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Cotidiano

Defendida por Bolsonaro, vacina brasileira ainda precisa de verba, diz Pontes

Por Agência Estado

26 jan 2021 às 12:17 • Última atualização 26 jan 2021 às 14:05

Apontado pelo presidente Jair Bolsonaro como “um cara diferenciado”, o ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia e Inovações, foi encarregado ainda em 2020 de desenvolver uma vacina brasileira contra a covid-19. Com a ajuda de um time de cientistas reunidos na “Rede Vírus MCTI”, ele afirma em entrevista ao Estadão que 15 protocolos foram criados desde então e três modelos estariam ‘a ponto de bala’ para entrarem na fase clínica de testes, em voluntários humanos. O que falta para esses projetos avançarem, entretanto, é uma verba de aproximadamente R$ 390 milhões.

As três vacinas em estágio mais avançado, de acordo com Pontes, são produzidas em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com a Universidade de São Paulo (USP). Com tecnologias diferentes, elas ainda estão prestes a iniciarem os testes da fase 3 (em humanos), e a previsão do ministro é que estejam disponíveis no último trimestre deste ano, caso consiga o dinheiro necessário.

No momento, ele afirma que tenta conseguir essa verba por leis de incentivo, pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) ou até pela iniciativa privada. Pontes também defende as bolsas do CNPq, agência de fomento que dá auxílios de pesquisa, diz que “briga” para não cortar o apoio à pesquisa científica no País e afirma que uma vacina brasileira é “obrigatória”. “Funciono aqui como se fosse um míssil. Você não precisa direcionar o tempo todo, mas dispara e coloca o objetivo que eu vou chegar lá.” Leia a entrevista completa:

Quando foi feito o pedido de uma vacina brasileira? E como vocês têm desenvolvido isso nos últimos meses?

Essas vacinas brasileiras entraram na estratégia do MCTI ainda no ano passado. Em fevereiro, antes de a pandemia acelerar no País, montamos um comitê permanente de cientistas e pesquisadores, divididos em grupos que chamamos de Rede Vírus MCTI. Essa não vai ser a nossa última pandemia, temos 100% de chances de outras pandemias e piores que essa.

São esses cientistas que dão ao ministério as diretrizes de qual é a melhor maneira para o País enfrentar a pandemia a partir da ótica da ciência. Criamos uma estratégia com ações imediatas (prevenção, diagnósticos, tratamentos inicial e avançado) e continuadas (sequenciamento genético do vírus, conhecimento da doença, vacinas nacionais e infraestrutura para o enfrentamento).

Estamos aproveitando a situação e o que observamos durante essa pandemia para preparar melhor o País para as futuras gerações. Então, melhoramos a quantidade de laboratórios com nível de biossegurança 3, criando uma rede de laboratórios de campanha e agora estamos com um projeto para o nível de biossegurança 4.

Lá no começo, eles falaram para investir em vários protocolos diferentes de vacina, com vírus inativado (modelo usado na Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan, de São Paulo), proteína de espículas, RNA mensageiro (modelo usado nos imunizantes da Pfizer e da Moderna) etc. O Brasil tem um programa nacional de imunização muito robusto, mas a nossa fragilidade é depender de insumos importados. Para prepararmos melhor o País, precisamos desenvolver o ciclo completo, desde o estudo inicial e do insumo à produção em escala.

Essa seria uma vacina de produção autossuficiente?

Exatamente. E isso é algo de sobrevivência, talvez até de soberania, não sei. Insumo de vacina e farmacêutico é algo que dependemos muito do exterior, então a orientação da Rede Vírus foi a de fazermos uma vacina que fôssemos independentes. Investimos em 15 protocolos diferentes para desenvolvermos as tecnologias necessárias para cada tipo. No ano passado, recebemos cerca de R$ 1 bilhão, liberado pelo presidente e pelo Paulo Guedes (ministro da Economia).

Com esses recursos, as vacinas foram progredindo e chegaram à fase 2, de testes pré-clínicos, em animais. Três delas estão ‘a ponto de bala’ para começar a fase em testes humanos. Uma dessas já entrou com pedido na Anvisa para isso, está apenas refazendo uma parte finalzinha do pré-clínico.

Nesses testes com voluntários, temos a fase 1 e 2, feita com cerca de 120 a 200 voluntários, para testarmos a segurança da vacina, se não dá efeitos adversos etc. Elas demoram em torno de três ou quatro meses e então entramos na fase 3, para testar a eficiência da vacina com milhares de voluntários. No meio dessa fase, podemos fazer aberturas para verificar se a eficiência está boa e fazer o pedido de emergência.

Eu tinha recurso para fazer, e fiz, toda essa parte de desenvolvimento inicial até o final do pré-clínico. Quando entra no teste com pacientes, o valor aumenta consideravelmente porque precisamos preparar lotes pequenos da vacina, logística, aplicações, e eu não tenho recursos, no momento, para isso.

Essa falta de recursos é por causa do corte de 30% na verba da pasta, anunciado pelo governo federal para este ano?

Não, esse é um orçamento extra. No fim do ano passado, mandei um pedido de orçamento ao Ministério da Economia, ainda dentro da fase de emergência, mas não conseguiram operacionalizar isso, mais por detalhes técnicos lá, de legislação. E, para este ano, também tem toda a questão do orçamento a ser votado, e a gente não conseguiu. Ainda estou conversando com a Economia para buscar soluções para isso, possibilidades com leis de incentivo, no próprio FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) ou no setor privado.

Estamos analisando possibilidades de como conseguir esse financiamento para empurrar o projeto dessas três ou mais vacinas que devem entrar no teste clínico. E, com o resultado, vemos quais dão mais segurança e funcionam bem, para irmos para a parte com milhares de pacientes.

Claro, é muito importante termos a vacinação em massa com as vacinas importadas, não tenha dúvida. Mas é obrigatório que o Brasil tenha uma vacina própria. Todo vírus tem o comportamento natural de mutações, que podem ser regionalizadas.

Como a nova cepa de Manaus…

Ou da Itália etc. Surgiram no Brasil mutações que são específicas daqui e têm o potencial de darem um ‘golpe’, vamos dizer assim, de os vírus fugirem dos nossos anticorpos. E isso pode comprometer a eficiência das vacinas no futuro, por isso é importante termos uma brasileira. Se a mutação acontece no Brasil e a vacina for do exterior, preciso convencer o fabricante, que seja da China, Inglaterra ou Índia, a fazer a modificação do insumo para que cubra a nova cepa do Brasil. Se temos o controle aqui, fazemos a mudança imediata.

Além disso, brigamos lá para fazer os reagentes nacionais dos testes sorológicos. Foi ruim, claro, mas agora temos essa ferramenta na mão. Significa que se o vírus começar a ter modificação, agora conseguimos ajustar os testes para pegar essa nova mutação. Sem falar que o Brasil tem outras viroses e doenças negligenciadas, e é importante termos o ciclo completo por aqui.

Essas vacinas já levam em consideração a nova cepa que circula no Brasil?

Sem dúvida. E aí as pessoas falam ‘ah, mas não está atrasado em relação às vacinas dos outros países?’. Não. Uma coisa que aprendi com os pesquisadores é que as primeiras vacinas que chegam não são as que vão ficar. E esse vírus chegou para ficar. Essas vacinas têm técnicas que já usaram o conhecimento das que começaram a ser produzidas no início do ano passado, para melhorar a eficácia das nacionais. Elas já vão sair 2.0 e vão ficar aí pra sempre.

Quais são as vacinas que estariam ‘a ponto de bala’?

Uma delas é produzida pelo CT Vacinas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Rede Vírus, que financiamos, é uma vacina dupla, que usa a plataforma da influenza (gripe comum) com o coronavírus e se chama bivalente.

Outra está sendo desenvolvida pelo professor Célio Lopes Silva, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, e já está bem adiantada. Ela trabalha com a proteína s1, dos spikes, e uma parte é carregada até o sistema imunológico, não só com imunizantes, mas ativa as células T, que trabalham protegendo e atacando as células contaminadas.

A terceira é do professor Jorge Kalil, do Incor, que usa partes da proteína para ativar o sistema imunológico e é aplicada com spray nasal, agindo direto na porta de entrada do vírus no corpo humano. Além disso, tem a questão logística, que não depende de seringa ou agulha.

O Dr. Kalil falou com o Estadão no ano passado, e já havia relatado inclusive esse mesmo problema da falta de orçamento para seguir com a pesquisa.

Essa é a preocupação que temos nesse momento, de conseguir pelo menos o orçamento menor para as fases 1 e 2, e depois o orçamento maior para a fase 3. Em 2019, quando cheguei ao Ministério faltavam R$ 320 milhões para pagar as bolsas do CNPq e fomos até o final sem reduzir. Segurei e fui pagando com o que tinha. É o mesmo que estou fazendo agora. Vamos ter de achar os recursos, porque é importante para o País, e vamos conseguir de alguma forma. O presidente também está interessado, sabe a importância de ter essas vacinas no País. Funciono aqui como se fosse um míssil. Você não precisa direcionar o tempo todo, mas dispara e coloca o objetivo que eu vou chegar lá.

Qual é o orçamento necessário para dar continuidade a essas três vacinas?

Em torno de R$ 90 milhões, para as fases 1 e 2. E aquela que tiver mais sucesso, em torno de R$ 300 milhões, para 30 mil voluntários.

Qual seria a previsão de distribuição dessas vacinas ao SUS, a partir do momento que essa verba for liberada?

Em aproximadamente quatro meses, é a nossa expectativa, para termos as fases 1 e 2 feitas, tocando isso de forma rápida. Depois, entramos na fase 3, mas podemos fazer um corte no meio dos testes. Em aprovação emergencial, conseguiríamos entre setembro e dezembro, no último trimestre do ano.

Há alguma chance de haver corte das bolsas CNPq, considerando a previsão de redução de 30% na verba da pasta, ou elas serão mantidas?

A princípio, vou proteger as bolsas de todo jeito, por razões óbvias. Quem conhece o sistema sabe a importância disso. Nossa prioridade aqui é manter essas bolsas funcionando. Conseguimos manter isso por dois anos e tenho essa prioridade para 2021 também. Existe a possibilidade de corte em todos os orçamentos da Esplanada, que deve girar em torno de 13% a 15%, mas em 2019 também houve contingenciamento e não cortamos nenhuma bolsa. Essa é a nossa briga. E se tivermos a liberação do FNDCT, todos os problemas são resolvidos.

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