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Aos 102 anos, Dona Tintin conta suas histórias

As lembranças e os ensinamentos de uma alagoana de 102 anos que veio para Americana e foge dos cabelos grisalhos

Por Isabella Holouka

10 dez 2017 às 08:05 • Última atualização 10 dez 2017 às 08:06

Por onde passa, Maria Eutropia Ferraz Ferreira chama a atenção. Aos 102 anos, com os cabelos coloridos de azul, Dona Tintin, como é conhecida, valoriza a autenticidade e a fé para a longevidade.

Natural de Murici (AL), hoje ela é uma das 54 pessoas centenárias moradoras de Americana, segundo estimativa de 2016 divulgada pela prefeitura, com base no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Dona Tintin percorreu um longo caminho até aqui. Na adolescência estudou em Recife (PE), e depois foi morar no Rio de Janeiro, onde conheceu e se casou com o grande amor de sua vida, Pedro Frederico Ferreira. A vida era corrida, típica da cidade grande, que Tintin percorria quase toda a pé.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal.JPG
Natural de Murici (AL), hoje ela é uma das 54 pessoas centenárias moradoras de Americana, segundo estimativa de 2016

“O Rio de Janeiro é muito lindo, não há nada que bote ele para baixo”, garante ela, que também se derrete por Americana. Com a idade avançando, o casal veio para o Estado de São Paulo para morar com uma das filhas, em 1993.

O cabelo azul, cuidado com carinho por ela, é tingido com papel-carbono desde que Tintin ficou grisalha. “Eu coloquei o loiro, mas não gostei. Aí, eu fui experimentando cores, dentro de casa, e o carbono azul ficou bonito”, conta.

“Se dá muito trabalho? Na vida, minha filha, tudo dá trabalho. Botar café numa xícara dá trabalho. Pintar o seu cabelo com carbono azul é claro que dá trabalho”.

Ela e Pedro eram atração por onde passavam. “Teve um dia que a gente estava no centro da cidade e eu vi uma moça que estava na porta chamar uma outra para ver a gente. Eu, com a minha bengala, já tinha 100 anos”, conta ela.

A filha, Iza Ferreira Rabello, de 62 anos, completa. “Todo mundo achava bonitinho os dois andando de mãos dadas. Um casal super unido, mas cada um tinha a sua individualidade e respeitava a individualidade do outro”.

Foto: Isabella Holouka - O Liberal.JPG
“Se Deus me deu vida até 102 anos, então, o que eu posso dizer? Eu sou uma criatura muito feliz”, diz Tintin

Faltando apenas quatro dias para completar 98 anos, Pedro faleceu, vítima de uma pneumonia. “Meu marido subiu com Deus. Eu não digo que ele morreu porque ele vive dentro de mim”, diz Tintin com paixão nos olhos, marejados em falar do amor. Da relação do casal, nasceram duas filhas, quatro netos e três bisnetos, que estão divididos entre Americana e o Rio de Janeiro.

Adepta à leitura e à escrita, o passatempo dela hoje é organizar os cadernos em que coleciona anotações sobre sua vida e história. Tintin tem tudo documentado: nomes e datas de nascimento e morte de todos os familiares, datas de viagens, e até anotações sobre procedimentos médicos. Mas o queridinho de Tintin é um caderno onde amigos e família deixaram recados amorosos comemorando seus 100 anos. Ela passa horas relendo as mensagens.

“A vida nos deixa muitas saudades de tudo. O tempo de vida com os meus pais me dá muita saudade. Do mais, vou vivendo e sentindo saudade de um e de outro. Mas me apego ao aqui”, desabafa. “Se Deus me deu vida até 102 anos, então, o que eu posso dizer? Eu sou uma criatura muito feliz”, diz Tintin, sorridente.