Biblioteca em horta de Americana surpreende os clientes

Pequeno agricultor montou acervo com cerca de 300 livros horta do Parque Novo Mundo para incentivar o hábito da leitura nos jovens da região


O americanense Elias Francisco de Morais mantém uma horta no bairro Parque Novo Mundo. Ele anotou em sua agenda, no dia 19 de abril do ano passado, a frase “Me leva, me cuida, assim podemos nos compreender o silêncio, que nos ensina a viver”. Esta frase foi registrada no muro de seu estabelecimento, e não remete à horta, mas sim à uma minibiblioteca que ele montou no local, instalado na Rua Guarujá, 567.

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O acervo hoje conta com cerca de 300 obras, e o empréstimo dos livros funciona como como em uma biblioteca comum, por meio do controle de fichas

A iniciativa de Elias está localizada a cerca de 15 minutos de carro, ou 1h de ônibus, da Biblioteca Municipal Professora Jandyra Basseto Pântano, a única de Americana. A iniciativa surgiu bem antes da descrição, há cerca de oito anos. “No começo tinha duas, três pessoas que traziam livros para mim. Como eu tinha muitos em casa, comecei a trazer para cá. E não é que ‘tá’ dando certo?”, espanta-se o autônomo em entrevista ao LIBERAL, na última terça-feira (7).

O acervo hoje conta com cerca de 300 obras, e o empréstimo dos livros funciona como como em uma biblioteca comum, por meio do controle de fichas. “Tem umas 35 a 40 fichas aqui. Eles trazem os livros e eu dou ‘baixa’”.

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Elias se orgulhar ao falar da variedade de seu acervo, que guarda enciclopédias ilustradas, clássicos da literatura, romances, dramas e obras educativas. “Tenho uma completa coleção de livros que são requisitados para os vestibulares. Inclusive a filha de uma cliente minha está estudando para o vestibular e empresta os livros daqui”.

Foto: João Carlos Nascimento_O Liberal
Identificação no muro da horta, no bairro Parque Novo Mundo, convida clientes e população à leitura

O agricultor, que tem 47 anos e escolaridade até o segundo grau, quer incentivar o acesso à leitura e educação da população, para não deixar crianças a adultos “entrarem no mau caminho”, como ele se refere à criminalidade. “Hoje, o que eu aprendi, o que eu sei, veio com a leitura”, ressalta.

Elias trabalha das 6h às 18h diariamente, inclusive aos finais de semana, e confessa que o cansaço nas horas livres atrapalha o velho hábito da leitura. “Já li muito, mas hoje tenho que trabalhar. É muito pouco o tempo em que fico parado, porque se não estou trabalhando, cuido dos meus filhos, fico com a família. Comecei essa horta para dar de comer aos meus filhos. Não assisto televisão, fico sabendo de tudo falando com as pessoas!”, justifica.

“Diversas hortas de Americana são montadas em terrenos da Prefeitura. E o que a população ganha com isso? Isso daqui [a biblioteca] poderia ser um trabalho exigido pela Prefeitura para quem tem horta, porque tem um custo zero!”, sugere o autônomo, que paga aluguel de R$ 1,2 mil para manter-se no endereço atual. E o projeto ainda não está concluído. Ela quer classificar as obras de acordo com os gêneros, e espera conseguir doações de mais exemplares e prateleiras para expandir sua biblioteca.

Foto: João Carlos Nascimento_O Liberal
Idealizador da biblioteca se orgulha da variedade do acervo, que vai de clássicos aos novos

Conheça outros projetos curiosos que incentivam a leitura pelo Brasil:

Leitura no Vagão
O analista de sistema Luís Fernando Tremonti arrecada livros e os deixa de propósito nos vagões de trens e metros da cidade de São Paulo para que as pessoas os levem para casa e leiam.

Bicicloteca
O ciclista Robson Mendonça arrecada obras em São Paulo e as entregam para moradores de rua, que muitas vezes gostam de ler, mas têm vergonha de entrarem em bibliotecas públicas.

Tenda Leve e Leia
A Biblioteca Municipal de Americana realiza no próximo dia 24 mais uma edição do projeto, onde quem passa pela Praça Comendador Müller pode levar livros gratuitos para casa.