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Política

‘Se kit Covid fosse útil, não teríamos esse número de mortes’, afirma infectologista

Em depoimento à CPI da Covid, médica também fez questão de destacar que "ciência não é opinião"

Por Agência Estado

02 jun 2021 às 15:50 • Última atualização 02 jun 2021 às 17:02

Médica disse também não acreditar que gestores adotem o “kit Covid” por “ma-fé” - Foto: Leopoldo Silva - Agência Senado

A médica infectologista Luana Araújo, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, reforçou a ineficácia de medicamentos usados no “kit Covid”. Luana afirmou que apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS) não ter patrocinado a distribuição dos medicamentos, ela aconteceu “fartamente” no território nacional. Para a médica, se os fármacos fossem úteis, “a gente não teria os números que a gente tem hoje”.

Luana afirmou que a questão pode ser solucionada de maneira simples usando a matemática, cruzando os dados da letalidade da doença onde os medicamentos foram utilizados. “Existem Estados que se a gente pegar a letalidade da doença e cruzar a letalidade da doença nas cidades com a distribuição dos kits, a gente vai ver que ele não teve qualquer impacto nesse sentido”, afirmou.

A médica disse também não acreditar que gestores adotem o “kit Covid” por “ma-fé”, mas que existe a necessidade de um preparo maior para lidar com a saúde no País. Para a infectologista, faltam profissionais de saúde pública integrados à gestão de todos os níveis. “Não dá pra ter um infectologista somente numa cidade de grande porte, ou médio grande porte”, declarou, defendendo uma “granularidade” de profissionais de cidades para cidades.

A médica também fez questão de destacar que “ciência não é opinião”. “Eu posso juntar a opinião de um milhão de pessoas, elas vão ser, ainda assim, opiniões. Ciência é método. Ciência é feita com desenvolvimento de atividades específicas que se encadeiam para que a gente tire de nós a responsabilidade de arcar com fatores de confusão”, declarou.

Luana também respondeu ao senador Marcos do Val (Podemos-CE) de que todas as suas posições referentes à saúde em seu depoimento foram feitas de forma técnica e condizentes aos maiores especialistas do mundo. “Eu não estou aqui sozinha, eu represento uma classe enorme desse País de cientistas muito sérios”, afirmou. Do Val, contudo, pediu que Luana “respeitasse” a opinião de especialistas contrários a ela.

“Eu respeito todos os meus colegas senador, e louvo o esforço que todos tem feito, mas existe uma diferença entre respeito e responsabilização, que é uma coisa que todos nós respondemos”, declarou a infectologista, dizendo ter bastante confiança no seu conhecimento e na sua competência para discorrer sobre o tema.

Convidada por Queiroga para ocupar o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, Luana deixou a equipe do ministro dez dias depois de ser indicada para o cargo, antes mesmo de sua nomeação se confirmar. Ao comentar sobre o caso, o ministro da Saúde afirmou que além de “validação da técnica”, era necessário “validação política” para nomeação.

‘Não devemos receitar que o paciente entre no forno

Diante da insistência do senador governista Marcos Rogério (DEM-RO) em falar sobre tratamento inicial para a Covid-19, a médica infectologista Luana Araújo precisou recorrer ao didatismo máximo para explicar os motivos pelos quais remédios já testados e descartados pela ciência não têm eficácia para tratar pacientes infectados pelo novo coronavírus.

Para isso, Luana lembrou que, se o vírus da Covid-19 for colocado no micro-ondas, ele irá morrer, mas que isso não irá levar um médico a receitar que o paciente entre “no forno duas vezes por dia”. “O senhor entende? Essa diferença precisa ficar clara para as pessoas que estão em casa”, afirmou ao senador. A médica frisou que a ciência ainda não descobriu tratamento inicial para a Covid.

“Se eu pegar essa cultura viral e botar no micro-ondas, senador, os vírus vão morrer, mas não é por isso que vou pedir ao paciente entrar no forno duas vezes por dia”, comparou a médica, que teve o nome vetado pelo governo federal para integrar o Ministério da Saúde mesmo após anuncio do titular da pasta, Marcelo Queiroga.

A comparação sobre a diferença de matar o vírus da Covid-19 diretamente pelo calor e combatê-lo quando já infectou o paciente foi uma tentativa de explicar o motivo de remédios que funcionaram ‘in vitro’ para destruir o coronavírus não terem surtido efeito quando administrados no corpo humano.

“Existem medicações antivirais para HIV que funcionaram in vitro, por exemplo, para a Covid, mas não funcionaram no organismo humano”, explicou a infectologista. Ela lembrou ainda que, no caso da hidroxicloroquina, as ações do remédio para combater, por exemplo, a malária e doenças reumatológicas, não tiveram eficácia para tratar a Covid-19.

“A hidroxicloroquina tem vários mecanismos de ação, e um deles que funciona muito bem na malária, é que ela altera o PH dentro do parasita da malária. Também tem ação de modulação do sistema imunológico, que precisa de tempo para agir, e é por isso usado a longo prazo nas doenças reumatológicas. Nenhuma dessas circunstâncias foi provada ser eficaz na questão da Covid”, disse a médica, lembrando que, já no início da pandemia, a plausibilidade teórica de usar medicamentos como a cloroquina no tratamento da Covid já era muito frágil.

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