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Política

‘Frente ampla’ deve se impor em defesa do impeachment

Por Agência Estado

12 set 2021 às 10:05 • Última atualização 12 set 2021 às 13:58

O ápice das ameaças golpistas e ataques do presidente Jair Bolsonaro à democracia, no 7 de Setembro, inspira a mobilização de partidos de diferentes matizes ideológicos na criação de uma frente ampla pelo impedimento de Bolsonaro, avalia o cientista político e professor da Universidade de São Paulo André Singer. “O que falta é tempo para que amadureça e resulte em um grande movimento popular a favor do impeachment e da democracia”, afirma o cientista político.

Nem a sinalização de recuo do presidente, na quinta-feira passada, deve bastar para conter esse processo.

Segundo Singer, que foi porta-voz da Presidência no governo Lula de 2005 a 2007, a situação atual pode ganhar contornos de um movimento unificado similar às Diretas Já, que atraiu forças antagônicas em torno da defesa de eleições nos anos 1980.

Foi o pesquisador quem cunhou o termo “lulismo” para explicar o realinhamento eleitoral que decorreu do governo petista. Ele introduz uma nova definição para nomear a marcha do governo Bolsonaro corrosiva à democracia: um “autocratismo de viés fascista”. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estadão:

O que significa o recuo de Bolsonaro após os ataques ao STF?

A nota publicada pelo presidente faz parte de uma estratégia adotada desde o começo do mandato de ora avançar, ora recuar. Ele tem uma capacidade que não se previa de jogar em diversas dimensões: na institucional, na mobilização de massa, que demonstrou na terça-feira, e com alianças partidárias com uma liberdade inesperada. Por exemplo, substituiu a aliança com o ex-ministro Sérgio Moro por uma com o Centrão de uma forma que não se imaginava possível. É provável que volte a fazer ameaças e ter o mesmo comportamento agressivo e golpista que construiu no mandato.

Qual o impacto das atitudes recentes do presidente?

Bolsonaro faz parte de um fenômeno novo no Brasil e no mundo, associado a Donald Trump e ao Brexit, de total descompromisso com os fatos, uma “pós-verdade” que não se coaduna com a política normal. Ambiguidades são próprias da política normal, mas ela tem compromisso com fatos, diferente de Bolsonaro. No 7 de Setembro, ele diz que defende a liberdade e a Constituição, quando, de fato, defende golpe contra a Constituição, democracia e liberdade. E as pessoas que vão à rua estão envolvidas por esse ambiente no qual não há nexo com a realidade. Não entenderemos Bolsonaro se não o colocarmos no fenômeno que chamo de autocratismo de viés fascista – não fascista no sentido histórico, mas com elementos fascistas. Essa ambiência ideológica em que se puxa pessoas a uma crença sem conexão com fatos foi própria do fascismo, em que havia elementos delirantes. Por isso, não acho que devemos interpretar a nota como recuo. É uma tática diversionista, que confunde a sociedade, as forças políticas e atrapalha uma ação que precisa ser clara. As idas e vindas de Bolsonaro fazem propositalmente tudo parecer uma brincadeira. O fascismo e o nazismo agiam assim.

Se não foi um recuo, qual foi o objetivo da nota?

O primeiro é causar confusão, desorganizar adversários e a sociedade, que estão entendendo que este processo precisa ser parado. O segundo é dar uma resposta a setores da economia, à população e ao presidente da Câmara, o único que pode dar andamento ao impeachment. Bolsonaro tem demonstrado uma capacidade de ação que, em circunstâncias parecidas, o ex-presidente Collor não teve. No entanto, vem perdendo popularidade, tem rejeição grande e está relativamente isolado. Nada disso vai ser alterado por esse movimento, mas ele segue demonstrando capacidade de ação.

Qual é o impacto dos acontecimentos do 7 de Setembro na articulação de impeachment?

Aumenta o número de forças políticas que percebem que o único recurso disponível na Constituição para parar este processo autoritário é o impeachment. Crime de responsabilidade está nítido que foi cometido. No entanto, depende também do presidente da Câmara e de votos no Congresso. Neste momento nenhuma das duas condições são satisfeitas. Até aqui a Câmara mostra conivência implícita com o que está ocorrendo.

Há manifestações convocadas neste domingo por grupos à direita. Representantes próximos ao centro e à esquerda anunciaram presença, mas não o PT. Como o senhor vê a possível união dos espectros políticos distintos?

A frente democrática é possível, necessária e tendo a achar que vai acabar ocorrendo. Já está em curso. Um exemplo é o fato de que, depois de longo tempo, Fernando Henrique Cardoso se encontrou com Lula e declarou voto nele se houver disputa com Bolsonaro. No entanto, a manifestação deste domingo talvez não conte com todas as forças possíveis dada a maneira como foi convocada, em certo momento sob o lema “nem Bolsonaro nem Lula”. Nesses termos, o PT e outros setores da esquerda não podem comparecer. Os dirigentes devem perceber que é preciso compromisso com aquilo que unifica as forças: a defesa da democracia, que no caso específico é o impeachment, eleições com urna eletrônica e respeito ao resultado. Guardadas as bandeiras que unificam, as demais devem ser livres. Só assim poderá haver uma frente ampla em que as pessoas sabem porque estão unificadas e o que as dividirá no momento seguinte, que é o eleitoral.

A união em torno da frente ampla pode ser atropelada pela disputa eleitoral?

A esta altura, considerações de natureza estritamente eleitoral deveriam ficar em segundo plano diante de um processo autoritário que não devemos subestimar. Como essa frente demorou e não está ainda constituída, está se confundindo com a situação eleitoral, o que a atrapalha. É fundamental não cobrar das forças políticas o que fizeram antes, porque estiveram divididas no impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff. Embora historicamente isso tenha de ser discutido, o fato é que agora há um objetivo maior que pode unificar, de defesa da democracia.

O PT e outras forças estão maduras para uma frente democrática?

Acredito que sim. O “superpedido” de impeachment, por exemplo, juntou num mesmo palanque a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e Kim Kataguiri, do Movimento Brasil Livre, um dos pilares do impeachment de Dilma, com respeito e harmonia dentro de forças que são em outros sentidos opostas, mas dispostas a disputar democraticamente e aceitar os resultados. Talvez, neste domingo, ainda não seja possível.

O que falta para essa frente existir de fato?

O que falta é tempo para que isso amadureça e resulte em um grande movimento popular a favor do impeachment e da democracia. O setor que apoia Bolsonaro existe e demonstrou que está disposto a se mobilizar, mas é minoritário; 75% dos brasileiros querem democracia e precisam demonstrar isso em manifestações pacíficas com o tamanho que essa vontade tem. Cabe às forças políticas e movimentos sociais permitirem essa manifestação por meio da sua própria organização.

Seria necessária uma nova etapa de manifestações?

Exatamente. Mas não se pode esperar que seja tão rápida. Esse processo guarda alguma semelhança com a situação das Diretas, muito importante para a história política brasileira, pois ali se deu o exemplo de uma frente que unificou forças antagônicas, porém não foi vitoriosa no Congresso Nacional naquele momento. Por mais que estejamos cada dia mais perto da eleição, dada a excepcionalidade do que está ocorrendo, deve-se continuar insistindo no impeachment.

Que outras ações faltam para que esse processo amadureça?

O PSDB e o PSD se deslocaram a partir do 7 de Setembro. Há outros partidos, como é o caso do Democratas, que poderiam se posicionar a favor do impeachment, para não falar do próprio Progressistas, que hoje é o principal esteio do governo e articula siglas menores que também sustentam o presidente.

O senhor se refere ao Centrão. É possível imaginar uma mudança de postura desse grupo?

Sim. Estão no governo e há grande vantagem nisso, mas fazem cálculos, são pragmáticos. O problema é que esta não é a política normal, como foi da redemocratização até 2014. Acredito na sagacidade da classe política e acho que perceberam que não é normal, mas decidiram agir como se fosse, o que é um risco que nenhuma sociedade democrática deveria correr. O Centrão é uma força importante no Congresso e tem peso histórico, inclusive porque foram essas forças que impediram as Diretas de avançar, não vamos esquecer que o PP veio da Arena. Dada a atuação do ex-presidente Temer, menciono também o MDB, que entrou em cena para fazer aparentar uma normalidade que não existe. São atores importantes agindo em benefício de que este processo continue. Bolsonaro demonstrou capacidade de mobilização, apesar de ser minoritário, o que indica maiores chances de ir ao segundo turno do que se o supuséssemos mais isolado.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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