Uma revolução fora dos grandes bancos


Na última década, o número de fundos de investimento cresceu 75% no País. A alta, porém, não veio dos grandes bancos e financeiras, que ainda concentram 90% das aplicações dos brasileiros. Executivos da elite do mercado financeiro, que ficaram sem espaço na área ou enxergaram a oportunidade, têm criado gestoras e ficado à frente de um novo mercado de trabalho. Ele só se tornou possível graças à combinação de evolução tecnológica com os menores juros básicos da história.

De um lado, tornou-se mais difícil para o investidor conseguir a rentabilidade com a qual estava acostumado há até poucos anos, colocando dinheiro em aplicações como na poupança, fundos DI ou títulos do governo. Isso porque os papéis públicos são remunerados pelas taxas básicas de juros, que estão na casa de um dígito desde julho de 2017. De outro lado, plataformas de investimento – como XP, Órama, BTG Digital, Modalmais, Genial, entre outras – tornaram possível que pessoas com menor capacidade de poupança tivessem acesso a fundos mais rentáveis.

Com o aumento da base de clientes, surgiu um novo campo de trabalho para esses profissionais, treinados por anos nas operações mais sofisticadas do mercado financeiro. A transformação aconteceu em um momento crítico. Alguns haviam se tornado profissionais caros em bancos e corretoras, que enxugaram estruturas durante a crise. Outros enxergaram oportunidade de atender aos investidores emergentes. Em comum, todos carregavam consigo o patrimônio financeiro e contatos acumulados ao longo dos anos.

“As profissões vão se adequando à demanda de mercado e à mudança de tecnologia”, diz Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper. “Mas com o País convergindo já há alguns anos para um cenário de juros mais baixos, o que fez diferença foi a demanda do investidor, que, para ganhar um pouco mais, passou a precisar de ajuda profissional.”

É o cenário que muitos gestores relatam ter visto há décadas nos EUA, onde vários trabalharam e estudaram. Por aqui, porém, as plataformas perceberam duas carências a serem supridas. Uma era o número restrito de fundos em suas prateleiras. Outra, a falta de educação financeira dos consumidores.

Pioneira e líder em participação de mercado entre as plataformas, a XP estimula ativamente a criação de fundos e gestoras. “A empresa foi se transformando ao longo do tempo e teve uma grande sacada de trazer fundos para a plataforma. Nenhuma corretora fazia isso”, diz Samuel Oliveira, chefe da plataforma de fundos da XP Investimentos. “É nossa espinha dorsal.” Hoje, dos R$ 250 bilhões sob custódia na XP, mais de R$ 80 bilhões são referentes a fundos.

“Foi um movimento de incentivar e dar a mão para profissionais criarem novas gestoras”, diz Oliveira. “Eles tinham a experiência de bancos, networking, histórico de ganhar dinheiro e começamos a ‘provocá-los’, falando sobre a escassez de bons produtos e a quantidade de dinheiro parado, atrás de oportunidades.”

O mesmo esforço foi feito na parte de renda fixa, buscando ativamente que empresas lançassem dívidas para se financiar, por exemplo, para levar os papéis ao mercado.

Foi assim que produtos inéditos no mercado, como fundos internacionais, de debêntures incentivadas, impacto social e criptomoedas, entre outros, chegaram aos investidores.

Ao mesmo tempo, os agentes autônomos, que fazem a ponta entre as plataformas e os fundos foram ganhando espaço e criando outro mercado. O Expert XP, por exemplo, se tornou o maior evento de investimentos do mundo, segundo a plataforma, e deve reunir 30 mil interessados em julho.

Tamanho crescimento tem levantado preocupação das entidades do setor. “Vivemos um ciclo virtuoso, com aumento de concorrência, informação e transparência”, diz Carlos André, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). “No momento, estamos tentando entender o que fazer, do ponto de vista da autorregulação, para garantir que esse crescimento se dê de forma saudável e sustentável.”

Com a multiplicação da oferta, também surgiu o desafio de ajudar o consumidor a escolher. Com 504 mil clientes ativos, dos quais 75% com menos de 35 anos de idade, a plataforma Modalmais teve de aprender a conversar com esse público, que pode escolher entre 257 fundos de 125 gestoras. “Nossa experiência tem mostrado que esse investidor toma a decisão por si mesmo e investe bastante tempo para entender suas opções”, diz Ronaldo Guimarães, sócio do Modalmais. Só no canal no Youtube, a marca tem 180 mil inscritos. Algumas transmissões ao vivo chegam a ter 2 mil visualizações simultâneas.

Histórico de sucesso é cartão de visitas

As histórias dos profissionais por trás das gestoras criadas nos últimos anos são mais ou menos parecidas. Foram educados nas mais disputadas escolas no País e no exterior e ocuparam posições de destaque na elite do mercado financeiro, muitos com passagens internacionais. Juntaram-se com amigos e levaram adiante a vontade de construir e ganhar dinheiro de verdade. A maior parte tem entre 40 e 50 anos.

Mesmo com tanto em comum, os recursos sob suas mãos variam de poucas dezenas de milhões a muitas dezenas de bilhões de reais. Além do tempo de existência e da origem dos recursos da gestora, o que conta para entrar no time dos grandes, em tempos de pulverização dos investidores, é o histórico dos gestores e da rentabilidade.

Com seu primeiro fundo lançado em 2016, por exemplo, o Adam Capital tem 60 mil clientes e R$ 26,5 bilhões de ativos sob gestão. Motivo: desde que foi lançado, os fundos já renderam 146% do CDI, a taxa de referência do mercado.

Além disso, os sócios Márcio Appel e André Salgado têm um histórico bem sucedido em suas vidas pregressas em bancos. Os dois trabalharam juntos no Santander, mas foi no Safra em que tiveram a oportunidade de montar um fundo de alta rentabilidade e maior risco, mesmo num ambiente de inflação alta.

A estratégia de investimento foi baseada em tendências estruturais de longo prazo, com instrumentos financeiros montados de forma a reduzir as oscilações de curto prazo. Quando os dois saíram para criar a Adam, o fundo tinha perto de R$ 15 bilhões em ativos.

“Era uma história razoavelmente única e não íamos inventar moda, mas fazer a mesma coisa, só que de maneira independente”, diz Salgado, de 45 anos. “Tínhamos o reconhecimento do mercado como geradores de resultados, o conforto de patrimônio pessoal para tomar risco e a mudança na forma de distribuição de fundos independentes no Brasil.”

Aposta no crédito privado

Como regra geral, as plataformas digitais só colocam em suas prateleiras fundos que existam há pelo menos seis meses ou que tenham patrimônio superior a R$ 50 milhões. Os produtos da recém-criada Journey Capital começaram a ser negociados quando a gestora tinha quatro meses de existência e R$ 10 milhões sob gestão. Hoje, recebem cerca de mil clientes novos por semana.

Além de os sócios Ricardo Bicudo, Rogê Rosolini, Fabiano Saragiotto e Marcelo Lara serem bastante conhecidos do mercado, eles montaram a gestora com um produto de alta demanda: fundos de debêntures incentivadas. Neles, o investidor empresta dinheiro para um projeto de infraestrutura e, no prazo combinado, recebe de volta, com juros – o investimento é isento da cobrança de Imposto de Renda. “Por conta da nossa experiência, fazia sentido trabalhar com crédito privado, área que tem muito a crescer”, diz Rosolini.

Eles se dizem fascinados com a nova fase. “É um momento de transformação”, afirma Bicudo. “Os grandes bancos, que davam status e salários altos, ficaram burocráticos. Abriu-se a chance de participar efetivamente dessa mudança estrutural no mercado de crédito.” /C.B.

Caminho para ativos globais

Aprova de que a oferta ao investidor tem ficado mais rica vem de gestoras como a Geo Capital, cujos fundos são compostos por ativos globais, de empresas como Google, Tag Heuer, Mont Blanc, Ferrari e Walt Disney, entre outras. Há opções com e sem o risco cambial, dependendo do apetite do investidor.

“A Geo nasceu da vontade de termos, para nossos próprios recursos, uma forma de investir em ações não brasileiras”, afirma Gustavo Aranha, presidente da Geo Capital. “O investidor brasileiro é 100% focado em ativos nacionais e diversificam em retorno, mas não em risco. Carteiras sem papéis de outros países são incompletas.”

Em 2015, quando abriu os primeiros fundos para captação, tinha R$ 100 milhões sob gestão. Hoje, tem perto de R$ 800 milhões. Ao contrário das concorrentes, porém, precisou montar um time robusto de vendas porque a diversificação geográfica está longe de ser uma regra para assessores e plataformas.

Nascida sob as novas tecnologias, como os competidores, tem investido em ferramentas de análises de dados de larga escala. “Controlamos todo processo de investimento, mas há algoritmos que analisam os dados abundantes disponíveis de maneira mais eficiente”, diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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