Melhorado, ‘novo’ leite do IZ não causa alergia

Pesquisadores que atuam em Nova Odessa estão conseguindo eliminar a proteína Beta Caseína da bebida


Uma pesquisa pioneira desenvolvida no IZ (Instituto de Zootecnia) de Nova Odessa permite a produção de leite de vaca sem que a proteína presente na bebida cause alergia. O estudo é o primeiro do Brasil, segundo o diretor do Centro de Pesquisa com Bovinos do Leite, Anibal Eugênio Vercesi Filho, e permitirá que a fazenda do Estado forneça material genético para pequenos produtores e leite mais saudável para consumo em escolas, por exemplo.

De acordo com o pesquisador, o leite “melhorado” foi obtido após a análise genética das vacas do rebanho da fazenda. Ele explicou que o leite é formado por várias proteínas, e uma delas é a Beta Caseína. Cada proteína tem uma estrutura molecular e alguns animais possuem o gene chamado A1, que causa a alergia, e outros o gene A2, que não faz mal ao ser humano durante o processo digestivo, disse o pesquisador.

“Quando a pessoa toma o leite que tem a proteína A2, não acontece nada, a Beta Caseína passa normalmente. Mas quando é a A1, no ponto 67 da estrutura molecular, as enzimas digestivas quebram essa proteína A1 e se forma essa substância, que é a BCM 7. A essa substância é que são atribuídos os problemas digestivos da ingestão do leite A1”, explicou Vercesi. Essa alergia, de acordo com o pesquisador, não tem relação com a intolerância à lactose.

Foto: Dener Chimeli / O Liberal
Segundo Vercesi, o leite de vaca A2 tem o mesmo gosto do leite A1, mas não faz mal a quem tem alergia

Segundo o pesquisador, a BCM 7 pode causar entupimento de artéria, diabetes tipo 1, reação inflamatória, diarreia, dor abdominal, gazes, entre outras intolerâncias. Uma solução para esse problema, enquanto o leite A2 não chega ao mercado, tem sido o consumo de leite de cabra e búfala, que já são A2.

Ainda segundo o pesquisador do IZ, o leite de vaca A2 possui o mesmo gosto e densidade da bebida A1, mas não faz mal a quem possui a alergia.

Foto: Dener Chimeli / O Liberal
De acordo com o pesquisador, o leite “melhorado” foi obtido após a análise genética das vacas do rebanho da fazenda

Para chegar à produção de leite A2, segundo o pesquisador, é preciso que o gene A1 seja, aos poucos, extinto. Para isso, o IZ fez um programa de melhoramento do rebanho, coletou material de todas as vacas e identificou a constituição genética de cada uma delas. Com isso, o instituto passou a fazer a inseminação dessas vacas com touros compatíveis, de forma que os bezerros nasçam com gene A2. O pesquisador adiantou que, em cinco anos, a previsão é de que todo o rebanho seja A2. Esse, inclusive, será o primeiro rebanho da raça holandês do país a ter essa produção, segundo o pesquisador do IZ de Nova Odessa.

“A hora que a gente tiver com 100% das vacas produzindo leite A2, ou conseguir uma produção diária de leite A2 boa, a gente pode tentar entrar em um programa como o Viva Leite, para aqui ser uma fazenda que produza leite para o programa, distribuído para as pessoas, ou fazer convênio com prefeituras da região para fornecer para merenda escolar”, afirmou Vercesi.

Outro foco do programa é fornecer material genético selecionado para os pequenos produtores, para que eles agreguem valor à sua produção.

Entenda
as diferenças  

APLV (Alergia à Proteína do Leite de Vaca) e a IL (Intolerância à Lactose)

O QUE É?

APLV Reação do sistema imunológico à(s) proteína(s) do leite de vaca.

IL Dificuldade do organismo em digerir e absorver o açúcar do leite (lactose) devido à diminuição ou ausência de lactase (enzima que digere a lactose).

EM QUE IDADE É MAIS COMUM?

APLV Muito mais comum em crianças, especialmente em bebês. Adultos raramente têm alergia à proteína do leite de vaca.

IL É mais comum em adultos e idosos do que em crianças. Também pode ser uma consequência, às vezes temporária, em casos de diarreia prolongada ou doenças inflamatórias intestinais.

QUAIS SÃO OS SINAIS E OS SINTOMAS?

APLV Um ou mais dos seguintes sintomas: digestivos (vômitos, cólicas, diarreia, dor abdominal, prisão de ventre, presença de sangue nas fezes, refluxo, etc.), cutâneos (urticária, dermatite atópica de moderada a grave), respiratórios (asma, chiado no peito e rinite), reação anafilática, baixo ganho de peso e crescimento. Podem ocorrer em minutos, horas ou dias após a ingestão de leite de vaca ou derivados, de forma persistente ou repetitiva.

IL Apenas intestinais: Diarreia, cólicas, gases, distensão abdominal (barriga estufada). Podem ocorrer em minutos ou horas após a ingestão do leite de vaca.

A MÃE PODE CONTINUAR AMAMENTANDO O FILHO DO PEITO?

APLV Sim e deve. Neste caso, a mãe que amamenta deve seguir uma dieta especial isenta de leite, derivados e alimentos que possuem as proteínas do leite, sempre sob a orientação de um médico e/ou nutricionista.

IL Sim. O leite materno deve ser sempre o principal alimento oferecido ao bebê. É muito raro ocorrer intolerância à lactose durante o aleitamento materno, pois apesar do leite materno ser rico em lactose ele possui agentes facilitadores que auxiliam sua digestão.

BEBÊS NÃO AMAMENTADOS PRECISAM DE ALGUM LEITE OU FÓRMULA ESPECIAL?

APLV Sim. O médico e/ou nutricionista irão indicar a fórmula mais adequada de acordo com a idade e o tipo de reação que a criança apresenta (veja o material comparativo entre as fórmulas no site). Mas atenção: leite de cabra ou de outros mamíferos (ovelha, búfala) não são indicados para APLV, pois suas proteínas são semelhantes às do leite de vaca e podem causar as mesmas reações na criança.

IL Sim. Crianças de 0 a 2 anos podem utilizar fórmulas especiais isentas de lactose. Acima de 2 anos os produtos com baixo teor de lactose são bem tolerados.

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