'Vivo um luto inacabado há 23 anos', diz mãe sobre filha desaparecida

A chuva de verão do dia 23 de dezembro de 1995 causou um aperto no peito de dona Ivanise da…


A chuva de verão do dia 23 de dezembro de 1995 causou um aperto no peito de dona Ivanise da Silva, de 57 anos. Era um presságio. Ela preparava a casa para a festa de Natal, quando Fabiana, que tinha 13 anos, lhe deu um abraço forte por trás e a beijou. O gesto de carinho era comum entre elas, mas a mãe não sabia que essa seria a última troca de afeto.

Era fim de tarde e a menina saiu com uma amiga para ir a uma festa de aniversário perto de onde morava, em Pirituba, zona norte da capital paulista.

Na volta, após as duas se despedirem em frente a um mercado, às sete horas da noite, Fabiana desapareceu e nunca mais retornou. “Eu sinto essa perda todo dia. Tem momento que dói mais, que eu acordo com a sensação de estar ouvindo a voz dela me chamando ou sentindo o cheiro dela. É um tormento, um sentimento que eu não desejo a ninguém”, lamenta Ivanise.

Aos prantos, a mulher e seu então marido, José Benedito, de 68 anos, foram ao 87º Distrito Policial pedir ajuda, mas o delegado se recusou a prestar auxílio e lhes disse que “a menina deveria estar com algum namorado” – mesmo sem conhecê-la.

“Você não sabe quem é a sua filha. Todos ficam diferentes quando dão as costas para os pais. Vai dormir, que até o fim da noite ela aparece”, garantiu a autoridade.

Como se não bastasse, o agente ainda a segurou pelos braços e ameaçou prendê-la por desacato. “A senhora está muito abusada”, reclamou ele, depois de Ivanise criticar a omissão.

O descaso prejudicou a saúde de Ivanise. Atormentada com o sumiço e a falta de assistência, a mãe não dormiu por dias e chegou a pesar menos de 35 quilos. O cigarro passou a fazer parte de sua vida, e ela foi todos os dias, durante três meses, ao Instituto Médico-Legal (IML) ver se encontrava, sem sucesso, o corpo de Fabiana. Até hoje, toma remédio para insônia e antidepressivos.

Assim como foi com a família Silva, as polícias Civil e Militar só permitem que o parente faça um boletim de ocorrência (B.O) 24 horas após o desaparecimento. No entanto, não há uma lei que determine isso, e o policial pode ser denunciado à corregedoria-geral da corporação por esse tipo de atendimento.

‘Minha filha é só um número para o Estado’

Passaram-se 23 anos da tragédia com Fabiana e ainda faltam iniciativas do poder público para apoiar os parentes.

Em novembro deste ano, a promotora Eliana Vendramini, que coordenada o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid), do Ministério Público de São Paulo, processou o Estado por enterrar, como indigentes, 3 mil pessoas desaparecidas. Elas estavam registradas com B.Os duplicados, ou seja, de óbito e desaparecimento.

Isso se deu porque o IML e as delegacias não cruzam os dados que recebem, sepultando os corpos sem avisar os familiares – que agora serão indenizados por danos morais, após sentença do juiz Emílio Migliano Neto.

Além disso, o Estado de São Paulo foi denunciado pela omissão e falta de políticas públicas, previstas na Lei nº 10.299, de 1999, para lidar com o assunto.

“É muita desorganização. As delegacias da Polícia Civil não cruzam os B.Os [para identificarem possíveis erros]”, afirma Eliana. Ela relata, ainda, que a corporação não investiga os paradeiros por falta de estrutura e por não se tratarem, necessariamente, de crimes.

“A Civil precisa pensar o desaparecimento como um trabalho, e não como um favor. Fora isso, a equipe é muito sazonal. Funcionários entram de férias e ninguém os cobre”, critica. A promotora calcula que a delegacia paulista especializada no tema tenha cerca de 20 agentes.

Só em 2017, foram registrados 25.200 sumiços no Estado, e os casos não solucionados podem ter relação com o tráfico de pessoas, de órgãos, exploração sexual, homicídios, entre outros.

Eliana Vendramini aponta, também, que tentou trocar experiências e fazer um convênio com a Polícia Militar (PM) entre 2013 e 2017, mas o Centro de Operações e o Comando Geral da instituição não foram receptivos com a proposta. No entanto, ela conta que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) sugeriu, neste ano, que a PM fizesse um relatório sobre o tema, e a Secretaria de Segurança Pública acatou. O documento ainda está em produção.

A escassez de iniciativas preocupa Ivanise, uma vez que um levantamento do Ministério da Justiça informa que há 109 rotas brasileiras para o tráfico interno de mulheres, transformando o País no que mais exporta pessoas para o mercado do sexo internacional.

“Não sei o que aconteceu com Fabiana e me sinto abandonada pelas autoridades. Minha filha é só mais um número para o Estado”, diz Ivanise.

Vale ressaltar que o Cadastro Nacional de Criança e Adolescente foi lançado em 2013 e, até hoje, não foi atualizado pelo Governo Federal. Nele, constam apenas 129 desaparecidos no Brasil inteiro.

Pais que abandonam e mães que morrem

A falta de apoio fez Ivanise transformar sua dor em luta. Ela fundou, em 1995, a ONG Mães da Sé, que, sob sua presidência, já ofereceu assistência a mais de 10 mil famílias de desaparecidos em 23 anos. Destas, somente três tinham uma renda considerada alta, e somente seis eram homens em busca de seus filhos.

“Há um recorte de classe e gênero muito grande no nosso trabalho. As pessoas que mais somem são pobres e estão em vulnerabilidade social”, afirma. “Fora isso, percebi que os pais costumam encarar o problema fugindo. Muitas vezes, são as mães que carregam a dor para o resto da vida”, analisa.

Ivanise também enfrenta esse problema. Seu ex-marido José Benedito se separou dela, sete anos após o desaparecimento de Fabiana, e se mudou para Alagoas, onde se casou com outra mulher. “Ele saiu da minha vida quando mais precisei dele. A única que parou no tempo fui eu”, revela ela, que ainda tem sua outra filha, Fagna, para lhe fazer companhia.

O que mais se ouve na Mães da Sé é que muitos maridos justificam a ausência por precisarem trabalhar para manter a família, enquanto a companheira concilia a procura pelo filho com as tarefas domésticas.

Dados da ONG mostram que 16 mães morreram nestes 23 anos. Duas por câncer, uma por suicídio e outras que tiveram uma parada cardíaca fulminante. Todas, segundo Ivanise, viviam na tristeza pelo fardo que carregavam.

As demais ativistas estendem cartazes com as fotos dos desaparecidos a cada quinze dias na escada da Catedral da Sé, no centro de São Paulo.

Memórias que ficam e amores que vêm

Fabiana tinha muita cólica quando era pequena, e Ivanise a colocava sobre sua barriga para o seu calor aquecer a filha durante a noite. Assim, a menina se acostumou a dormir sempre ao lado da mãe, o que tornou os laços de afeto mais intensos.

“Ela não queria ficar no berço e, até o dia que desapareceu, vinha correndo para a minha cama quando o pai ia trabalhar. Ela era muito carinhosa”, recorda.

O dia 23 de dezembro se repete todo ano e acompanha o choro e a dor no peito que Ivanise sentiu momentos antes de perdera filha. Dois dias depois vem o Natal, o ano-novo, e a angústia aumenta cada vez mais. “No que dependesse de mim, essas datas não existiriam no calendário”, desabafa.

Apesar de tudo, Ivanise abriu um espaço em seu coração materno para cultivar mais um amor em 2019. Sua primeira neta, Eva, nasce em março – mesmo mês em que fundou o Mães da Sé -, e sua esperança é de, um dia, sentar ao lado da menina, de Fagna e Fabiana numa noite natalina.

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