As apostas mais seguras na teledramaturgia

As séries, influenciadas pelos serviços de “streaming”, chamaram mais atenção do que as novelas


Em 2017, a teledramaturgia continuou amargando queda nos índices de audiência. Talvez por isso, as emissoras tenham optado por não arriscar e seguir em suas zonas de conforto. A Globo escolheu exibir uma novela de época, que é quase uma garantia de sucesso. Não à toa, “Novo Mundo”, de Thereza Falcão e Alexandre Marson, foi eleita a “Melhor Novela” de “Melhores & Piores de TV Press 2017”.

“A Força do Querer”, de Gloria Perez, nome que é outra garantia de sucesso, também teve méritos, mas não chamou tanta atenção como sua concorrente das seis e ganhou apenas as categorias “Ator Revelação” (Silvero Pereira) e “Atriz Revelação” (Carol Duarte).

Com delicadeza e a dose certa de clichês folhetinescos, “Novo Mundo” soube integrar texto direto e apuro estético para contar a História do Brasil através da vida de Dom Pedro como nenhuma outra novela do ano. Apesar disso, foi Cao Hamburguer o eleito como “Melhor Autor” pelo roteiro de “Malhação”. Sem pesar a mão no “mais do mesmo” – como é feito na maioria das temporadas -, ele escolheu cinco meninas para protagonizarem a sua história e não teve medo em tocar em dramas infantojuvenis.

A Record também quis trilhar por um caminho conhecido. Por isso, escalou mais uma novela bíblica para seu principal horário de novelas. Mas com a escolha equivocada de elenco e com um texto pouco ágil e cheios de barrigas, acabou deixando “O Rico e Lázaro” com o título de “Pior Novela”. “Vade Retro”, da Globo, também teve problemas com o texto e escalação. Com uma fraca e despreparada Mônica Iozzi e o texto igualmente sem força de Alexandre Machado e Fernanda Young, a série acumulou os revéses de “Pior Série de TV Aberta” e “Pior Atriz”.

Apesar disso, a Globo teve outras séries que se destacaram neste ano. “Cidade Proibida” ficou com o título de “Melhor Figurino” e “Filhos da Pátria” ficou com “Melhor Série de TV Aberta” e ainda “Melhor Ator” para Alexandre Nero. Os diálogos ágeis e a forma de falar sem apelar para a prosódia foram uma excelente escolha de Bruno Mazzeo em “Filhos da Pátria”. Além disso, contar com nomes como Fernanda Torres, Alexandre Nero e Matheus Nachtergaele no elenco é quase uma garantia de um bom trabalho.

MELHOR ATRIZ

Em um ano em que Juliana Paes e Paolla Oliveira roubaram a cena em uma novela das nove, é difícil que as atenções se voltem para qualquer outra atriz. No entanto, é preciso exaltar o mérito de Letícia Colin, que teve uma figura histórica bastante conhecida e adorada em seu primeiro papel central em uma novela.

Em “Novo Mundo”, a atriz interpretou a princesa Leopoldina. Com um sotaque austríaco muito bem construído e que não teve modulações ao longo do folhetim, ela soube dosar a força e a fragilidade da mulher de Dom Pedro e, sem dúvida, merece ocupar o posto de “Melhor Atriz” do ano.

SÉRIES

As séries, influenciadas pelos serviços de “streaming”, chamaram mais atenção do que as novelas. Tanto na Globo quanto nos canais fechados, boas produções foram vistas ao longo de 2017.

Entre produções boas e ruins, o Multishow teve, pela terceira vez consecutiva, o título de incubadora da “Pior Série de Canal Fechado”. Depois de “Trair e Coçar é Só Começar” e “#PartiuShopping”, “A Vila” foi a escolha de 2017. Se “Vai que Cola” já era ruim, uma releitura da “sitcom” é pior ainda.

MELHOR CENOGRAFIA

May Martins e Marcelo Carneiro, cenógrafos de “Pega Pega” tiveram um trabalho árduo na atual novela das sete. Para contar a saga do roubo do Carioca Palace, eles construíram um hotel de cinco estrelas na Estúdios Globo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Cheio de luxo, o lugar funcionou como um personagem, abrigando grande parte das cenas do folhetim. Além disso, uma vila da Tijuca – bairro da Zona Norte carioca – também foi recriado. Para isso, três cidades cenográficas foram utilizadas e cerca de 10 mil m² foram feitos pela dupla.

Foto: Divulgação
Me chama de Bruna

MELHOR SÉRIE

Sensual na medida

Baseada na biografia de Raquel Pacheco, a ex-prostituta Bruna Surfistinha, a série “#MeChamadeBruna” traz a novata Maria Bopp em um papel difícil e denso. Apesar da complexidade, ela consegue se sair bem na pele da protagonista e entregar uma atuação limpa e convincente. A direção delicada de Márcia Faria também foi um acerto da produção do Fox Premium.

PIOR SÉRIE DE TV FECHADA

“A Vila”, do Multishow, um tiro no pé

O sucesso do “Vai que Cola” acendeu um sinal de alerta no Multishow. O canal a cabo entendeu que poderia investir em produções no mesmo formato. E, apoiado no carisma de Paulo Gustavo, lançou “A Vila”.

Foto: Divulgação
A Vila

Com um arsenal de piadas manjadas, de clichês do humor, de improvisos batidos e de histórias supérfluas, a produção resume o que há de pior na tevê fechada. O problema nem se concentra em Paulo Gustavo e sua atuação, ou no resto do elenco, que tem bons nomes, como Katiuscia Canoro e Monique Alfradique. A questão está na preguiça.

O que parece é que não quiseram pensar em um formato ou em uma história. Pegaram os mesmos personagens do “Vai que Cola” e travestiram de novos estereótipos.

MELHOR ATOR

Alexandre Nero em alto posto

Após despontar como o verdureiro em “A Favorita”, Alexandre Nero perfilou papéis de destaque em novelas nos últimos anos. Desta vez, na série “Filhos da Pátria”, esteve impecável na pele do corrupto Geraldo.

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Alexandre Nero

E, ao lado de Fernanda Torres e Matheus Nachtergaele, protagonizou cenas boas, cheias de ironia em um retrato duro da índole brasileira, confirmando o merecimento de seu pertencimento nos mais altos níveis das produções globais.

MELHOR ATRIZ E ATOR COADJUVANTES

Dupla de sorte

Geralmente dando vida a mulheres bonitas e bem-sucedidas, Viviane Pasmanter se descaracterizou totalmente para viver a Germanda, dona da Estalagem dos Porcos, na trama de “novo Mundo”. Com uma maquiagem suja e envelhecida e uma proeminência do queixo, Viviane se reinventou mesmo depois de tantos anos de carreira.

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Guilherme Piva e Viviane Pasmanter

Par de Viviane Pasmanter em “Novo Mundo”, Guilherme Piva também se destacou em uma novela que teve tantos acertos. Igualmente descaracterizado de suas outras aparições na tevê, ele conduziu Licurgo de uma maneira simples e sem afetações. Os diálogos cheios de humor, ironia e escárnio foram um dos pontos altos da trama de Thereza Falcão e Alexandre Marson.

MELHOR FIGURINO

“Cidade Proibida”, da Globo

Para retratar o clima dos anos 1950 de “Cidade Proibida”, Antônio Medeiros precisou fazer uma ampla pesquisa. De um lado, a elite carioca, com homens poderosos e mulheres arrumadíssimas. Do outro, a vida boêmia da cidade.

Foto: Divulgação
‘Cidade Proibida’, da Globo

Assim, de maneira simples e direta, o figurinista arrumou com detalhes e esmero a turma capitaneada por Zózimo, personagem de Vladimir Brichta.

MELHOR TRILHA SONORA

“Os Dias Eram Assim”, da Globo

“Os Dias Eram Assim” teve, em seu favor, a época. No difícil período da ditadura militar no Brasil, não faltaram novos nomes, canções marcantes e discurso politizado. E a direção de Carlos Araújo se valeu bastante disso para compor a trilha sonora da supersérie.

Foto: Divulgação
“Os Dias Eram Assim”, da Globo

Banhados a nomes de primeira categoria como Elis Regina, Secos & Molhados, Milton Nascimento e Caetano Veloso, a produção se destacou com músicas que conversavam diretamente com a trama. Outra aposta acertada do diretor foi colocar o próprio elenco protagonista – Maria Casadevall, Renato Góes, Gabriel Leone (foto), Sophie Charlotte e Daniel de Oliveira – para entoar “Aos Nossos Filhos”, de Ivan Lins, na abertura da trama.

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