George Clooney ressuscita roteiro dos irmãos Coens para seu longa ‘Suburbicon’

Havia dois filmes estrelados por Matt Damon na seleção do Festival de Veneza deste ano, ambos dirigidos por amigos do…


Havia dois filmes estrelados por Matt Damon na seleção do Festival de Veneza deste ano, ambos dirigidos por amigos do ator. Downsizing, de Alexander Payne, e Suburbicon, de George Clooney. Nenhum dos dois é 100%, mas apresentam certas qualidades. Em Downsizing, Damon faz um homem insatisfeito com sua vida. Ele ouve falar de um experimento de miniaturização de pessoas que está sendo feito por cientistas nórdicos. Reduzidas a proporções liliputianas, as pessoas consomem menos, gastam menos, poluem menos. Parece perfeito, e o planeta agradece, mas, na hora H, a mulher desiste de acompanhá-lo na aventura e deixa o personagem de Damon na mão.

O conceito de Downsizing é um condomínio fechado, para pessoas especiais (no sentido de minúsculas). Suburbicon passa-se na ‘suburbia’, uma versão idealizada do ‘american way of life’, nos anos 1950. Uma ‘América’ fechada, bem sucedida e completamente wasp, habitada por brancos, anglo-saxões e protestantes. Ah, sim, é necessário acrescentar que, no Brasil, o filme ganhou um acréscimo ao título original, e é Bem-vindos ao Paraíso. Quem chega a esse paraíso branco, um enclave, é uma família de negros. Talvez o subtítulo correto fosse Estranhos no Paraíso, pois é o que são. Julianne Moore até estimula o sobrinho a brincar com o garoto afrodescendente, mas o restante da vizinhança não tem essa abertura. A integração viria na década seguinte, e assim mesmo depois de muita luta por direitos – que o cinema tem lembrado ou reconstituído em êxitos recentes. O tema de Suburbicon não é a integração, mas seu oposto, a discriminação.

Desde a coletiva do filme em Veneza, divulgada para todo o mundo por correspondentes das maiores agências de notícias, Clooney e Damon não se cansam de explicar que, embora tenha tudo a ver com o neoconservadorismo (neo, por que?) e a onda racista que tem emanado da Casa Branca, Suburbicon não nasceu exatamente como uma reação da dupla – ator e diretor – à presidência de Donald Trump. Liberais de carteirinha, Clooney e Damon admitem que foram atropelados pela candidatura, e vitória, de Mr. Trump.

Sinceramente, não acreditavam que isso fosse possível, mas foi. A origem de Suburbicon é mais antiga. Remonta a um roteiro original dos irmãos Joel e Ethan Coen, datado de mais de 30 anos, quando eles estavam começando.

Justamente, os Coen. Seu humor peculiar e o estranhamento que a situação produz – o filme não é ‘estranhos no ninho’ e, na verdade, a família de afro-americanos, os Mayers, importa bem menos que a de wasps, os Lodges – antecipam algumas ideias que os Coen voltariam a desenvolver, e aprimorar, em filmes como Arizona Nunca Mais e Fargo. Pegando carona no mestre do suspense Alfred Hitchcock, os Coen poderiam dizer que a família negra e o ‘McGuffin’ de Suburbicon, a nota falsa sobre a qual se assenta toda a estrutura dramática. O filme é menos sobre os Mayers e muito mais sobre os Lodgers.

A família wasp é feita refém por gângsteres sádicos, e o episódio todo termina em morte violenta, e rios de sangue. Talvez seja a grande piada interna de Suburbicon – the private joke -, o fato de Clooney ter dado ao amigo Damon o papel do chefe de família talvez mais pusilânime da produção recente de Hollywood.

Difícil imaginar papel menos encaixado na persona do astro da série Bourne, mas Damon, ou seu personagem, Gardner, protegido pela condição de branco, presumivelmente ‘superior’, acima de qualquer suspeita – naquela América racista -, pode sair ensanguentado na rua sem que ninguém estranhe. Talvez seja o ponto de Clooney – que país é esse? No mundo aparentemente imune, e no fundo insano, de Suburbicon, a mais frágil das criaturas – o menino branco – revelará sua força e conseguirá sobreviver ao horror.

Executada a série em cinco episódios Unscripted, o longa é o sexto realizado por Clooney desde que incorporou, às funções de ator e produtor, a de realizador – em 2002, com Confissões de Uma Mente Perigosa. O Clooney diretor, mesmo em projetos ambiciosos como Boa Noite, e Boa Sorte, tem usado o cinema para reafirmar posições políticas. Com os amigos Damon, Brad Pitt e Julia Roberts, ele se estabeleceu naquele patamar das pessoas belas bem pensantes. Só não é um grande diretor. Mas se esforça.

Suburbicon possui uma brilhante reconstituição de época, e o elenco de profissionais marca as cenas, mesmo que não seja Damon o destaque da interpretação. Julianne Moore, como a mulher dele, Rose, é ótima – e, no caso dela, a pergunta que, invariavelmente, se faz é ‘Quando Julianne não é fora de série?’ Outro destaque é Oscar Isaac, o Poe de Star Wars – Os Últimos Jedi. Isaac já foi ator dos Coen e dá um show como o investigador que fuça atrás de alguma irregularidade no seguro de vida de Rose. Você não precisa ser fã de carteirinha dos Coens para saber que seus excessos, no roteiro, já são pensados como mise-en-scène. Com Clooney, são floreios que carecem de significado.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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