‘Falta pensar o país no longo prazo’, diz presidente da Totvs


Um dos principais empresários de tecnologia da informação do País, o presidente do conselho da Totvs, Laércio Cosentino, atua no setor desde os anos 1980, quando fundou a Microsiga. O empresário, que deixou o dia a dia da Totvs para se dedicar a investimentos de seu family office e a comandar o conselho de administração da companhia, afirma que o País precisa de uma união apartidária para fazer as reformas necessárias e retomar o caminho do crescimento econômico. A Previdência, diz, será só o primeiro passo.

“O Brasil cresce um pouco e depois cai”, afirmou Cosentino, porque faltam políticas públicas que atendam objetivos além do horizonte da próxima eleição. “Está faltando pensar o País no médio e longo prazos”, disse. “Não é uma questão (a ser encarada) pelo partido A ou B, é uma questão de todo o poder público.”

Cosentino também discutiu sobre a falta de mão de obra para o setor de tecnologia enquanto há 13 milhões de desempregados. Ele defendeu medidas emergenciais para treinar parte desse contingente de profissionais para funções de TI. No entanto, lembrou que toda a educação precisa ser repensada, a partir da base, para endereçar as transformações tecnológicas que afetarão o mercado de trabalho nas próximas décadas.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual é a sua visão das reformas econômicas e por que elas são importantes?

Foi feita uma escolha da sociedade de mudar a forma como o País estava sendo conduzido. Mas agora existe a responsabilidade de fazer com que essas mudanças aconteçam. Essas mudanças virão pelas reformas. Se compararmos o Brasil com países que são nossos concorrentes, como China ou Coreia do Sul, eles fizeram um plano de país que foi executado. O Brasil cresce um pouco e depois cai. Eu venho defendendo a reforma sem partido. Não é do Jair Bolsonaro ou do Paulo Guedes, é do País. Deveria existir uma trégua para fazer o que tem de ser feito. E vamos sair todos na foto, juntos, após a aprovação.

O ano começou com euforia, com a Bolsa subindo. Agora, as previsões caíram bastante. A reforma da Previdência pode mudar o quadro?

Acho que sim. São várias as reformas que precisam passar, como a previdenciária, a trabalhista, a judiciária. Acho que (a Previdência) é quase um ícone para mostrar que nós somos capazes de fazer algo pensando no futuro do Brasil. Quando você olha o imediatismo com o qual as coisas foram tratadas nos últimos anos, em que um dia se onerava e, no outro, se desonerava, tudo era sempre pensando na próxima eleição. Precisamos de um consenso sobre o que o País precisa, de um plano estruturado e independente dos governos. Está faltando pensar o País no médio e longo prazos. Não é uma questão de partido A ou B, é uma questão de todo o poder público.

É preciso evitar benesses a setores específicos e criar uma mesma regra para todos?

Acho importante. O Brasil precisa ser competitivo como um todo, tem de ter um bom ambiente para negócios, analisando os setores em que é mais competitivo. Quanto mais previsibilidade nós tivermos na condução dos seus negócios, mais investimentos virão. Hoje a gente compete para o mundo. Sem um bom ambiente de negócios, dificilmente vamos atrair capital. Pensando na Previdência: por que alguém colocaria dinheiro aqui vendo que, se nada for feito, em duas décadas o governo não vai conseguir pagar (a dívida que ele mesmo emitiu)?

Mas há alguns paradoxos no País. Em um cenário de desemprego de 13%, falta mão de obra no setor de tecnologia. Como resolver esse tipo de situação?

Cada vez mais, o governo deveria se preocupar em investir em saúde, economia e, em particular, educação. As universidades hoje formam 46 mil pessoas no setor de tecnologia, enquanto as empresas precisam de 70 mil por ano. Você tem entre 120 mil e 130 mil vagas que hoje não dão “match” (e, por isso, não são preenchidas). Então, é necessário que formemos pessoas para aquilo que o Brasil precisa. Hoje a tecnologia está em tudo o que se faz. Para (aproveitar esse momento), são necessárias pessoas com uma tendência de exatas em número maior do que temos atualmente.

Mas é possível fazer essa mudança com o carro andando? Como funcionaria na prática?

Uma coisa é o imediato. Há uma demanda de mão de obra qualificada e não há profissionais treinados. Então, é preciso tomar uma atitude e ver quantos desses 13 milhões de desempregados podem ser treinados para inserir no mercado de trabalho. E, depois, tendo um plano de País, é preciso antever qual será a mão de obra necessária daqui a cinco, dez anos. E aí é necessário voltar à escola básica. Se a pessoa sai da escola sem ler direito e sem conhecer matemática básica, dá para endireitar lá na frente?

Em sua opinião, faltam diagnósticos mais claros sobre os principais desafios do Brasil?

Acho que até há diagnóstico. Quando você pega a média gerencia, conversa com os analistas de todos os ministérios, há pessoas excelentes. Eles vão te falar tudo o que precisa ser feito. Só o que entre o que deve ser feito e a execução há uma coisa chamada política, na qual estão inseridos partidos e ideologias. Falta alinhamento de visões para um plano maior, de nação.

Uma vez que se consiga estabelecer esse alinhamento político, podemos voltar a crescer?

A aprovação da reforma da Previdência vai provar que nós somos capazes de evitar que o trem se choque contra a parede. É uma questão matemática: em breve você vai ter dois brasileiros trabalhando para pagar um aposentado. A conta não fecha, o diagnóstico está feito. Mas temos de agir. Como alguém vai investir aqui, seja brasileiro ou estrangeiro, se a sociedade não é capaz de consertar aquilo que está na cara que deve ser feito?

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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