Exemplo de retomada para a Chapecoense vem de acidente com Brasil de Pelotas

O processo de reconstrução que a Chapecoense vai enfrentar já foi percorrido, em escala menor, pelo Brasil, de Pelotas (RS).…


O processo de reconstrução que a Chapecoense vai enfrentar já foi percorrido, em escala menor, pelo Brasil, de Pelotas (RS). Sete anos atrás, o ônibus que transportava a delegação após um jogo-treino despencou em um barranco de 40 metros na cidade gaúcha de Canguçu. O acidente deixou 26 feridos e matou o preparador de goleiros Giovani Guimarães, o zagueiro Régis e o atacante Cláudio Milar, uruguaio ídolo do clube. Entre os passageiros estava o ex-goleiro Danrlei, que se tornou deputado federal (PSD/RS).

Para recompor o elenco, Internacional e Grêmio cederam jogadores. O técnico Claudio Duarte se ofereceu para trabalhar de graça (apenas pela alimentação e hospedagem) para substituir Armando Desessards, que se afastou por nove meses para se recuperar de fraturas na coluna e tornozelo. A Federação Gaúcha de Futebol (FGF) e o antigo Clube dos 13 doaram R$ 50 mil.

Os danos emocionais, no entanto, foram profundos. O acidente ocorreu 19 dias antes do início do Campeonato Gaúcho. Os jogadores tiveram o apoio de psicólogos, mas não adiantou. Uma parte do time estava em campo enquanto outra estava no hospital. Até mesmo os atletas recém-chegados, que não viveram o acidente, acabavam influenciados. “Vários jogadores choravam nos vestiários”, contou o fotógrafo Carlos Insaurriaga, que estava no ônibus e hoje é assessor do clube.

O trauma maior eram as inevitáveis viagens. “No meio do nada, algum atleta pedia para o ônibus ir mais devagar. Mas ele estava a 40 km por hora”, lembrou o zagueiro Carlão. “Um mês depois, ainda estava tirando cacos de vidro do couro cabeludo. Foi um sacrifício pela família dos que partiram”, disse o ex-zagueiro Alex Martins.

O clube não poderia simplesmente desistir do torneio por causa da situação financeira delicada. O rebaixamento para a segunda divisão do Campeonato Gaúcho foi inevitável. Dois anos depois, em 2011, nova queda. Agora para a Série D do Campeonato Brasileiro.

Os torcedores criaram a associação “Cresce, Xavante”. Com rifas, campanhas de arrecadação e promoções, ajudaram a recuperar a estrutura do clube com a construção do alambrado e do placar eletrônico. Dentro de campo, a diretoria optou por jogadores mais experientes para voltar à elite estadual. Aí começou o círculo virtuoso que todo clube procura: melhores resultados, mais sócios, maiores arrecadações, novos patrocinadores e bons jogadores.

Em 2014, o Brasil-RS conquistou o título estadual do Interior, o que significa ser a terceira força do estado, atrás de Grêmio e Internacional. No mesmo ano, subiu para a Série C do Brasileiro. Em outubro de 2015, os torcedores já celebravam o retorno à Série B em uma vitória emblemática da reconstrução – a vaga foi mantida em 2016.

No elenco atual, nenhum atleta vivenciou o acidente. A tragédia da Chapecoense, no entanto, fez com que jogadores e dirigentes revivessem seu luto. Carlão conta que não dormiu depois da queda do avião. “Vou guardar cicatrizes para o resto da vida. A gente sente saudade dos companheiros. Tu entra no ônibus e sente ainda aquela impressão ruim”, disse Alex, hoje professor de Educação Física.

O deputado Danrlei preferiu o silêncio. Pelos assessores, disse que esse assunto não faz bem para ele, que passou por algo parecido e, além disso, tinha amigos no voo da Chapecoense.

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