Muito além dos dreads

Cabelo rastafari é tendência entre os jovens que têm atitude para assumir esse estilo e enfrentar o preconceito velado


Fala a verdade. O que você pensa quando vê uma pessoa na rua com dreadslocks? Pense um pouco. Sempre temos em mente um julgamento pejorativo. E isso vem até mesmo da tevê. Um exemplo é o Ninho (Juliano Cazarré) da novela “Amor à Vida”. O personagem, quando era um errante, traficante de drogas, desleixado, tinha dreads. Quando resolveu “se alinhar” na vida, o que fizeram? Tiraram os dreads dele. E isso vai se repetir com a atriz Cléo Pires, que fez dreads – e gastou R$ 4,5 mil no processo sem cera e com linha de crochê – para uma nova personagem “barra pesada” na telinha.

Foto: Dener Chimeli / O Liberal
O barbeiro e dreadmaker, Gumello Ribeiro, usa dreads há dois anos
O barbeiro e dreadmaker, Gumello Ribeiro, usa dreads há dois anos. Apesar de não ser mais teen, ele diz que enfrentou preconceito pela sua escolha. “Minha esposa me apoiou, meu filho adora e os demais, de um modo geral, gostaram. Infelizmente há preconceito. Eu acredito que seja uma minoria, mas isso não me chateia. É apenas lamentável”, conta.

O jovem Luan Henrique Gabriel Antonini, 24, sabe muito bem do que Gumello está falando. Ele sempre achou bacana o visual que os dreads proporcionam e resolveu arriscar. “Mesmo sem saber o significado, me chamava atenção”, frisa.

Foto: Divulgação
Ariane Mendes Buriola resolveu fazer seus dreads em 2013
Em casa, disse que a reação foi das mais variadas. A maioria já veio com julgamentos negativos e o resultado da escolha refletiu até mesmo na hora de conquistar o mercado de trabalho. “Não chega a ser preconceito, acho que foi mais falta de informação. É uma questão de cultura, tanto aqui em casa quanto na rua. Na hora de procurar emprego tem que saber conversar. A princípio, quem não conhece, vai olhar diferente. Mas conforme vão te conhecendo, o pensamento vai mudando”, diz o jovem que também mudou muito seu conceito sobre o significado do cabelo rastafari.

“É como diz a música: ‘de que valem os dreads, se as palavras são em vão. O que lhe faz um rasta é alma e o coração’. Então independe do seu cabelo, da sua cor, da sua classe social, da sua religião. Acho que o mais interessante são suas atitudes com o próximo”, opina.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Luan Henrique sempre achou bacana o visual que os dreads proporcionam e resolveu arriscar
Olha os dreads da mina!
A bodypiercing Ariane Mendes Buriola, 17, resolveu fazer seus dreads em 2013. “Fui ruiva um longo tempo e meu cabelo foi se desgastando demais. E eu não gosto de cabelo curto pra mim. Aí decidi colocar com alongamento. Foi a melhor opção que tive. Não troco minhas raízes por nada”, conta. Ela diz que os cuidados não são supercomplicados. É só lavar uma vez por semana, e retoca a cada três meses. “Eles não dão trabalho nenhum. É muito bom acordar e eles estarem do mesmo jeito que fui dormir. Não precisa pentear. Só tirar os pelinhos da coberta e deixar a preguiça de lado.

Assim como as pessoas precisam ir ao cabeleireiro para colorir, cortar as pontas”, compara ela, acrescentando que só acha que “dá trabalho” aqueles sem dedicação. “Só pensa assim quem não tem paciência para aguentar eles molhados apenas por um dia da semana, quem não tem paciência para ficar uma hora secando com o secador ou que não aguenta o retoque, que dói um pouco porque puxa bem a raiz”, explica.

Sobre preconceito, ela diz que existe em todos os lugares que vai. Porém, ela simplesmente liga o botão “ignore” da cabeça e sai feliz. Para Ariane, o que costuma ser meio chato são as mesmas perguntas, tipo “como você faz para lavar?”, “precisa tirar eles da sua cabeça pra retocar?” ou até “não coça?”.
Apesar de levar tudo numa boa, a jovem acredita que as pessoas precisam ver o dreadlock como cabelo normal. “Ter dreads para mim foi uma das melhores opções que já tive! Muito boa a experiência porque envolve muitas coisas, muitas coisas mesmo! Como religião, preconceito, estilo e a história do rastafari”, enumera.

História do dreadlocks
Ao contrário do que se pensa, os dreadlocks não nasceram com o movimento rastafári e com Bob Marley. O uso de dreads é tão antigo que se torna impossível datar corretamente quando começaram a ser utilizados.
Mas o que se sabe é que povos que habitavam a região da Índia foram provavelmente os primeiros a se utilizar dos locks, principalmente por uma questão de praticidade.

Os cabelos tornavam-se longos e era extremamente difícil cortá-los. Eles enrolavam com o óleo natural do couro cabeludo e torciam os cabelos para que conservassem uma forma cilíndrica, diminuindo o volume e tamanho do cabelo original. Porém os dreadlocks tornaram-se famosos com o movimento rastafári. Os rastafáris acreditam que o crescimento natural dos cabelos é um preceito bíblico, contido no Levítico 21:5 – Sobre a Santidade Sacerdotal: “Os sacerdotes não rasparão a cabeça nem os lados de sua barba e não farão incisões em sua carne”. Outra inspiração para o cultivo dos dreads é Sansão, o herói bíblico, tido como um nazareno que usava dreadlocks. Muitos rastafáris creem que assim como Sansão, sua força está nos cabelos e cortá-los seria promover a própria fraqueza.

Fonte: Somjah

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