Fim de tratados eleva risco de Guerra nuclear, mas medo de conflito diminui


Em 1947, dois anos depois de os EUA lançarem bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, cientistas criaram o Relógio do Juízo Final. Seus ponteiros simbólicos se aproximam da meia-noite sempre que o risco nuclear é iminente. Pela primeira vez desde 1953, quando EUA e União Soviética testaram bombas de hidrogênio destrutivas, o relógio indica que faltam dois minutos para a meia-noite.

Para cientistas e analistas, uma guerra nuclear é cada vez mais provável – e perigosa. Hoje, apenas 9 países possuem as cerca de 14,5 mil armas nucleares da Terra. Isso está abaixo do pico de 70,3 mil em 1986, segundo a Federação de Cientistas Americanos. Mas estudos mostram que o uso de apenas 2 mil armas nucleares emitiria 150 milhões de toneladas de fumaça na atmosfera, o suficiente para a extinção dos seres humanos.

Apesar do cenário sombrio, a preocupação com uma guerra nuclear é muito menor do que a ameaça. Como escreveu o físico nuclear Chapin Boyer no Boletim dos Cientistas Atômicos: “Não consigo me lembrar de uma época em que a ameaça de armas nucleares parecesse real.”

Uma pesquisa do Pew Research Center de 2017 mostrou que uma guerra nuclear preocupava apenas 23% dos americanos de até 30 anos, perdendo para desemprego, recessão e guerra comercial com a China. No início dos anos 80, o movimento antinuclear foi estimulado pela retórica e expansão militar dos EUA. Em junho de 1982, 700 mil pessoas bloquearam o Central Park, em Nova York, pedindo o fim das armas nucleares. A última manifestação do tipo nos EUA reuniu 5 mil pessoas.

“Como a última arma nuclear foi usada contra pessoas em 1945, nos acostumamos a achar que as bombas atômicas continuarão inativas, mas isso não é suficiente”, disse ao Estado Paul Bracken, professor de ciências políticas da Universidade Yale. “Não foi apenas a lógica da dissuasão nuclear que evitou o desastre, mas o estabelecimento e cumprimento dos tratados que controlaram a corrida armamentista. Vemos hoje uma nova corrida armamentista e o fim de acordos que controlaram a proliferação. Essa é uma ameaça real.”

“O risco de uso de armas nucleares é o maior desde a 2.ª Guerra e uma questão urgente que o mundo deveria levar mais a sério”, disse Renata Dwan, diretora do Instituto para Pesquisa de Desarmamento da ONU. “Os arranjos tradicionais de controle de armas também estão sendo corroídos pelo surgimento de novos tipos de guerra e conflitos. Todos os Estados com armas nucleares têm programas de modernização nuclear, o que representa um risco cada vez maior.”

“Se tivesse de apostar que pelo menos uma arma nuclear será usada enquanto eu viver, minha aposta seria que sim”, disse ao Estado Matthew Kroenig, da Universidade Georgetown. “Falar sobre guerra nuclear era como falar sobre dinossauros – algo distante. Essa perspectiva mudou com a profusão de conflitos internacionais e a saída de potências nucleares de tratados que limitam testes e uso.”

Há um ano, o presidente russo, Vladimir Putin, anunciou que seu país estava desenvolvendo armas capazes de atingir qualquer ponto do globo e escapar de um escudo antimíssil dos EUA. Em dezembro, Putin confirmou o bem-sucedido teste de um novo míssil hipersônico que, segundo o Kremlin, é capaz de contornar qualquer sistema de defesa antimíssil.

Em janeiro, o presidente Donald Trump retirou os EUA do Tratado de Proibição de Mísseis Intermediários (INF), assinado com a União Soviética em 1987 e considerado um pilar na prevenção de uma guerra nuclear. Moscou também deixou o pacto, formalmente encerrado em agosto. Hoje, russos e americanos estão em rota de colisão. A Rússia avança para a Europa e invade espaço da Otan. Há até o temor de que Putin possa autorizar a invasão de um país báltico que já foi parte da União Soviética, hoje na Otan. Se isso ocorrer, os EUA estariam obrigados a responder, iniciando um conflito bélico.

Ásia

Além da nova corrida armamentista, há outros temores palpáveis. O potencial conflito nuclear entre EUA e Coreia do Norte preocupa a maioria dos especialistas. Os dois países passaram a maior parte de 2017 ameaçando se bombardear com armas nucleares.

Uma guerra provocada pela Coreia do Norte envolvendo os EUA e países asiáticos poderia ter um desfecho com milhões de mortos, mesmo que Pyongyang usasse poucas ogivas nucleares. Isso porque os EUA teriam de enviar 200 mil soldados para destruir o arsenal de Kim Jong-un. Seul, capital da Coreia do Sul, estaria em ruínas em razão da grande capacidade de artilharia da Coreia do Norte.

Bruce Klingner, um veterano da CIA especialista em Coreia do Norte, escreveu para a Heritage Foundation que o líder norte-coreano não seguiria os passos do iraquiano Saddam Hussein, que permitiu a invasão do Iraque. “Achávamos que a Coreia do Norte usaria armas nucleares apenas como parte de um último suspiro”, escreveu Klingner. “Mas a análise de documentos do país mostra que Kim usaria armas nucleares nos estágios iniciais de um conflito, não nos últimos.”

Índia e Paquistão são outra preocupação. Os dois países entraram em guerra três vezes desde 1947 e ambos são potências nucleares. Preocupações desse tipo levaram muitos a pressionar por um mundo não nuclear.

Beatrice Fihn, líder da Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2017. Ela e sua equipe ajudaram 69 países a adotar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares na ONU, embora nenhuma das nações nucleares tenha assinado o pacto.

Serão necessários 50 países para ratificar o tratado para que ele se torne lei internacional. Até agora, apenas 19 o fizeram. Enquanto Beatrice espera ver outros 31 países ratificarem o tratado, ela acha que já está havendo um efeito. “O tratado vai mudar uma lógica de dissuasão e as expectativas de comportamento”, afirmou em uma entrevista de 2018. “Pressionará os países a não buscar armas nucleares e outras armas de destruição em massa. É como um sinal de não fumar.”

Políticos e teóricos mais realistas discordam dessa visão. Elbridge Colby, ex-subsecretário do Pentágono, escreveu em outubro na revista Foreign Affairs que “os EUA deveriam considerar as armas nucleares como ferramenta-chave para enfrentar os desafios globais apresentados por Rússia e China”.

“Imagine que todos os países democráticos concordassem em acabar com seu arsenal: o que garantiria que algum tirano ou ditador não mantivesse suas ogivas? Se é paz que você quer, prepare-se para a guerra nuclear.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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