Monitoramento da Amazônia pelo Inpe é o melhor do mundo, diz especialista


O sistema de monitoramento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) não é só um produto único para fiscalizar a floresta. Trata-se da melhor ferramenta disponível para esse tipo de atividade no mundo e já inspirou a criação de sistemas similares em outros países. Essa é a avaliação de Gilberto Câmara, diretor do secretariado do Grupo de Observações da Terra (GEO) e chefe do Inpe de 2006 a 2013, órgão que tem sido alvo de críticas do governo Jair Bolsonaro.

Vinculado às Nações Unidas, o órgão é a principal instituição internacional para monitoramento e observação da Terra. Câmara é membro sênior da Association for Computing Machinery (ACM), doutor honoris causa pela Universidade de Muenster (Alemanha) e cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito da França. Já orientou 31 mestrados e 23 doutorados. Em 2012, recebeu o Global Citizen Award da Global Spatial Data Infrastructure Association o Pecora Award, da Nasa.

Câmara participou da criação do sistema Deter, a plataforma do Inpe de informações que emite os alertas sobre desmate na Amazônia. Para o pesquisador, a crise deflagrada pelo governo Bolsonaro em relação aos dados de desmate gerados pelo Inpe tem colocado não só a instituição pública em xeque, mas toda a credibilidade da ciência nacional e a imagem do próprio País, que pode passar a ser visto como manipulador de informações que, tratadas com total transparência nas últimas décadas. O Estado de S. Paulo mostrou em julho que os alertados do Inpe indicaram alta de 40% no desmate da Amazônia entre agosto de 2018 e julho deste ano. A gestão Bolsonaro tem afirmado que esses dados são “exagerados” e “manipulados”.

O sistema de detecção de desmate do Inpe tem problemas, como diz o governo? É uma tecnologia limitada, de baixa qualidade?

Deter é o melhor sistema para esse tipo de atividade em todo o mundo. O problema é que querem fazer discussão de coisas distintas. O Deter é um sistema que utiliza imagens de satélites e, por meio de uma metodologia, produz informação sobre o desmate, orientando as campanhas (fiscalizações em campo). Isso não pode ser comparado com um simples conjunto de imagens de satélite, como querem fazer. Criaram uma dicotomia entre um sistema e grupo de imagens. São coisas absolutamente diferentes. O sistema brasileiro é o melhor que temos hoje e, mais importante ainda, é suficiente para fazer o trabalho a que se propõe.

O governo falar em adquirir sistemas mais modernos e já testa produtos privados. Como o senhor avalia isso?

Hoje não há sistema no mundo que possa se equiparar ao Deter. Temos sistemas similares, mas com resolução de imagem menor e interpretação automatizada dos dados. Esses sistemas não mostram, por exemplo, quanto da floresta foi desmatada em cada município, em cada terra indígena ou área de proteção ambiental. Fora isso, o que existem são imagens de alta resolução, mas sem inteligência. Portanto, o Deter não tem paralelo no mundo e isso é reconhecido pelos órgãos internacionais.

O sistema poderia ser aprimorado pelo Inpe?

Como qualquer outro sistema, pode e deve evoluir. Desde que começou a ser usado, de 2005 para cá, a captação do Deter passou a ser 20 vezes superior, com uma precisão bem mais detalhada. É possível melhorar o Deter? Claro. Sem isso, o Brasil deixa de ter uma estratégia de combate ao desmatamento? Não. O melhor da ciência mundial e brasileira hoje converge para o fato de que não há dúvidas de que os resultados do Inpe são confiáveis. O que há de concreto é que o desmatamento na Amazônia está aumentando. A situação está se degradando e isso é óbvio. Os dados do Deter permitem afirmar, sem sombra de dúvidas, que há um recrudescimento no desmatamento da Amazônia, e onde isso está ocorrendo.

É necessário adquirir um produto paralelo para operar com o sistema do Inpe?

Em princípio, não tem de errado na possibilidade de o Ibama utilizar imagens do sistema de microssatélites Planet (produto privado que já é testado gratuitamente pelo órgão) para confirmar os alertas do Deter. Mas a verdade é que esse mapeamento já é feito hoje pelo MapBiomas (projeto colaborativo de mapeamento que reúne especialistas pesquisadores de universidades, institutos e organizações). Se o governo usasse esse sistema, não precisaria comprar outro produto. Agora, se a ideia for substituir o Deter, vão ter de criar um sistema novo que não existe hoje no mundo. E isso é absolutamente desnecessário e contraproducente. Não há necessidade racional. A ciência brasileira não precisa de confrontação falsa entre um sistema que está operando e novas imagens.

Como avalia a repercussão dos ataques aos dados informados pelo Inpe?

O que vemos hoje em relação ao Inpe é o mesmo tipo de prática que assistimos quando alguns países discordam do aquecimento global. Setores internacionais que patrocinam políticas contra as evidências do aquecimento, como a indústria do petróleo, sabem há décadas que o uso de petróleo causa mudança climática. Da mesma forma, a indústria do tabaco sabia, desde os anos 1950, que cigarro causa câncer. O fato de esses setores contrários saberem qual é o consenso científico e a explicação mais plausível para o aquecimento, por exemplo, faz com que fujam o tempo todo do debate aberto e racional. A intenção é desqualificar e derrubar os dados, sem oferecer nada no lugar.

O governo já sinalizou que pretende controlar a divulgação de informações do Inpe sobre o desmatamento. Como o senhor avalia isso?

Há uma estratégia de se negar o debate, só que essa estratégia é perdedora, não tem como ganhar. Amordaçar o Inpe é uma atitude contrária a todas as leis e regras que temos no País sobre a transparência do exercício público.

O governo sinalizou que pode fechar os dados públicos do Inpe a qualquer momento.

E o Ministério Público também pode sinalizar, a qualquer momento, que entrará com ação de improbidade administrativa contra um diretor do Inpe, porque ele violou a lei. Além disso, quais seriam as consequências de se fechar esses dados? A comunidade europeia passaria a acreditar que o desmatamento, agora, está sob controle? A população acreditaria nessas informações? Em 2008, também questionaram os dados do desmatamento do Inpe, mas depois deixaram que o trabalho prosseguisse porque viram que estavam corretos. Tanto naquela época, quanto hoje, o que está em jogo é a credibilidade do Brasil, e não do Inpe, em fornecer informações sobre uma parte da natureza que nos cabe cuidar. O Brasil já mostrou que não precisa desmatar a Amazônia para crescer. Nos últimos anos, diminuímos o desmatamento, enquanto dobramos a produção agrícola.

O Inpe pode perder o protagonismo neste tipo de monitoramento?

São 30 anos de trabalho do Inpe apresentando resultados, informações, dando acesso à comunidade científica internacional. Tem mil artigos científicos publicados que tomam os dados do Inpe como elemento de sua análise. A história mostra que essa credibilidade se constrói muito lentamente, mas também se destrói, como toda boa porcelana, muito rapidamente. Depois, não tem como emendar.

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