‘Pesquisa eleitoral’ motivou encontro de Cristina com ex-executivo

Em depoimento à CEI, ex-prefeita negou o recebimento de doações da Odebrecht, ao contrário do que havia sido relatado por Paschoal


A ex-prefeita de Sumaré, Cristina Carrara (PSDB), confirmou nesta segunda-feira, em depoimento à CEI (Comissão Especial de Inquérito) da Odebrecht Ambiental, o encontro com o ex-executivo da companhia Guilherme Pamplona Paschoal, em 2012, antes das eleições, mas alegou que achava, na época, que o assunto seria uma “pesquisa eleitoral”.

No almoço, entretanto, segundo ela, foram apresentados uma pesquisa de satisfação referente à qualidade do saneamento em Sumaré e também projetos de serviços prestados pela Odebrecht. Ela negou o recebimento de doações da empresa, ao contrário do relatado por Paschoal à CEI e à Operação Lava Jato, oportunidades em que ele disse que a Odebrecht Ambiental doou R$ 600 mil à campanha da tucana por intermédio do ex-secretário de Governo, João Alberghini Sobrinho.

Participaram do encontro em um shopping de Campinas a ex-prefeita, Paschoal e Alberghini. Cristina disse que o almoço foi marcado por meio de um empresário chamado Hudson – e não deu detalhes sobre ele.

“[Hudson] disse que teríamos informações de pesquisa, alguns dados, nós fomos para saber das informações. Candidato, quando se fala de pesquisa, já enxerga pesquisa eleitoral, mas na verdade a pesquisa que nos foi apresentada era sobre saneamento, satisfação, e alguns dados realizados pela empresa que eu nem conhecia, nem sabia que existia uma Odebrecht Ambiental. Foi apresentada uma pesquisa de saneamento, foi falado do caso de Limeira, onde havia um projeto-piloto de saneamento. Foi só uma conversa de explanação da área privada no saneamento”, afirmou a prefeita à CEI.

Foto: Divulgação / CEI
Cristina disse que não presenciou nenhuma conversa sobre doação para a campanha

DOAÇÃO. Ao contrário do relatado por Paschoal, Cristina disse que não presenciou nenhuma conversa sobre doação para a campanha no almoço. A tucana afirmou que Alberghini mencionou a possibilidade de doação posteriormente e que foram informados os dados da conta da campanha para que Paschoal a fizesse dentro da legislação eleitoral, o que nunca aconteceu. Cristina disse que não houve direcionamento da licitação à Odebrecht e que a doação, se tivesse ocorrido, seria normal.

Além das delações de Paschoal, recai ainda sobre Cristina o fato de ter sido relacionada em uma planilha de supostas doações feitas pela Odebrecht com o apelido de “Coroa”, mas disse à CEI que não faz a mínima ideia porque está na lista. O apelido foi classificado como “bastante desagradável” por ela.

COINCIDÊNCIA. Para o presidente da CEI, vereador Willian Souza (PT), que fez 286 perguntas durante as três horas de oitiva, as respostas de Cristina revelam uma “desorganização generalizada” do governo da tucana. “As informações do depoimento geram a preocupação dela ter ferido os princípios da administração pública. Ela confirma o almoço com o Guilherme e fica evidente que esse almoço norteou os rumos da concessão futura. É muita coincidência ela ter almoçado somente com o representante de uma das concorrentes da licitação, e justamente esta ter sido a vencedora. Tudo isso será investigado”, afirmou o parlamentar.

Foto: Divulgação / CEI
recai ainda sobre Cristina o fato de ter sido relacionada em uma planilha de supostas doações feitas pela Odebrecht com o apelido de “Coroa”

Oitiva tem bate-bocas e vaias

Um dos mais esperados desde o início da CEI (Comissão Especial de Inquérito), que apura supostas irregularidades no contrato entre a Prefeitura de Sumaré e a empresa Odebrecht Ambiental, o depoimento da ex-prefeita Cristina Carrara (PSDB) foi marcado por bate-bocas, plenário lotado e vaias do público.

Oponentes políticos desde a turbulência envolvendo a Ocupação Vila Soma em 2015 e 2016, o presidente da CEI, vereador Willian Souza (PT) e a ex-prefeita mantiveram – na maior parte do tempo – tom cordial entre si. As discussões acaloradas, por sua vez, envolveram os vereadores Ronaldo Mendes (PSDB), Marcio Brianes (PC do B), o próprio Willian e o advogado de Cristina, Flávio Henrique Costa Pereira.

O episódio envolvendo o advogado ocorreu no fim do depoimento, quando ele pediu que Willian melhorasse o tom com a prefeita, dizendo que se tratava de uma mulher que tinha idade para ser a mãe do vereador. A resposta foi dura.

“Eu não dou liberdade para o senhor comparar minha mãe com a Cristina Carrara. É uma grande afronta do senhor. Minha mãe não merece essa comparação. Peço que o senhor retifique e guarde as palavras para o senhor. Não permito que a dona Maria, que acorda 5 horas da manhã para fazer faxina até hoje, pega ônibus no transporte público defasado que a senhora Cristina Carrara deixou, e tem que lavar roupa com essa água ruim, seja comparada a ela (Cristina)”, bradou o parlamentar.

Ao fim do depoimento, que foi acompanhado por dezenas de pessoas por meio de uma caixa de som colocada do lado de fora da câmara, Cristina saiu rapidamente sem falar com a imprensa. Ela foi bastante vaiada e o carro em que entrou foi alvo de tapas de alguns manifestantes.