Mando 'nudes' ou não?

No meio da paquera, uma mensagem: "Manda Nudes". E agora?


Talita*,18, estava solteira e resolveu baixar um app de relacionamento. “Pensei que seria uma boa para conhecer gente nova”, disse. E foi. Ela conheceu Marcos* que, segundo o aplicativo, tinha vários amigos em comum. Foi um ponto de confiança. Conversa vai, conversa vem e a coisa descamba para algo mais sensual. “E ai, gata. Pq você não me manda uns nudes?”.

No começo, ela pensou no não. Mas depois, sentindo confiança no rapaz, tirou a máscara da vergonha e enviou algumas fotos. De repente, o moço some. Passa uma, duas semanas, Talita é apontada na escola por todos.

Risadinhas nos cantos dos corredores davam a entender que algo tinha acontecido. “Pensei que estava com a calça suja, cabelo bagunçado, algo do tipo”. Antes fosse. As fotos nuas da jovem estavam circulando numa velocidade absurda nas redes sociais e apps de mensagens instantâneas.
Talita ficou quase um mês sem ir para escola. Ficava no quarto e só chorava. “Queria morrer. Mas preferi levantar a cabeça e superar tudo aquilo”, conta.

O fato é que histórias como a dela são cada vez mais comuns e entre um público cada vez mais novo. Na América Latina, um estudo feito pelo Instituto iStart estima que 60% das pessoas ganham o seu primeiro celular aos 12 anos. No Brasil, uma em cada três crianças acessa a internet por dispositivos móveis e a média de idade para se ganhar um celular tem sido 8 anos.

Não há segredo na internet!
Para o professor de informática e palestrante sobre “Perigos da Internet”, Roberto Mosna Junior, 27, expor a vida íntima na internet de qualquer forma, seja escrita, gravada ou até mesmo fotografada, é perigoso. “Quando estamos dentro de quatro paredes, na privacidade de nosso quarto, pensamos que nada de ruim pode nos acontecer. Mas acontece que, quando temos um dispositivo com acesso à internet, essas paredes não existem. Não há restrições e não há privacidade. Todos os anos digo para meus alunos ‘nem tudo o que faz na internet é exatamente privativo e na internet não escrevemos a lápis, mas sim a caneta’. Uma vez publicado, não há meios para voltar atrás”, alerta.

Quando o assunto é “nudes”, Roberto assume que é rigoroso. “Se você não tirar a foto, ela nunca se espalhará. Não há necessidade de exibir seu corpo como se ele fosse um produto. Não existe conversa privada na internet, não existem segredos. Nada será deletado e a vida continua. Não quer que sua imagem e vida íntima sejam divulgadas? Não aperte o ‘click’ da câmera do seu celular”, reforça.

Meu ‘nude’ vazou. E agora?
Leandro Bissoli, sócio e vice-presidente executivo do Patrícia Peck Pinheiro Advogados, disse que essa prática de namoro virtual com envio de fotos é comum entre os jovens e as fotos costumam vazar quando existe um rompimento tanto de confiança quanto de relacionamento. “Uma das partes se sente prejudicada e joga essas fotos na internet ou manda para um amigo, que envia para outro e assim vai. E isso vira um verdadeiro caos na vida das pessoas”.

Segundo o especialista, quando isso acontece, o primeiro caminho é pedir para o provedor, como o Google ou ao administrador do Facebook, para retirada imediata da foto. Essa será uma obrigação legal do provedor em remover. “O problema é que os conteúdos acabam sendo modificados ou recolocados na rede, o que demanda da pessoa um monitoramento constante. E quando vai para comunicadores instantâneos, fica pior ainda. Fica muito difícil, para não dizer impossível, remover esse tipo de conteúdo”.

Quando se sabe quem foi o autor do “vazamento” e quando se sabe que as fotos rolam por um determinado grupo no WhatsApp, pode ficar mais fácil penalizar o culpado. Até porque não só quem mandou as fotos pela primeira vez, mas também quem reenviou para outros contatos pode ser responsabilizado já que não tinha autorização da pessoa para transmitir a imagem que vai trazer prejuízos.

“É possível obter, com uma ordem judicial, todos os telefones que passaram o conteúdo. Será configurado um ato infracional e o acusado pode ter que cumprir medidas socioeducativas e a família pagar uma indenização pelos dados causados”, explica Leandro.

E se eu quiser mandar ‘nudes’?
Bom, ai vai de você. Saiba que a possibilidade de vazar é quase de 100% e os danos à sua vida podem ser irreparáveis. Mas se a “vontade for muita”, como diz Bissoli, e se a confiança no relacionamento for grande, é bom descaracterizar-se. “Não tire do seu rosto e nem de uma parte que tenha algo muito seu, como tatuagem ou algo que as pessoas vão ver e vão saber que é você. Do contrário, será apenas uma foto de uma pessoa nua.”

FALA GALERA!
As amigas Aniele Hanna e Flávia Martins são absolutamente contra a postagem de fotos sensuais nas redes sociais. “Não acho legal. O corpo da mulher não é algo para ficar exibindo assim, precisa ser preservado”, diz Flávia. Aniele concorda: “Sou totalmente contra [sensualizar pela internet]. Quando esse tipo de foto cai na rede, esquece”, cita a jovem se referindo a falta de controle e segurança sobre as imagens que navegam na velocidade da luz e, em poucos minutos, uma quantidade incalculável de pessoas está multiplicando a postagem. É assim, num piscar de olhos, que quem se exibe vira a fofoca do dia. Será que você está preparado para as consequências?

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