Novatos na Bolsa passam por teste de estresse com derretimento do mercado


O advogado Walter Vechiato sempre guardou parte do salário para a aposentadoria. Conservador, gostava da caderneta de poupança, dos tradicionais CDBs oferecidos pelos bancos grandes e, de vez em quando, arriscava-se em uma Letra de Crédito Imobiliário (LCI), produto isento de Imposto de Renda. Mas, nos últimos tempos, ele passou a se interessar pelo risco.

A taxa básica de juros (Selic), que baliza os retornos das aplicações de renda fixa, começou a cair a níveis antes inimagináveis, e no instante em que ele percebeu que o seu dinheiro estava rendendo menos, passou a prestar atenção na rentabilidade do lado mais “agressivo” do mercado financeiro, o da renda variável. “Fiz alguns cursos presenciais, que os bancos me ofereceram, e comprei minhas primeiras ações em novembro do ano passado”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo. “Sabia que era um investimento de risco, de longo prazo, mas ninguém poderia imaginar que hoje estaríamos vivendo a crise que estamos vivendo.”

Vechiato ingressou no mercado de ações numa fase em que o interesse pelo tema cresceu muito. Uma combinação de três fatores – a taxa de juros na mínima histórica, a expectativa com o crescimento da economia brasileira e o esforço dos bancos e corretoras para atrair clientes para opções além da velha poupança – fez com que, em abril de 2019, a B3 (a Bolsa paulista) atingisse o primeiro milhão de CPFs cadastrados. Dez meses depois, a Bolsa tinha mais 945 mil novos aplicadores, somando quase 2 milhões de CPFs. O investidor pessoa física vinha sendo o principal responsável pela valorização do Ibovespa, que em 2019 acumulou alta de 31,58%, até encostar em históricos 120 mil pontos antes do carnaval.

Da Quarta-feira de Cinzas para cá, a história é conhecida: a escalada da pandemia do coronavírus, que paralisa a economia, provocou uma sucessão de circuit breakers na Bolsa (mecanismo que interrompe as negociações no mercado para impedir quedas muito bruscas). Nas últimas duas semanas, houve perda de R$ 1,16 trilhão em valor de mercado das 354 empresas com ações listadas no País. “Eu confesso que fiquei assustado, pensei em tirar todo o dinheiro e sair da Bolsa, mas mudei de ideia. As coisas precisam melhorar”, afirma Vechiato, que disse que agora, acredita ter “estômago para volatilidade”.

Mas nem todos têm esse estômago. O professor Gerson Amorim, por exemplo, percebeu que sofre mais. No fim de fevereiro, ele não resistiu e liquidou metade dos R$ 450 mil que estavam em ações. “Depois eu me arrependi, mas perdi quase R$ 100 mil. A outra parte ficou lá e está encolhendo.”

Para a professora de finanças comportamentais da FIA, Paula Sauer, essa é a pior decisão de um investidor. Mas é a mais comum. “É um clássico do efeito manada: corre primeiro e pergunta depois”, diz. Segundo ela, com interesse maior em torno da Bolsa, boa parte dos novos aplicadores que ingressaram não sabia o que estava fazendo.

Em Santos, o casal de aposentados Cesar e Sandra Buosi estava, de fato, otimista. Eles sempre gostaram de diversificar, mas dentro da renda fixa. De repente, começaram a testar as ações. “Eu estava com tempo mais livre e a gente foi comprando mais na renda variável”, afirma Sandra, que agora não tem mais nenhum centavo em ações. “Quando as ações começaram a cair na Quarta-feira de Cinzas, eu falei, chega, vou voltar para o CDB”, diz Cesar.

Liquidez

Para o especialista em planejamento financeiro José Raymundo de Faria Júnior, o casal Buosi, apesar de ter perdido um pouco do patrimônio, tomou a decisão certa, na hora certa. “Naquele momento, a Bolsa ainda não tinha caído tanto”, diz. Para ele, o cenário é difícil para os investimentos. Ele ainda recomenda aportes em renda fixa de longo prazo, por achar que a curva de juros pode subir daqui a pouco, e não considera que a Bolsa chegou ao fundo do poço – ela pode descer para 53 mil pontos, diz. “O lugar do dinheiro novo é parado, num (título) de Tesouro Selic, esperando para ver o que acontece. O futuro é muito incerto.”

Temor

Em entrevista ao Estado, Paula Sauer, professora em finanças comportamentais da FIA, falou sobre o temor de novos investidores em renda variável diante da crise provocada pelo novo coronavírus.

Os investidores vão fugir da Bolsa?

Sim, a emoção se sobrepõe e muitos investidores se desesperam, não toleram o prejuízo momentâneo, porque absolutamente não pensavam que fosse possível (perder dinheiro). Depois de uma crise assim, parte dos investidores sai com pavor do mercado de renda variável e vai tentar recuperar a perda nas aplicações de renda fixa.

As pessoas que compraram ações sabiam o que estavam fazendo?

A maioria delas não, outras achavam que sabiam.

Não é fácil falar agora?

O brasileiro é um otimista, e acha que na sua vez nada de mal pode lhe acontecer, maximiza as chances de ganho e minimiza, faz vista grossa para os riscos. Pensa que no final tudo vai dar certo.

Passada essa crise, eles voltarão para a renda variável?

Alguns podem voltar quando a Bolsa subir novamente. Mas uma grande parte, não. Muitos vão ficar com a sensação de perda e isso pesa, independentemente da lógica, dos preços e da oportunidade.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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