Conservadores tentam capturar agenda da esquerda

O casebre de João Paulo Maia e Darlene Rosa é um dos primeiros a despontar na estrada de terra que…


O casebre de João Paulo Maia e Darlene Rosa é um dos primeiros a despontar na estrada de terra que se desenrola por 60 quilômetros do centro do município goiano de Cavalcante até o povoado quilombola de São Domingos. Cercados pelas paredes de tijolo de barro e sob o teto de zinco e palha, eles criam Tarles, de 8 anos; Rixon, de 6 anos; e Elismax, que chegou há seis meses. Na cozinha, separada do quarto por um lençol, o fogão trabalha quando há dinheiro para o gás. Um pequeno isopor ajuda a manter o que é possível comprar. Não costuma ser muito.

O almoço quase sempre é arroz, feijão e chuchu. Não há banheiro na casa. A energia elétrica ali ainda não chegou. Falta muito. Mas não sonhos. “É tanta coisa que a gente precisa”, diz João Paulo, que tenta fazer bicos em obras ou no roçado para encorpar a renda do casal, que vive dos R$ 212 que chegam do Bolsa Família. O avô, João Francisco Maia, de 74 anos, mora com a família. “Já tive vontade de sair daqui, mas pensei: é nossa terra natal, temos que gostar”.

No recém-criado Gabinete de Políticas Sociais do governo estadual, técnicos pesquisam o que mais falta às famílias pobres de Goiás e planejam como melhorar a vida delas. O gabinete, que reúne cinco secretarias e a equipe da primeira-dama, foi umas das primeiras iniciativas de Ronaldo Caiado. Liderança do DEM, ele integra um grupo de governantes conservadores que estão dando prioridade a uma causa associada, desde a ascensão do lulismo, a seus adversários do PT: a inclusão social.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL), símbolo da nova direita no País, ainda não tem bandeira clara na área social, mas parece aos poucos entender que tem aí um flanco a proteger. Estreou seu governo batendo na tecla da reforma da Previdência, mas correu para anunciar nas redes sociais a concessão do 13º para os beneficiários do Bolsa Família como uma das metas realizadas de seus cem primeiros dias de governo. O programa, que se tornou a cara do governo Lula e da esquerda, acaba de ganhar impulso da direita que almeja se firmar no poder.

No dia seguinte ao anúncio, o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), compartilhou nas redes sociais um meme com a foto de Bolsonaro usando um chapéu de cangaceiro e tendo atrás o cartão do Bolsa Família contendo o slogan do seu governo: “Pátria Amada Brasil”. “Assim que se faz, presidente. Preocupação real com os mais pobres”, escreveu. O traje típico de Lampião foi muitas vezes usado por Lula.

Bandeira

Para o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, os esforços de políticos fora do campo do PT para se aproximar da população mais pobre refletem ainda a percepção de que, sem essa bandeira, a sustentação no poder será mais difícil. “Com Lula, criou-se a narrativa de que a esquerda é a grande provedora de políticas sociais, o que não é necessariamente verdade. Vimos o ‘rouba, mas faz’ ser substituído pelo ‘rouba, mas distribui renda'”, afirma.

“Os políticos fora da esquerda estão agora voltando ao poder e, para que se mantenham lá, precisam acenar à população de baixa renda, que tinham perdido. Não se convence ninguém a votar em você falando só em responsabilidade fiscal e em choque de gestão”, completa.

Em Goiás, Caiado diz que a assistência social precisa ser uma política de Estado, com projetos coordenados continuamente entre diversas secretarias e sem, ele garante, fanfarra de marketing. “Não queremos criar mais bolsas ou um novo programa. Queremos resolver o problema das famílias mais carentes.” E não faltam famílias carentes em Goiás. Quase meio milhão dos 6,8 milhões de habitantes do Estado vivem em situação de pobreza. Muitos sem luz em casa, como o casal Adir Soares de Souza, de 63 anos, e Clarinda Gonçalves dos Santos, de 60, que também moram em Cavalcante. “A gente fica desacreditando. Estamos todos desconfiados com o sistema político, porque somos enganados”, afirma Souza, que gastou a vida no roçado e acaba de se aposentar.

A estratégia do governo foi examinar não só a renda das famílias goianas. Criou-se o “índice multidimensional de carência”, que leva em conta as condições da casa onde vivem, a escolaridade de pais e filhos e também o quanto ganham por mês. O gabinete de Caiado já sabe, por exemplo, que há no Estado 9.557 domicílios sem banheiro, 25.854 sem água canalizada, 13.678 sem revestimento no piso e 20.073 com crianças fora da escola. O plano agora é traçar a forma mais rápida de melhorar a vida dessas famílias nas dez cidades com os piores indicadores.

Não há previsão de transferir dinheiro às famílias. “Mesmo como alguma renda vinda do Bolsa Família ou de outro programa, há famílias que vivem num ambiente tão impróprio para um ser humano que não têm a mínima capacidade de reagir àquela situação”, explica Caiado.

A metodologia para chegar ao “índice de pobreza multidimensional” é propagada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Por trás dele, há a ideia de que a transferência de renda não é suficiente para resgatar as famílias da pobreza, caracterizada por um conjunto de “privações”. São necessárias, assim, outras ações para que elas possam alcançar a mobilidade social.

Nessa abordagem, a estratégia para aplicar políticas sociais deve atender a critérios técnicos. Onde a situação está pior é onde o Estado deve agir. Reduto lulista, Cavalcante deu 85% de seus cerca de 4 mil votos para presidente a Fernando Haddad (PT) e foi uma das oito cidades em que Caiado perdeu na corrida para o governo goiano no ano passado – ele saiu vitorioso nas outras 238 cidades do Estado.

O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (2004-2010) da gestão Lula, Patrus Ananias diz que essa tentativa dos conservadores até agora se limita a “propostas demagógicas e não a ações específicas”. “Na prática tudo o que fizemos para os mais pobres foi desconstruído”, afirma. “É a mesma coisa com os símbolos nacionais, usam bandeiras, hino, e na verdade estão entregando o País. Então, aguardo as obras. Por enquanto, estão só nas promessas, nas palavras vãs”, critica o petista.

Impulso

A lógica de agir onde a situação é pior vinha sendo buscada pontualmente no País por governos locais, como os do PSDB em Minas Gerais e em São Paulo, e passou a ser estimulada no ano passado pela Câmara dos Deputados. Correligionário de Caiado, o presidente da Casa, Rodrigo Maia, criou uma comissão de estudos para analisar a legislação social do País e propôs a adoção do índice por Estados e municípios. Político fluminense conservador, identificado com pautas econômicas, como a reforma da Previdência, Maia passou a dar ênfase em seus discursos à preocupação social.

“A chamada direita sempre esteve preocupada com a questão social. Este tornou-se um território sagrado de atuação dos governos petistas, mas as iniciativas de governos estaduais e municipais sempre existiram”, diz Rodrigo Garcia (DEM), vice-governador de São Paulo.

À frente da prefeitura de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM) criou o programa Morar Melhor. Assistentes sociais identificam o que falta ao domicílio e produzem, em parceria com os moradores, um laudo com as obras escolhidas até R$ 5 mil. A prefeitura então faz o reboco na parede, por exemplo, ou constrói o banheiro.

Neto tenta resgatar a popularidade junto aos mais pobres que gozavam políticos tradicionais da direita, como seu avô Antônio Carlos Magalhães na Bahia, José Sarney no Maranhão e Paulo Maluf em São Paulo, grupo que expandiu por anos seus domínios nas classes baixas. A ascensão do PT ao poder e o sucesso dos programas de transferência de renda patrocinados por Lula em larga escala permitiram que a esquerda tomasse para si o discurso da preocupação social – e avançasse sobre o eleitorado carente nas periferias e no Nordeste. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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