Paul McCartney: um universo em três horas

Com carisma, homenagens e mais peso ao vivo para novos hits, ex-Beatle viu 45 mil pessoas se renderem ao seu legado em sua oitava turnê pelo país


Foto: Marcos Hermes - Divulgação
Os números surpreendentes fazem jus à carreira de uma lenda

Alguns dos gênios do futebol, como Mané Garrincha, tinham dribles característicos, conhecidos pelo mundo afora, mas mesmo assim obtinham sucesso por incontáveis vezes executando aquelas deslumbrantes performances. E, melhor ainda, como se tivessem realizando aquilo pela primeira vez. Na música, você pode falar isso de Paul McCartney, que mais uma vez fez um estádio lotado render-se ao seu legado na noite desta terça-feira, em São Paulo.

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Os riffs blueseiros de Who Cares são alavancados pela guitarra de Rusty Anderson

Os números surpreendentes fazem jus à carreira de uma lenda. A “Freshen Up Tour” chegou ao Allianz Parque como a 8ª turnê do ex-Beatle no Brasil e sua 25ª apresentação em terras tupiniquins. Aos 76 anos de idade e uma vitalidade que espanta, Paul entoou nada mais, nada menos que 39 canções, a maioria clássicos, em quase três horas de show.

Em telões laterais ao palco, antes do garoto de Liverpool surgir e levar o público à euforia, linhas do tempo em forma de um edifício que chegava até a lua exibiam fotos de toda a carreira do músico e daquela que é considerada a mais aclamada banda da história da música popular.

Paul não costuma, e nem precisa, mudar tanto seu repertório ao longo das turnês. Surge humildemente dos bastidores, chega ao microfone, toca a primeira nota e entoa logo “A Hard Day’s Night”. O estopim está aceso. A apresentação segue logo com uma das mais potentes músicas de sua carreira recente: “Save Us”.

Depois de “All My Loving” e “Letting Go”, a primeira novidade da noite para o público brasileiro. Os riffs blueseiros de “Who Cares” são alavancados pela guitarra de Rusty Anderson e anunciam o que se repetiria ao longo da apresentação: a banda está afiadíssima para suas novas criações e ao vivo confere mais peso a pérolas de “Egypt Station”, 17º álbum de estúdio do ex-Beatle, lançado há pouco mais de meio ano.

Esta tendência segue na batida contagiante de “Come On to Me”, na qual o trio de sopro recebe destaque, não apenas sonoramente, mas por surgirem no meio da plateia. Já “Fuh You” apresenta um Paul que segue à vontade para transitar pelas gerações da música e aterrissar no pop contemporâneo com um um hit que gruda na mente.

E para não dizer que só falei de flores, a bossa moderna “Back in Brazil”, que não poderia faltar no show, não apenas por falar do país como por ter sido composta nele, em 2017, é a única que fica aquém do estúdio no palco, certamente por sua dependência de elementos eletrônicos. Em uma compensação cenográfica, balões nas cores verde, amarelo e azul flutuam pelo estádio.

CLÁSSICOS. Mas, é claro, o público não estava lá para visitar apenas o presente. Entraram na máquina do tempo certa. Flutuando do baixo à guitarra, violão, piano, bandolim e até ukulele, o protagonista da noite emenda hinos cantados a plenos pulmões pela multidão, como “Got to Get You Into My Life”, “From Me to You”, “Love Me Do”, “Eleanor Rigby”, “Something”, “Let It Be” e “Maybe I’m Amazed”.

Arriscando-se o tempo inteiro na língua portuguesa anuncia músicas sobre direitos humanos (“Blackbird”), sobre o amor por sua mulher (“My Valentine”) e homenagens a John Lennon (“Here Today”), George Harrison (“Something”) e à banda Wings.

Risadas também são garantidas, como quando o anfitrião substitui “party” por “balada” ao chamar seus convidados a agitar ou os chama de “manos” e “minas” pedindo que cantem. Ou, ainda, nas dancinhas características do carismático baterista Abe Laboriel Jr. em “Dance Tonight”.

Foto: Marcos Hermes - Divulgação
Ex-Beatle mais uma vez fez um estádio lotado render-se ao seu legado na noite desta terça-feira, em São Paulo

UNIVERSO IMAGÉTICO. No intimismo cenográfico, quando telões dinâmicos criam uma casinha de campo em relevo, Sir McCartney traz sons nostálgicos de início de carreira. Mas também há ousadia, tanto nos jogos de lasers em “Back in the U.S.S.R.” e “Live and Let Die”, como quando “pisa na lua”, em um efeito proporcionado pela elevação de uma plataforma e projeção em uma das multitelas escondidas.  

A ansiedade pela cereja do bolo, no entanto, era revelada por mãos segurando cartazes ao longo de todo o show. “É agora”, cochichavam alguns logo após a banda conferir os últimos acordes a “Live and Let Die”. São necessárias duas palavras: “Hey Jude”. A partir dali, todos querem contribuir com seu “Na Na Na Na”, seja com placas em referência ao famoso refrão ou mesmo integrando aquele coro de milhares.

E, assim, ele fez de novo: causou sua catarse coletiva como se fosse pela primeira vez, em um clímax que ainda seria complementado por mais seis músicas no bis, entre elas “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, “Helter Skelter” e “Carry That Weight”.

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