México tem geração de americanos ‘deportados’


Chamada de “os invisíveis” ou “os outros sonhadores”, uma geração única começa a ser formada no México mostrando que o problema migratório com os EUA vai além de um muro. Estudos mostram que os americanos filhos de mexicanos ou casais mistos – americanos e mexicanos – levados para o México mais que dobraram entre 2000 e 2015. Hoje, são quase 600 mil menores de 18 anos nascidos nos EUA.

O número se destaca quando comparado com o total da população de mexicanos nascidos no exterior que vive no país: apenas 1,2 milhão em um universo de 127 milhões de habitantes.

Essa geração de jovens que tem passado por grande desafio de integração à sociedade mexicana é resultado de um retorno em massa que os imigrantes mexicanos experimentaram nos anos anteriores à chegada do presidente Donald Trump ao poder.

Ainda que haja outros fatores, as principais explicações, segundo Claudia Masferrer, professora do Centro de Estudos Demográficos, Urbanos e Ambientais do Colégio de México, são a crise financeira de 2008 nos EUA e o grande número de deportações durante o governo Barack Obama.

Sem emprego, muitas famílias decidiram voltar para seu país. Algumas deixaram seus filhos com parentes nos EUA, mas outras levaram esses americanos que, em muitos casos, nem sequer falavam espanhol.

Claudia explicou, em entrevista ao Estado, que esses jovens têm passado por vários problemas de adaptação. Em muitos casos, sem documentos de identificação mexicano ainda, eles não conseguem ter acesso, por exemplo, às escolas.

Estima-se que eles representem 3% dos estudantes das escolas públicas do México. Segundo a professora, que teve como base os últimos censos para elaborar seu estudo (em parceria com outras duas pesquisadoras), a dificuldade é esclarecer a toda a rede de ensino, incluindo dos lugares mais remotos, a situação dessas crianças. “Essas crianças e jovens estão espalhados por todo o país”, afirma Claudia.

Escola na fronteira

Por esse motivo, grande parte das famílias decidiu viver na região de fronteira entre México e EUA. Assim, os filhos americanos das famílias mexicanas podem continuar frequentando escolas nos EUA, uma realidade que observadores afirmam estar longe da ideal. Em uma reportagem da revista California Sunday Magazine de janeiro, a professora de sociologia do Colegio de la Frontera Norte Maria Dolores Paris Pombo afirmou que são estudantes que não conseguem se adaptar ao México e, ao mesmo tempo, não pertencem aos EUA. “É uma geração que foi deixada no meio”, afirmou ela à revista.

As implicações de se ter famílias e estudantes transnacionais, segundo Cláudia, é apenas mais uma prova de como os dois países estão integrados em diferentes aspectos, não só na economia, mas com suas populações.

E apesar de toda a crise migratória criada na fronteira dos EUA com o México sob o governo Donald Trump – atingindo principalmente imigrantes da América Central -, o problema para os mexicanos foi maior nos anos Obama, segundo ela. Em seus oito anos de governo, Obama deportou 3 milhões de imigrantes mexicanos.

“Trump tem feito muito barulho na mídia, mas Obama deportou um número muito maior de mexicanos. Mais até que os governos passados e não sabemos o por quê”, disse.

Ainda que os números do governo democrata tenham sido muitos maiores, a especialista afirma que hoje o temor de ser deportado nas comunidades de imigrantes é muito maior. “O dia a dia das pessoas mudou demais porque elas sentem que serão deportadas a qualquer momento, mesmo que não estejam presas.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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