2018 marca os 60 anos da bossa nova

Apesar de celebrado atualmente, estilo que virou símbolo da música brasileira foi rechaçado pelos músicos da região


Foto: Arquivo pessoal
Tom Jobim e Vinicius de Moraes: fundadores do estilo musical

O ano de 2018 marca os 60 anos da bossa nova, movimento que surgiu no final da década de 1950 trazendo inovações para a música popular brasileira, no que tange a harmonias e divisões melódica. Por todos os cantos do país devem explodir nos próximos meses homenagens e celebrações ao estilo fundado por nomes como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Donato e João Gilberto.

Tanta festa e reverencia até nos leva a pensar que a bossa nova já nasceu adorada e, como hoje, era um exemplo de qualidade e sofisticação. Mas não foi nada disso. E muito menos aqui na região. Os músicos da época viam a novidade como uma aberração, uma afronta à tradição de cantores como Nelson Gonçalves, Orlando Silva e a instrumentistas como Dilermando Reis. “Foi ódio à primeira vista”, atacou o falecido violonista Roque Borelli, em entrevista ao LIBERAL em junho de 2008. Borelli foi um dos mais elogiados músicos da região, entre o final dos anos 1950 e 60.

O filho de Roque, Hercules Borelli, 75, também se recusa até hoje a ouvir o estilo. “O violão era baixinho e ninguém deles tinha voz”, resume o hoje seresteiro, que começou na profissão ao mesmo tempo que a bossa nova chegava às rádios do País. “Ninguém daqui cantava aquilo. As moças não gostavam e os rapazes achavam que era música de afeminado”, brinca Hércules. Para o radialista e pesquisador Beni Galter, ex-apresentador da rádio VOCÊ (AM 580), o problema em relação à bossa nova não era só musical, mas social. “Os grandes nomes da música brasileira vinham quase sempre de uma classe muito baixa. Eram pessoas do povo que cantavam para o povo. Já os bossanovistas eram tidos como uma elite, filhos da alta classe do Rio de Janeiro. E foram enquadrados como esnobes”, ressalta Beni.

O cantor e compositor Sérgio Augusto, que nasceu em Santa Bárbara d´Oeste e hoje vive nos Estados Unidos cantando o estilo, começou a aprender violão já no começo da década de 1960, e mesmo assim ainda lembra que os modelos de violonistas que os jovens procuravam eram outros, bem diferentes do estilo dissonante de João Gilberto. “Fora isso, aquele tipo de letra soava estranha para quem morava aqui no interior. Não tínhamos barcos, praias ou garotas de biquini atravessando as ruas”, comenta Augusto.

Mas quando isso começou a mudar? Quando a bossa nova virou sinônimo de boa música e orgulho nacional? Para o pesquisador Zuza Homem de Mello, autor de um dos livros de referência sobre o movimento, “Eis Aqui a Bossa Nova” (Editora Oxford), de 1975, o sucesso do estilo no exterior a partir de 1962, e as gravações de Tom Jobim com Frank Sinatra, em 1967, foram fundamentais para essa nova percepção.

Beni Galter acrescenta que a adoração das gerações seguintes ao estilo também foi essencial à transformação de mentalidades. “Chico Buarque, Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa. Todo mundo que veio depois saldou o estilo com veneração”, reforça.

E se hoje vemos uma unanimidade sobre a importância da bossa nova na linha evolutiva da música popular brasileira, é bom lembrar que o caminho não foi um barquinho a deslizar no macio azul do mar.

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