Novos moradores de Michigan viram esperança democrata para bater Trump


Parece que a principal avenida de Hamtrack, no Estado de Michigan, nem fica nos EUA. O comércio é formado por mercearias com letreiros em árabe e as mulheres usam o véu islâmico. Em uma casa de câmbio, dentro de um café iemenita, trabalha Younes Murshed. Aos 19 anos, ele estuda pediatria e pretende votar pela primeira vez em novembro.

“Prefiro Bernie Sanders, porque gosto do que ele diz sobre a dívida estudantil. Mas, se não gostar do que o candidato do partido me oferecer, fico em casa”, afirma Murshed. A insatisfação com a política anti-imigração do presidente Donald Trump é recorrente em Michigan, onde 7% dos moradores é imigrante.

Michigan tem mais novos eleitores naturalizados do que a diferença de votos que deu a Trump a vitória no Estado, em 2016. Um em cada 12 habitantes tem um parente nascido fora dos EUA. “O jeito como Trump se volta contra árabes e mexicanos é desrespeitoso, porque era muito rico e seu ego era muito grande”, diz o jovem.

Um estudo encomendado pela associação New American Leaders, que apoia imigrantes que concorrem a cargos eletivos, mostra que há 64 mil novos cidadãos naturalizados que garantiram o direito de votar nos últimos quatro anos nos Estados Unidos. Trump derrotou Hillary Clinton no Estado, em 2016, por 11 mil votos.

As primárias em Michigan acontecem na terça-feira. Por ser um Estado-chave, vencido por Trump por tão pouco há quatro anos, se torna crucial para o ex-vice-presidente Joe Biden e para o senador Bernie Sanders.

Até a Superterça, na semana passada, Sanders liderava com folga as pesquisas no Estado. Mas, desde que a onda de vitórias de Biden se espalhou pelo país, Michigan mudou. Na sexta-feira, 37,8% dos eleitores diziam preferir Biden, contra 30,1% que votariam no senador progressista.

As últimas sondagens em Michigan apontam que tanto Biden como Sanders teriam força para vencer Trump – ambos com mais de quatro pontos porcentuais de diferença.

Voto muçulmano
Um mural pintado pelo chileno Dasic Fernández, com o desenho de uma mulher muçulmana e árvores típicas do Iêmen, é o que garante o colorido de Hamtrack em uma tarde nublada.

O painel foi encomendado pela associação local de imigrantes que vivem no sul de Michigan. Uma das doadoras para o projeto foi Rashida Tlaib, a deputada muçulmana eleita pelo Estado que, junto com a estrela jovem do Partido Democrata, Alexandria Ocasio-Cortez, tem participado dos comícios de Sanders.

Trump sabe que o voto dos imigrantes, especialmente de origem muçulmana, será crucial nas eleições. Em janeiro, ele esteve em Warren, nos arredores de Detroit, onde fez um discurso na porta de uma fábrica em que prometeu proteger cristãos iraquianos da deportação. O recado vem depois de a comunidade de iraquianos em Michigan ter sofrido com as ondas de deportação do governo republicano.

Milad é iraquiano e vive em Michigan há dois anos. Antes de mudar para os EUA, há nove anos, morou no Líbano. Ele se diz insatisfeito com o tratamento dado aos imigrantes, mas não pretende votar. Engajar os imigrantes como ele e registrá-los para que possam ir às urnas é um dos desafios das campanhas eleitorais, especialmente dos democratas, que precisam desta parcela do eleitorado.

“Há interesses que controlam o presidente por trás das cortinas”, afirma Milad. A desconfiança não é limitada à política. Depois de mais de uma hora de conversa, ele diz que não quer ver seu sobrenome publicado no Estado.

O principal gargalo dos EUA, segundo ele, é o acesso à saúde. “Na Europa, se você não pode comprar um remédio, o governo te oferece. Mas, nos EUA, eu e um cachorro não temos diferença alguma sem um convênio médico.”

Do outro lado do Estado, a duas horas e meia de Detroit e mais perto do Lago Michigan, a política de Trump contra imigração deixa irritada Lilly Alegria, cujos pais são da Guatemala. “Há várias coisas que ele está fazendo contra os latinos que não são certas”, afirmou.

A população hispânica da cidade de Wyoming, subúrbio de Grand Rapids, no leste de Michigan, mais do que dobrou de 2000 para 2010, segundo o censo americano. Em alguns condados, o total de imigrantes aumentou quatro vezes desde a década de 90, o que reflete os números no restante do país. No mercado latino frequentado por Lilly, em Wyoming, o idioma oficial é o espanhol.

“Desde que se tornou presidente, a primeira coisa que Trump disse foi imigrantes e fronteira. Ele é contra os hispânicos, é racista. Desde que assumiu, brancos se voltaram contra mim em um restaurante. Aconteceu aqui, em Michigan, e em Atlanta, na Geórgia”, conta. Lilly diz que votaria em Sanders, mas aguarda a definição democrata para decidir o que irá fazer. Até agora, ela tem uma certeza: “Trump não terá meu voto”. Para recuperar a Casa Branca, porém, os democratas precisarão mais do que isso. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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