cemitério da Saudade, em Americana – Foto: Marcelo Rocha/Liberal

Além disso, três americanenses que morreram nos conflitos — Fernando Camargo, Jorge Jones e Aristeu Valente — viraram nomes de rua na cidade e em Nova Odessa. Eles foram sepultados em túmulos especiais no Cemitério da Saudade.

Ainda, em agosto de 1936, foi inaugurado o Monumento ao Soldado Constitucionalista, na Praça Comendador Müller.

“O culto americanense à revolução pode ser lido como uma idealização patriota dos que lutaram acreditando nos ideais da liberdade e da democracia e, ainda assim, lutaram, conscientes ou não, pela manutenção do poder das elites oligárquicas paulistas”, destacou a pesquisadora Mariana Spaulucci Feltrin, do grupo Historiadores Independentes de Carioba, em coluna publicada no LIBERAL em novembro de 2022.

Voluntários tiveram benefícios após conflito

O fato de ter participado da Revolução Constitucionalista de 1932 era tão valorizado em Americana que os voluntários chegaram a ter direito a benefícios nos impostos e nos concursos públicos. Tal medida foi aprovada pela câmara e virou lei em julho de 1951, promulgada pelo então prefeito Antonio Pinto Duarte.

De acordo com a legislação, as pessoas que estiveram no conflito ou integraram a Força Expedicionária Brasileira, de São Paulo, teriam preferência para ingresso no serviço público. Nos concursos, portanto, em caso de igualdade na classificação, a vaga era dada para quem tinha provado a sua participação na revolução.

Também, esses voluntários tinham isenção de qualquer imposto que recaísse sobre bem imóvel de seu uso e propriedade.

Para provar que tinha participado da revolução ou da força, era necessário apresentar os certificados. No caso dos voluntários, o documento era fornecido pela Comissão Especial do Estado.

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