Dolarização informal aflige venezuelanos


Caracas, Venezuela, domingo, 10h. Na porta de uma padaria, uma fila de caraquenhos espera a vez na fila do pão. Alguns dos moradores já passaram por outras lojas do bairro de San Bernardino em busca do alimento, mas enfrentam um problema-chave. Os preços deste produto básico, entre outros, estão na prática atrelados ao dólar. Os salários, não.

O chamado pão galego, de farinha de trigo, no formato de baguete, custa 2.800 bolívares, cerca de R$ 1,81. Na Panadería Rosita, onde cerca de 20 consumidores aguardavam na manhã de ontem, e na Vollmer, no bairro vizinho a San Bernardino, o mesmo pão tinha preço igual. “Estou levando para toda a semana”, disse uma venezuelana que saía com uma sacola cheia. “Demora cerca de 5 a 10 minutos na fila, mas se consegue o pão”, emendou um idoso.

Na segunda loja, a fornada já estava acabando, sem hora para a próxima, mas havia outros tipos, de trigo, de milho, e mais sofisticados, como o pão andino, por 3.990 bolívares (R$ 2,62), e o “camaleón”, por 4.350 (R$ 2,86). O salário mínimo na Venezuela esteve em 18 mil bolívares, cerca de R$ 11,81 no câmbio paralelo, até 15 de abril, quando Maduro o aumentou para 40 mil (R$ 26,25).

Na Panadería San Gerardo, no mesmo bairro San Bernardino, um gerente empurrava a faca no consumidor: o “galego” estava por 3.800 (R$ 2,49). A alternativa, no mesmo bairro era comprar a baguete menor por 2.000 (R$ 1,31). “Era 1.800 (R$ 1,18), mas subiu”, explicou a funcionária. A loja estava vazia. Mas ela, divertida, oferecia alternativas: “Quatro para hambúrguer por 5.000 (R$ 3,28). E o fatiado, para sanduíche, 10 mil (R$ 6,56)”.

Para o economista Juan Manuel Suárez, o país está em um acelerado processo de dolarização da economia. “O problema não é o abastecimento”, afirma. “Se você procura pão, encontra. O problema é o preço”, explica. Suárez acaba de fazer um estudo sobre a dolarização venezuelana entre as classes populares. Uma conclusão é que os comerciantes, em razão da crise política e econômica e da desvalorização da moeda, não produzem o tipo de pão regulado, tipo canilla, que deveria ser vendido por 300 bolívares (R$ 0,20) com o máximo de três pães por pessoa.

“Eles usam a farinha para outros pães, agregando tamanho e sabores, por exemplo, e então cobram mais caro”, disse. “Se você observar nas padarias, não há o canilla, que é mais popular e acessível”, afirmou. “A cadeia de abastecimento da Venezuela está muito irregular”, ressaltou.

Em pesquisa recente em Puerto La Cruz, cidade portuária da Venezuela, feita com trabalhadores locais que ganham 8 mil bolívares (R$ 5,25) por semana (32 mil – R$ 21 -, mês), o economista concluiu que a dolarização já ocorre fortemente nas classes trabalhadoras. “Eles já calculam os valores em dólar”, declarou. “O que está passando no país é um fenômeno triste, mas curioso de ser estudado”, prosseguiu.

Para Suárez, o passo seguinte e preocupante é que com essa dolarização crescente, não há como a população se financiar. “Hoje muitos vivem dos dólares enviados dos venezuelanos que foram embora do país e fazem remessas do exterior”, argumentou. O câmbio paralelo, que atinge o preço dos produtos com insumos importados, como a farinha de trigo, e por fim o pão, variou, nesta semana, entre 5.800 (R$ 3,81) e 6.200 (R$ 4,07) bolívares por dólar.

“Isso criou também um outro fenômeno, que é o do ‘rebusque'”, explicou. Ou seja, as pessoas passaram a uma rotina frenética de comprar para vender e, no processo, tentar faturar um ganho extra. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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