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Brasil

Cortejo toma ruas do centro para comemorar os 466 anos de São Paulo

Por Agência Estado

25 jan 2020 às 19:27 • Última atualização 25 jan 2020 às 19:39

Enquanto as primeiras pessoas se concentravam em torno de um trio elétrico, que exibia desenhos inspirados na obra da pintora Tarsila do Amaral, o Grande Cortejo Modernista para comemorar o aniversário de 466 anos de São Paulo, completados neste sábado, 25, tinha seu início oficial em um pequeno palco montado ao lado do Pátio do Colégio. Na frente do icônico sino da praça onde nasceu a cidade, o Coral Paulistano se apresentou com o Coral Guarani Amba Vera, com os integrantes vestindo trajes brancos. Os mestres de cerimônia eram os atores Pascoal da Conceição e José Rubens Chachá, que interpretaram, respectivamente, Mário e Oswald de Andrade.

Não foi a primeira vez que os artistas deram vida a esses personagens emblemáticos da literatura brasileira. E, provavelmente, não seja a última. Chachá, que já interpretou Oswald no cinema, no teatro e na televisão, diverte-se ao contar que já espera ser chamado para as comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna, em 2022.

O ator Pascoal da Conceição também fala sobre o personagem que ele voltou a interpretar, agora no Grande Cortejo Modernista: “Revisitar Mário de Andrade é revisitar aquela figura que lutou pela cultura, pela cultura indígena, afro, cabocla, pelo brasileiro em si”.

Crachá foi o responsável por apresentar a cantora Elba Ramalho e convidar o público a segui-la no trio. Um pouco antes, artistas vestidos com roupas típicas da década de 1920 e usando pernas de pau, se movimentavam à frente, dando início ao cortejo.

O personagem Mário de Andrade também apareceu, no cortejo, ao lado de Anitta Malfatti, interpretada por Virgínia Cavendish. Em uma de suas últimas falas, Pascoal retoma um texto de Mário, em que ele diz: “A cultura é tão necessária quanto o pão”.

Toda vez que vai interpretar Oswald, Chachá conta “se jogar” nos livros do autor, para absorver seu espírito “anárquico, libertador , vanguardista, moderno por excelência”.

Sobre o roteiro, Chachá conta: “É um texto escrito pelo Alexandre Del Farra, que sofreu alguns pequenos cortes; por ser um evento para milhares de pessoas, nós tivemos de deixar um pouco mais simples, mas 90% é o texto que nos mandaram. Mas não tem didatismo algum, e isso é um fato positivo. Como é um cortejo que algumas pessoas vão abandonar e outras vão seguir até o final, alguma coisa acaba sendo perdida por alguém, então, é uma coisa mais lúdica, falando da cidade de São Paulo, dos personagens; eu acho que foi um formato bacana que se assumiu”.

Seguindo pela Rua Boa Vista até o Largo São Bento, Elba animou o público com músicas como Xote das Meninas, de Luiz Gonzaga, e Esperando na Janela, sucesso na voz de Gilberto Gil.

“São Paulo tem a potência de uma cidade que abriga, que recebe pessoas, uma cidade itinerante, cosmopolita. Existem paulistas que nasceram aqui, mas existem vários Estados brasileiros aqui”, disse ao Estado Elba, pouco antes de subir ao palco. “Eu acho legal comemorar esse aniversário fazendo esse passeio. O que significa, para mim, esse cortejo é abraçar todos os povos, abraçar tudo o que a cidade abraça, ao longo de sua história.”

Ali, Elba deu lugar a artistas como Karol Conka e Rashid, que se apresentaram no Largo São Bento, local considerado o berço do hip hop paulistano.

A publicitária Heloísa Carneiro, de 37 anos, esteve presente pelo segundo ano consecutivo na festa de aniversário de São Paulo. Para ela, o formato de cortejo é um ponto positivo desta edição.

“Dessa forma, você consegue aproveitar melhor toda a programação. Com atrações em palcos separados, você sempre acaba perdendo algo legal; você tem que ser mais seletivo”, afirmou.

Aproveitando a festa com uma amiga, Catarina Schiesari, de 21 anos, conta que soube do evento por meio de sua avó. Ela veio para ver a banda Bixiga 70, que tem cada vez mais destaque na cena paulistana, e se surpreendeu ao saber que eles estavam no cortejo para acompanhar Elba, e não para tocar suas músicas autorais.

Assim, o repertório escolhido pela cantora, bem eclético, foi bom para a jovem poder aproveitar o show. Em cima de um pequeno trio elétrico, Elba cantou clássicos de Alceu Valença, como Anunciação; hits de sua carreira, como Banho de Cheiro; e até um rock dos Titãs em ritmo de axé, Sonífera Ilha.

Chamou a atenção de Catarina a presença de pessoas de várias idades, incluindo idosos, mas ela acha que o trajeto de Elba poderia ter ocorrido em um lugar mais aberto.

“O show foi bom, mas eu acho que o som estava meio abafado, por ser numa via mais fechada (o cortejo seguiu do Pátio do Colégio ao Largo São Bento, pela Rua Boa Vista).”

Ela, que veio para a festa interessada principalmente nos shows de Elba e Ney Matogrosso, também acha que eventos como este podem contribuir para a revitalização do centro.

“Eu não frequento muito o centro no dia a dia. Trazer pessoas para cá, com segurança e com algo cultural, agrega conhecimento, pois, por trás desses monumentos históricos, tem muita cultura, tem muita história.”

Já Isabel Maria Tosetti, de 69 anos, conta que não sai do centro, e, por sua ligação com literatura (ela é formada em Letras), achou particularmente interessante a ideia de fazer um cortejo inspirado na Semana de Arte Moderna de 1922.

“É maravilhoso. Isso agrega (ao público) algo que fez parte da nossa história, resgatando escritores e artistas que muito jovens não conhecem, como o Mário e o Oswald de Andrade, a Tarsila, a Anita (Malfatti)…”

Na multidão, algumas pessoas já exibiam brilhos e adereços de carnaval, e o que se via era uma plateia de faixa etária variada, com casais acompanhados de crianças e também idosos.

Para Eli Ribeiro, de 55 anos, a festa em formato de cortejo é também “um passeio pelo centro”, com mais segurança, algo que, no dia a dia, ela não consegue fazer.