Mais conectadas, as praias ganham de aplicativos a cenários ‘instagramáveis’


O casal mergulha no mar, a família ouve música, a mãe ajuda o filho a se equilibrar na boia e a garota confere o visual. Em comum, todas as situações envolviam o uso de celular. E mais: embora tenham ocorrido em Maresias, litoral norte paulista, são comuns em outras praias.

Como no meio urbano, o uso constante do celular também mudou o comportamento na praia. E, de olho nessa demanda, prefeituras e empresários locais têm investido em recursos para quem vive conectado, como internet Wi-Fi, tomadas para recarga de eletrônicos, aplicativos e cenários “instagramáveis”. As novidades são voltadas para atender não apenas a beira-mar, mas também para entreter durante a noite.

Um exemplo são os 85 bancos com tomadas USB distribuídos em dois quilômetros do calçadão da nova Ponta da Praia de Santos, inaugurada em dezembro. Outro caso são os letreiros instalados por prefeituras de São Sebastião, Guarujá, Ilhabela e Ubatuba, inspirados em cidades turísticas estrangeiras e também do litoral nordestino, como Natal e Canoa Quebrada.

Sem fio

Nos últimos anos, quiosques na areia também aumentaram o investimento em internet sem fio. “A maior parte (dos clientes) pede a senha do wi-fi assim que chega, às vezes antes de pedir a comida. Alguns até deixam a comida esfriando para ficar no celular”, comenta o garçom Fernando da Silva, de 22 anos, que trabalha em Maresias. “Tiram foto de tudo, da praia, de si, da comida.”

Uma barraca de banana boat da mesma praia, localizada em São Sebastião, fez uma parceria com um fotógrafo profissional para registrar imagens de clientes. “Ele tira debaixo d’água, em cima, de tudo que é lado. E já manda na hora, para compartilhar pelo WhatsApp”, explica Rafael Pinheiro Bueno, de 39 anos, um dos sócios do espaço.

A auxiliar de financeiro Camila Aguiar, de 21 anos, foi procurar o serviço. “Queria a foto porque nunca andei de banana boat antes”, justifica. “Uso o celular bastante na praia, para conferir os pagamentos do cartão, para fazer fotos, redes sociais.”

Também em Maresias, empresários apoiaram a pintura de grafites em muros de uma viela próxima da praia para criar o “Beco da Mulher Maravilha”, em 2018. O espaço é inspirado no paulistano Beco do Batman.

Debaixo d’água

O estudante David Marques, de 19 anos, chegou a entrar no mar com o celular para tirar fotos de parentes no primeiro dia do ano, em Maresias. “A família pediu para eu tirar de mais perto. Dá um pouco de medo pelo prejuízo de derrubar na água”, diz.

Para prevenir “acidentes”, muitos banhistas aderem a bolsas plásticas que isolam o aparelho. “Procuram muito, todo mundo, jovens, pessoas mais velhas”, comenta o vendedor ambulante Carlito André Souza, de 19 anos. De Minas, ele vende esse tipo de produto na praia há dois anos. Na areia, costuma custar de R$ 10 a R$ 35.

Alessandro da Cruz, de 39 anos, adquiriu a bolsa impermeável assim que chegou à praia. “Comprei para tirar foto e fazer vídeos debaixo d’água, ficou legal. Vamos depois postar no Face(book) e mandar no WhatsApp também.”

Celular muda comportamento

Se o uso intenso do celular é evidente à beira-mar, ele fica ainda mais claro ao acompanhar as postagens nas redes sociais. No Instagram, por exemplo, somente as hashtags #ubatuba, #ilhabela e #guaruja tem mais de 1 milhão de postagens cada uma na rede social, número que aumenta quando se adicionam outros tipos de marcação.

No 1.º de janeiro, em Maresias, o Estado conversou com algumas dezenas de banhistas que utilizam o celular na praia para diversas funcionalidades. Todos diziam não serem “reféns” dos eletrônicos, embora não resistam a utilizar os aparelhos à beira-mar, mesmo que de forma moderada.

Uma das cenas mais comuns foi a de casais e de amigos fazendo retratos e selfies com o mar ao fundo. A publicitária Giovana Torres, de 23 anos, por exemplo, era uma: posava para o noivo em diferentes ângulos, enquanto utilizava um grande chapéu de palha.

Ele – o programador Robson Macario, de 29 anos – até comenta que já virou quase um “pau de selfie humano”. “O noivo também vira um pouco fotógrafo. Se estiver no pacote, não vira noivo”, brinca Giovana.

Já o empresário Simão Assadurian, de 40 anos, costuma resolver pendências profissionais pelo celular até na areia. “Acabo tirando foto deles, da família, e fico trabalhando pelo WhatsApp. De vez em quando também falo com um amigo.”

Perto dele, a reportagem conversou com uma família, cujo casal de namorados utilizava dois celulares cada. “Um é mais para redes sociais e fazer fotos, outro é mais para ligação”, explica Erica Rainier, de 21 anos. “A gente não chega a exagerar no uso (no celular), mas o carregador a gente nunca esquece”, completa o namorado, o motociclista Thiago Caldas, de 33 anos.

A técnica de Meio Ambiente Ducimara Carvalho, de 31 anos, utilizava o celular sentada na areia. “Facilita para chegar com o aplicativo de GPS, para colocar música e para registrar mesmo. A gente tira foto, mas não fica refém. A gente posta mais quando chega em casa”, alega. “Mas, quando fica muito boa, a gente não resiste”, ri.

“A gente usa para tirar fotos, adicionar pessoas que conhece. Estamos aqui todos os dias, no mesmo lugar, então a gente faz muita amizade”, comenta a engenheira de produção Jade Costa, de 27 anos, que utilizava o celular para passar protetor solar e estava com três amigas.

Diferenças

A fisioterapeuta Camile Trindade, de 30 anos, acredita que a situação era diferente antes da popularização dos smartphones. Até o hábito de levar livros para a praia mudou, pois agora lê pelo celular. “(Dez anos atrás) a gente acabava tirando menos foto (que hoje), tinha de esperar até chegar em casa para descarregar no computador e só depois postar”, comenta. “Hoje você tira a foto, edita, põe filtro, corta na hora”, completa a especialista em marketing Nathasha Dias, de 28 anos.

Já a representante de vendas Rosana da Silva, de 30 anos, considera que o convívio social era mais intenso quando não havia smartphones. “Era melhor, as pessoas se entrosavam mais, conversavam mais. Agora fica cada um no celular. Anteriormente, acho que eram mais felizes. A rede social não é realidade. Mas não deixa de ser um benefício.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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