Eriberto Leão: questões eternas

No ar em “O Outro Lado do Paraíso”, Eriberto Leão valoriza a função social do ator


A cabeça de Eriberto Leão vive em constante ebulição. E talvez seja por isso que o ator de 45 anos tenha o habito de racionalizar e refletir sobre sua profissão em todos os momentos possíveis. No ar como o psiquiatra Samuel, de “O Outro Lado do Paraíso”, ele mantém uma postura enfática e assertiva sobre a importância da função social do ator ao questionar assuntos pertinentes à sociedade.

“Sou um ator, um intérprete. Esse personagem do Walcyr Carrasco é uma fonte de discussões. A arte abre as portas e o público escolhe se quer entrar ou não. Estou a serviço da arte e esse personagem faz com que as pessoas se questionem e trabalhem a dialética”, filosofa.

Foto: Jorge Rodrigues Jorge / Carta Z Notícias
Aos 15 anos, Eriberto cantou e tocou guitarra em uma banda punk chamada Hip Monsters

Na trama das nove, Samuel é um médico que escondia ser homossexual. No entanto, o profissional entra na mira de Clara, papel de Bianca Bin, após ser responsável por sua internação em uma clínica psiquiátrica no passado. Para se vingar de Samuel, ela decide expor seu caso com o motorista Cido, vivido por Rafael Zulu.

Paulista de São José dos Campos, Eriberto começou na tevê na novela “Antônio dos Milagres”, exibida pela Rede CNT em 1996. Após o folhetim, o ator colecionou mais algumas tímidas passagens pela televisão, como na série “Sandy & Júnior” e na novela “O Amor Está no Ar”.

No entanto, o papel que colocou Eriberto no radar dos autores e diretores de tevê foi o bronco Tomé de “Cabocla”, de 2004. De lá para cá, ele entrou para o principal “casting” da emissora e protagonizou produções, como “Paraíso” e “Insensato Coração”.

Apesar de estar inserido em um texto com toques cômicos, você representa um personagem bastante contido em cena. Como você fugiu da construção caricata do Samuel?

Eriberto Leão Fui muito cuidadoso. Minha composição é minimalista mesmo. Os detalhes são captados pela câmera, que percebe bem mais que o olho humano porque ela tem o close, tem o foco maior..

“O Outro Lado do Paraíso” é seu terceiro projeto com Walcyr Carrasco. De que forma conhecer o texto do autor ajudou no seu processo artístico?

Eriberto O texto foi base de tudo. O Walcyr escreveu uma história ótima. O mais importante foi seguir o que o ele criou e como a direção traduziu. Mas apenas seguindo o texto encontrei boa parte do caminho. Não preciso inventar uma história à parte para o personagem porque todas as informações necessárias estão no capítulo.

Logo no início da novela, o Samuel arma contra a mocinha da história. Você acredita que o personagem beira a vilania?

Eriberto O lado vil do Samuel surge a partir do momento que, para defender a sua mentira, ele destrói o mundo de outra pessoa. Ele entra na vingança da Clara porque deu o remédio para ela ter um surto, o laudo médico e também o nome do hospício no qual ela foi internada. Ele faz tudo para tentar se defender e conseguir apoio para seu livro. O crime que o Samuel cometeu foi bárbaro, ele como psiquiatra enviou uma pessoa sã para um hospício.

Quando começaram os trabalhos para “O Outro Lado do Paraíso”, você afirmou que o Samuel era um dos personagens mais complexos de sua carreira. Com pouco mais da metade da novela no ar você ainda acredito isso?

Eriberto Sim, claro! Ele é o mais difícil em termos de camadas, de lugares que vou descobrindo junto com o público, assim que os capítulos que chegam, ao lado da direção. Tudo de uma maneira muito sutil. A construção de um personagem é uma preparação muito intensa e longa e trouxe a todos nós da novela a possibilidade desses personagens existirem desde o início.

“O Outro Lado do Paraíso” aborda o machismo, racismo e a corrupção. Como é participar de um projeto com tantas bandeiras sociais?

Eriberto É bem complexo. São várias temáticas que permeiam os brasileiros e são negadas ou escondidas para debaixo do tapete. Só há uma maneira de conseguirmos evoluir que é expor as coisas como ela são. A humanidade avançou porque soubemos compreender as diferenças. Amo a minha profissão e amo fazer grandes personagens que geram discussões. Essa novela é uma obra de arte.

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