Hortolândia: A força de um povo

A região era considerada uma das mais violentas do Brasil, as ruas não eram asfaltadas, o […]


A região era considerada uma das mais violentas do Brasil, as ruas não eram asfaltadas, o abastecimento de água era caótico, o sistema de saúde era precário, o esgoto corria a céu aberto.

Foto: Divulgação
Há 21 anos, população foi às urnas votar pela emancipação
A princípio, a descrição acima faz lembrar um trecho da música ‘A Casa’, de autoria do poeta, cantor e compositor Vinicius de Moraes, quando diz que “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”.

No entanto, a situação era ainda mais dramática, afinal, essa era a realidade de Hortolândia, na época em que era distrito de Sumaré.

Apesar de ser responsável por aproximadamente 65% de toda a arrecadação da cidade mãe, a região sofria com a falta de infraestrutura básica. No final dos anos 1980, a população de Hortolândia era de aproximadamente 100 mil habitantes.

Contudo, foi com a conjunção de diversos fatores, como a grande concentração populacional, a alta arrecadação de impostos, o pouco investimento público e a falta de integração com Sumaré, que surgiu, em 1988, o movimento pró-emancipação liderado por Luiz Antônio Dias da Silva, mais conhecido como Antônio Dias, que depois da emancipação tornou-se o primeiro prefeito de Hortolândia.

Após três anos de muita luta, e até mesmo brigas judiciais, o plebiscito foi marcado para o dia 19 de maio de 1991. Foi, então, que a população foi às urnas e disse sim ao desmembramento de Hortolândia do seu município-sede.

Dos 32.745 eleitores aptos a votar, 19.592 compareceram às urnas. Desses, 19.081 disseram sim à emancipação, enquanto apenas 255 votaram pelo não, restando ainda 256, entre brancos e nulos.

À frente do movimento

O vereador Paulo Pereira Filho (PPL), 47 anos, na época, era presidente do Conserlândia (Conselho das Sociedades Amigos de Bairro de Hortolândia) quando foi convidado por Antônio Dias para participar da comissão do movimento pela emancipação.

“Eu tinha o papel de coordenação política do movimento de emancipação. Era eu quem abria as reuniões e nos comícios cabia a mim, geralmente, essa fala também. Era mais no sentido de provocar politicamente as pessoas para se envolverem e acreditarem no processo”, lembra.
Segundo Pereira Filho, a emancipação de Hortolândia exigiu muito esforço e trabalho.

“Eu andava com o presidente do movimento, que era o Antônio Dias, na definição do traçado do município. Nas impetrações que foram feitas na Justiça, eu e o Dias que íamos com os advogados para informar todo o procedimento. Foi um trabalho intensivo na produção de documentos”, afirma.

Para o parlamentar, o movimento da emancipação foi fundamental para definir a identidade do povo hortolandense.

“Naquela época, as pessoas iam procurar serviço lá fora e não falavam que moravam em Hortolândia, porque se falasse a gente não tinha emprego. Diziam que aqui morava bandido, muito ladrão por causa do presídio. Hoje é totalmente diferente. O processo de emancipação levou as pessoas a acreditarem nelas. O povo percebeu que Hortolândia poderia ser respeitada e ter identidade”, explica.

Fonte: Livro “Sumaré por interno. Os primeiros passos de integração da Cidade Orquídea” / Autor: Josemil Rodrigues

Jovens manifestantes

“Hortolândia era uma cidade totalmente sem infraestrutura, sem esgoto, sem escola, sem cultura, sem lazer, sem nada. Era muito difícil de morar aqui”, recorda Carlos Alberto da Silva, 43 anos, assessor jurídico da Câmara, que na época da emancipação ficou conhecido como Carlinhos da Juventude.

Naquela época, Luiz Antônio Dias da Silva tinha 19 anos e era o coordenador da Pastoral da Juventude. De acordo com Silva, a principal bandeira do movimento era a falta de infraestrutura do, então, distrito de Sumaré.

“Hortolândia representava cerca de 65% da arrecadação de Sumaré, devido as empresas que lá existiam. Porém, a mão de obra era toda de fora”, conta.

Foi, então, que Silva também foi convidado a integrar o movimento e, com a participação dele, muitos jovens aderiram à causa.

“A pastoral contava com mais de mil jovens atuantes e todos participaram do movimento. Acredito que a juventude foi a principal responsável pela emancipação da cidade, porque mostrou o movimento para a sociedade. Os jovens tiveram um papel importante de conscientização, deu cara de movimento social”, explica.

Para Silva, a emancipação de Hortolândia foi primordial para o desenvolvimento da região, que antes pertencia a Sumaré.

“A cidade tem hoje total capacidade orçamentária para garantir uma boa qualidade de vida para os moradores. Em 21 anos ela conseguiu índices históricos, pois tem cidades que estão aí há muitos anos e não têm os índices que Hortolândia conseguiu”, ressalta.

Hortolândia documentada

A história do desmembramento de Hortolândia de seu município-sede virou tema de um documentário, produzido pela jornalista Ana Beraldo (52) e que foi lançado em 2011.

O objetivo do documentário “Sumaré – história viva”, é reconstruir a história da cidade sumareense por meio de múltiplas vozes. No entanto, a autora também abriu espaço para abordar o processo pró-emancipatório de Hortolândia, que pertenceu a Sumaré até 1991.

De acordo com Ana, a emancipação era uma história que despertava interesse.

“Me instigava também o que as pessoas mais velhas sentiam em relação a emancipação, se elas aceitavam normalmente essa ruptura ou se ficavam com aquele saudosismo de Sumaré. Mas não era nada disso, essa era uma hipótese que eu estava trabalhando, porém era uma visão romântica que eu tinha. Vi que as pessoas tinham participado desse processo”, explica.

A jornalista afirma que a população sente orgulho pela emancipação de Hortolândia.

“Foi um divisor de águas, pois a cidade era um caos e hoje está crescendo, buscando seu desenvolvimento. Eram quase 100 mil habitantes, faltava água e esgoto. Hoje ganhou vida, ganhou identidade, as pessoas sentem orgulho”, enfatiza.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora

Receba nossa newsletter!