Letícia Sabatella encara papel complexo na TV

Atriz analisa as opressões e maldades da megera Delfina de “Tempo de Amar”, na Rede Globo


O jeito tímido e a postura delicada de Letícia Sabatella convivem naturalmente com a intensidade artística e o desejo de autonomia que cercam a atriz. A pluralidade humana sempre a encantou e são exatamente essas ambiguidades que a atriz procura a cada nova personagem. “Ninguém é só força ou fraqueza. Defendo o brilho e a escuridão dos papéis que me são confiados. O contraste que pulsa dentro de cada um de nós é sempre inspirador”, filosofa.

Entre a opressão e as maldades de Delfina, sua personagem em “Tempo de Amar”, da Globo, a atriz se mostra satisfeita em encarar um de seus papéis mais complexos na tevê. “Delfina é uma personagem que sempre esteve à margem. Foi rejeitada pela mãe, é abusada pelo patrão desde a juventude. Tem uma filha com ele e se rebela pela vida cruel e quase invisível que leva. É uma mulher vítima da própria mágoa”, analisa.

Foto: João Miguel Júnior / Rede Globo
Letícia encara Delfina em “Tempo de Amar”

Nascida em Minas, mas criada em Curitiba, Letícia estreou na televisão já fazendo sucesso, na pele da prostituta Taís, de “O Dono do Mundo”. Após uma breve incursão pela Manchete, construiu na Globo uma carreira sólida a partir de novelas como “Torre de Babel” e “O Clone”, e séries como “Os Maias” e “Hoje é Dia de Maria”.

Aos 46 anos, Letícia vive um dos momentos mais frutíferos de sua trajetória, dividindo-se entre os papeis na televisão, peças “cabeças” e uma crescente carreira musical. Além da novela, ela segue o trabalho com a banda Caravana Tonteria e se prepara para a turnê do espetáculo teatral “A Vida em Vermelho”, na qual interpreta cantora francesa Edith Piaf.

Desde de “Caminho das Índias”, de 2009, que você não interpreta uma grande vilã. Como é voltar a esse posto?
É pesado. Não fiz muitas vilãs na minha carreira, gosto mais de me envolver com personagens de energias mais equilibradas. Ao mesmo tempo, sei que existem pessoas ambiciosas que realmente só querem sugar e manipular quem está por perto. A Delfina é uma figura indiscutivelmente forte, mas ela usa todo seu potencial para prejudicar os outros. E, no final, ela é sua maior vítima. É uma vilã muito complexa e bem escrita.

Sua luta pelo feminismo a aproximou da personagem?
Sem dúvida. As personagens dizem muito sobre quem as interpreta. É claro que reprovo profundamente as maldades que ela pratica na trama. Mas a novela também está aí para falar de opressão em um mundo comandado por homens. Delfina servia sexualmente ao patrão desde nova, tem uma filha com ele, mas parece ser invisível dentro daquela casa e na sociedade. Ela não quer que a filha tenha o mesmo destino.

A revelação dessa relação entre empregada e patrão pode fazer com que a personagem passe por algum tipo de redenção?
É possível. Mas até que isso seja resolvido a Delfina ainda será muito humilhada pelo José Augusto (Tony Ramos). Ele nunca foi verdadeiramente apaixonado por ela. É uma situação totalmente ligada à submissão. Ela não tem como sair daquela casa e ele não consegue viver sem os cuidados dela. Um é refém do outro, mas é claro que o amor, mesmo descoberto de forma tardia, pode transformar essa interação.

Além de atuar, hoje você canta, apresenta, produz e dirige. Quando foi que apenas ser atriz passou a ser insuficiente para você?
Foi um movimento crescente. Chegou uma hora em que eu quis realmente testar formatos, linguagens e não estar apenas servindo a uma personagem. Além disso, é claro que cada papel tem uma mensagem, mas ser ouvida por minhas próprias ideias e defesas é muito importante também.

Seu envolvimento político em causas sociais é notório. De onde vem essa postura?
Da vida. Sempre tive interesse e respeito pelo próximo. Acho que a gente não vive em uma bolha e é preciso prestar atenção ao que está acontecendo ao nosso redor. Desde os clamores dos índios à necessidade de reformas que realmente interessam ao povo e não aos empresários, chegando ao desmonte que um governo ilegítimo promove diariamente e que afeta todo mundo. Não consigo ficar parada e faço a minha parte.

Você é presença constante em fóruns, reuniões e protestos. Em algum momento você já pensou em largar a arte em prol de sua sua “persona” política?
Não separo a atriz da ativista e acho que são duas partes de mim que convivem muito bem. Só consigo ter voz por conta dos trabalhos e da visibilidade que a tevê proporciona a quem aparece nela. As pessoas podem usar o “status” de celebridade de diversas formas.

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