‘A Forma da Água’ é uma doce fábula criada por Guilhermo Del Toro

Filme, que concorre a 13 estatuetas no Oscar deste ano, é doce e encantador ao tocar em assuntos tristes


Guilhermo Del Toro está longe de ser uma unanimidade. Ao passo em que apresenta produções incríveis e cheias de qualidade (como o incrível O Labirinto do Fauno e os filmes do heroi Hellboy), escorrega em outras (como o fraco A Colina Escarlate e o mediano Círculo de Fogo). Felizmente, A Forma da Água (The Shape of Water), filme que estreou no Brasil na semana passada, se encaixa na primeira leva de filmes do diretor mexicano. Como um conto de fadas, o longa apresenta uma história cheia de questionamentos, mas de modo doce, encantador, leve e simples.

O enredo nos apresenta a Elisa (Sally Hawkins, de As Aventuras de Paddington e Blue Jasmine), uma auxiliar de limpeza de um laboratório secreto do Exército norte-americano. Orfã e muda, a mulher se sente apartada do mundo e vê em Giles (Richard Jenkins) e Zelda (Octavia Spencer) seus únicos amigos. Tudo muda quando o local recebe um novo diretor, Richard Strickland (Michael Sannon), e um novo morador: um misterioso homem-anfíbio originário da América do Sul. Aos poucos, Elisa e o “monstro” vão se aproximando e percebem que, no fundo, não são tão diferentes assim.

Del Toro mistura muito bem os elementos de fábula, história de amor e momentos de tensão em A Forma da Água. Apesar das 2 horas e 03 minutos de projeção, em nenhum momento são apresentadas barrigas ou momentos desnecessários, criados apenas para aumentar a duração do filme. Tudo tem um significado e uma lógica. O resultado é um filme com um ritmo delicioso. Outras questões técnicas merecem elogios, como a belíssima fotografia, assinada por Dan Laustsen (parceiro de Del Toro também em A Colina Escarlate).

Foto:
Fruto de experimentos, a “forma” será protegida por Elisa
Foto: Divulgação
Sally Hawkins e Doug Jones vivem os protagonistas

A doçura e a delicadeza do diretor em tratar de assuntos pesados é um grandes méritos do filme. E talvez o mais evidente deles seja a solidão. Zelda, apesar de casada, não tem apoio ou ajuda do marido em casa; Giles é um senhor de idade que ganha a vida desenhando embalagens e já não tem tanto sucesso como antes; Richard tem uma “família tradicional”, mas parece desalocado; Elisa, por sua vez, se sente diferente pelo fato de não conseguir se comunicar com todos – um dos fatores que a leva ao seu fascínio pela nova criatura.

Além disso, Del Toro também tenta expor problemas enfrentados pela minoria. Além de, claro, Elisa representar deficientes de um modo geral, situações e diálogos chamam a atenção para homofobia e racismo, por exemplo. O contraponto interessante é que as únicas pessoas que entendem a linguagem de sinais de Elisa sejam Giles (seu amigo gay) e Zelda (sua amiga e companheira de trabalho negra). São pessoas que sentem na pele as dificuldades da sociedade.

As 13 indicações de A Forma da Água apenas ressaltam toda a qualidade do filme, seja de roteiro, seja de aspectos técnicos. No entanto, mais do que estátuas douradas, a maior vitória da produção é mostrar uma história de amor tão delicada, interessante e, porque não, bizarra com tamanha qualidade artística. Quem se deixar levar pela história de Elisa vai aproveitar um dos melhores longas desse comecinho de 2018 – e, talvez, de todo o ano. Guilhermo Del Toro pode não acertar sempre, mas quando acerta, não nos decepciona jamais.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora

Receba nossa newsletter!