Troca do mundo corporativo por multitarefas é tendência

Abandono do mundo corporativo e dedicação a ocupações variadas, muitas vezes concomitantes, é uma tendência observada no mercado de trabalho


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Foto: Divulgação
Além dos empregos como engraxate e locutor, Francisco ainda cuida de uma horta, que se tornou fonte de alimento para a família

O ano de 2017 foi de muito trabalho para Francisco Lopes Dias, de 50 anos. O baiano, morador de Americana, se dedica a três ocupações para garantir a renda da família. No período da manhã, trabalha como engraxate na Praça Comendador Müller, a tarde, faz a divulgação de lojas do Centro, e o tempo que resta, dedica a sua horta.

“O começo do ano não estava legal, então eu fui buscando alternativas para arrumar um sustento para minha família”, conta Francisco, que trabalhava como técnico de segurança do trabalho, mas não estava satisfeito.

Depois de três meses engraxando, limpando, colando e pintando calçados, ele percebeu que os 10 atendimentos diários não eram suficientes. Foi quando começou a fazer locução para lojas no calçadão. “Eu era uma pessoa muito tímida, não podia pegar em microfone, e hoje eu tenho essa liberdade, não tenho mais timidez”, diz ele.

O abandono do mundo corporativo e a dedicação a ocupações variadas, muitas vezes concomitantes, é uma tendência observada no mercado de trabalho, que se intensificou nos últimos três anos, segundo a coordenadora de recrutamento da agência de recursos humanos A Executiva, Kelly Cristina Campanholo Alves, de Americana.

“Com a diminuição de vagas no mercado de trabalho, as pessoas tiveram que se adaptar à realidade, à falta de oportunidade e muitas vezes à falta de uma especialização. Por esse motivo muitas pessoas começam a trabalhar prestando serviços em diversas áreas”, explica ela.

Marina Martins, de 23 anos, vive essa realidade. Moradora de Americana, ela trabalha como mediadora de uma criança autista, estagia como professora de Inglês e de produções literárias e estuda Letras.

Entre uma tarefa e outra, ela diz ter sentido o desgaste e as sensações de estar sempre desatualizada e sem tempo para os amigos e a família. Por isso, ela garante a importância de gostar do que faz. “Nenhuma das coisas eu faço sem prazer, e por isso eu aguento né?”, brinca.

Foto: João Carlos Nascimento-O Liberal
“Nenhuma das coisas eu faço sem prazer, e por isso eu aguento né?”, brinca Marina

Moradora do Villa Flora Sumaré, Kézia da Silva Rocha dos Santos Chaves, de 37 anos, também deixou o mundo corporativo e dedicou o ano de 2017 a mais de uma ocupação para complementar o sustento da família. Mãe de três filhos, ela vende bolos, doces de fabricação própria e massas prontas e dá aulas de canto.

“Chegar ao final do mês, fazer o cálculo de metas e pensar ‘eu consegui’, isso tem um valor que a gente não consegue mensurar”, conta ela. A rotina corrida não a desanima. “É puxado, mas eu não tenho o que reclamar. Este ano [2017] foi muito complicado para trabalho, e eu ouvi histórias bem tristes de desemprego”, desabafa.

Foto: Marcelo Rocha-O Liberal
Mãe de três filhos, Kézia vende bolos, doces de fabricação própria e massas prontas e dá aulas de canto

DIAS MELHORES. Para o novo ano, Kézia já faz planos. “Comecei a perceber que o mercado está mais aquecido, e eu consigo realizar uma planificação para 2018 e não colocar só pagar conta, mas pensar em uma viagem, em um passeio especial”, revela.

A virada do ano também trouxe mudanças para Marina. Formada e com o estágio encerrado, ela comemora já ter um trabalho certo para 2018 e diz esperar mais tranquilidade. “A gente precisa também ter lazer, não é saudável só trabalhar”, defende.

Além do emprego como engraxate e locutor, Francisco ainda cuida de uma horta, que se tornou fonte de alimento para a família. Todo o esforço em 2017 o deixou orgulhoso. “Hoje, eu posso falar que para mim não tem crise”, afirma.

Foto: João Carlos Nascimento-O Liberal
Hoje, eu posso falar que para mim não tem crise”, afirma Francisco orgulhoso

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