Recusa de familiares é entrave para doação de órgãos

Central Estadual de Transplantes, que completa 20 anos neste mês, comemora o aumento de 916% no número de doadores entre os anos de 1997 e 2017


A Central Estadual de Transplantes – órgão vinculado à Secretaria Estadual da Saúde – completa neste mês 20 anos de existência. Ao longo de duas décadas, a instituição possibilitou a realização de 107 mil transplantes e o número de doadores aumentou 916% entre 1997 e 2017. Por trás dos dados, há inúmeras histórias de pessoas que tiveram a vida marcada pelo trabalho da Central. Ao mesmo tempo, a recusa de familiares segue sendo o maior entrave para a captação de possíveis doadores, eliminando, de bate-pronto, cerca de 40% dos casos.

A cabeleireira Ana Paula Jaqueto de Souza, de Sumaré, conseguiu vencer essa barreira. “Ninguém quer lidar com a morte. Para conseguir doar, tem que aceitar que a pessoa que você ama acima de qualquer coisa está morta e que você não pode fazer mais nada por ela. Só assim você consegue pensar que tem outra pessoa em outro lugar que talvez você possa ajudar”, contou ela, sobre como permitiu a retirada de órgãos do filho Vinicius, que morreu aos 12 anos em um hospital de Americana, isso em 2012.

O garoto, no início da adolescência, morreu em função do rompimento de um tumor no cérebro. A morte foi inesperada, já que ele nunca havia apresentado nenhum sintoma. “Conheci pessoas que precisavam de doação e não conseguiam. A esposa de um amigo fazia hemodiálise. Na hora de decidir, depende se você já teve alguma experiência a respeito disso, e do quanto de informação que você tem a respeito do transplante. Eu já era a favor da doação, e isso me ajudou na hora”, afirmou Ana Paula.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Aposentado Rosivaldo Ferreira recebeu rim da irmã, a corretora Maria Antônia

Enfermeira da OPO (Organização de Procura de Órgãos) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Luciana Aparecida dos Santos disse que o principal entrave para a captação de doadores é a recusa familiar. Essa é, segundo ela, a causa da perda do doador em torno de 40% dos casos. “Esse número expressivo é devido à falta de divulgação da importância da doação de órgãos, pouco conhecimento sobre a morte encefálica e falta de conversa entre os familiares. Existe ainda um grande tabu sobre a morte, gerando desconforto entre os membros da família, que muitas vezes desconhecem a vontade do doador ainda em vida”, explicou.

A morte encefálica, diferentemente do coma, é um estado irreversível. Não há fluxo cerebral e o que mantém o paciente são suportes ventilatórios e circulatórios. Segundo a coordenadora do Sistema Estadual de Transplantes, Marizete Medeiros, a notificação de um potencial doador é compulsória, já que são necessários procedimentos de conservação dos órgãos até que seja feito o transplante, sob risco de perdê-los. Contudo, muitos profissionais ainda não identificam um quadro que culminará em morte encefálica a tempo de acionar uma OPO, o que também provoca a perda de potenciais doadores.

Do outro lado da fila, estão os pacientes que recebem o diagnóstico da necessidade de um transplante para continuarem vivos. Para garantir que a distribuição dos órgãos captados seja justa e atenda aos critérios de urgência, foi criada a Central Estadual de Transplantes. Anteriormente, a captação de doadores era comunicada aos hospitais com pacientes aguardando transplantes, mas não haviam critérios de distribuição de cada órgão.

O aposentado Rosivaldo Ferreira, de 59 anos, morador de Santa Bárbara, precisou passar por dois transplantes. Por causa da hepatite C, seu fígado ficou comprometido. Ele não pôde contar com a Central de Transplantes, que seria criada somente cinco anos depois. “Os médicos disseram que não conseguiram controlar clinicamente o vírus da hepatite e que eu precisaria fazer um transplante de fígado em até seis meses. Essa era minha única chance. Naquela época não existia lista de espera”, completou. A doação veio no último mês do prazo dado – em junho de 1992, um rapaz de 21 anos morreu em um acidente de moto em São José do Rio Preto.

Em 2004, Rosivaldo descobriu que os remédios contra a rejeição do fígado haviam afetado seus rins, e novo transplante seria necessário. Dessa vez, contudo, a salvação foi a irmã, a corretora Maria Antônia Ferreira, de 65 anos. “Todos na família fizeram o exame, porque o médico já avisou que esperar por uma doação na Central seria mais complicado. Eu tive certeza absoluta que seria eu, sentia isso. Os resultados vieram e eu era compatível”, contou Maria Antônia. Atualmente, quase 13 mil pessoas aguardam pela doação de um rim na Central Estadual de Transplantes.

“Aumentar o número de doadores é uma atribuição de todos os agentes envolvidos. Trabalhamos na sensibilização das famílias para mostrar que para algumas pessoas a última alternativa é o transplante, e que doar é um ato de amor que vai propiciar sobrevida a outro ser humano”, disse a coordenadora Marizete Medeiros.

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